Se quiser participar, é só mandar um e-mail pra organizadora em juliadantas@gmail.com pra combinar uma data pro teu relato. Os participantes estão em Porto Alegre ou abandonaram a cidade temporariamente para a quarentena.

6.7.20

Dia 111: por Felipe Nascimento Prestes

Dormi bem essa noite.

Peguei no sono rapidamente e dormi de maneira ininterrupta por oito horas. Venho tendo vivendo essa pequena conquista ou mera normalidade há alguns dias.

Antes disso, tive dias em que era uma luta pegar no sono, ou, então, acordava repentinamente antes da hora. Passar o dia seguinte feito um zumbi tornava ainda mais deprimente o confinamento.

Bem nessa época li uma matéria do El País dizendo que boa parte das pessoas estava tendo dificuldade com o sono e se sentia deprimida. Tive aquele alívio bobo, que em nada muda a condição, mas pelo menos a gente se sente “normal”, seja lá o que isso signifique.

À minha volta, tudo corroborava a pesquisa: cada amigo ou amiga com quem conversava passava por algum problema diferente e super particular, mas, no fundo, tudo era também o mesmo problema. Sofre-se não apenas pelo confinamento ou pelo pânico relacionado à doença ou por problemas físicos e econômicos causados por ela. O confinamento parece gerar ou dar maior relevo a diversas outras questões que a gente ia empurrando com a barriga antes deste micróbio canalha aparecer.

Uma boa notícia seria descobrirmos que junho foi o PICO do desgraçamento psicológico com o confinamento. Que minhas noites bem dormidas foram também as de vocês. E que segue tudo ruim, mas quem sabe menos pior que ontem, amanhã menos pior que hoje, e assim por diante.

5.7.20

Dia 110: por Luís Eduardo Gomes

Uma pequena vitória

Recebi o convite para escrever um relato para este espaço tão bem ocupado nos últimos 100 dias e, confesso, não sabia sobre o quê. Afinal, os dias vêm e vão e o que há neles que mereça ser contado?

Isolados em casa desde que retornamos de viagem no dia 15 de março, eu e minha esposa acordamos, trabalhamos, jogamos videogame, namoramos, assistimos a algo no Netlix e dormimos. Repete tudo de novo no dia seguinte. A rotina só muda no sábado, dia de faxinar o apartamento.

Em tempos de grande sofrimento, não há dúvidas de que esta é uma rotina de privilégios. Logo, um lamento passa longe do tom do texto que me sinto autorizado a escrever. É claro que sentimos, é claro que dói não ver os pais, de ambos, há três meses. Mas eles estão aí, de pé, saudáveis, à espera dos abraços quando tudo isso passar.

Compartilho, então, uma mensagem mais otimista. De uma pequena vitória, irrelevante no grande esquema das coisas, mas uma vitória ainda a ser celebrada no nível pessoal.

Ao contrário do meu irmão, que tem aversão a bebidas com gás, sempre tomei muito refrigerante. Na infância, minha mãe tentava limitar aos finais de semana, sem muito sucesso.

Tomo bastante água, gosto de suco, chá gelado e outras alternativas, mas o refri vinha me acompanhando cada vez mais nos últimos anos. Especialmente a Coca-Cola.

Sim, eu sei que se trata de um veneno. Fui bem avisado nos últimos 400 almoços de família. Mas é um veneno que oferece uma recompensa imediata. Um copo bem gelado, de preferência no início da cristalização, é um carinho na alma.

E, não é que eu não saiba dos malefícios, já tinha tentado parar várias vezes. Nunca, porém, conseguia passar mais de quatro ou cinco dias. A única vez que consegui chegar a um mês foi há cerca de dez anos, em meio a um ataque de gastrite. Mas, passado o tempo, "uma latinha não vai fazer mal", "só no final de semana", "só no almoço". Como não havia ninguém além do próprio bom senso para impedir, o fracasso era dado.

Além disso, se há quem coma chocolate quando ansioso, eu tomava Coca, fosse no meio do trabalho, fosse no momento de escrever a dissertação, tarefa que acentuou os meus níveis de consumo nos últimos dois anos.

Apresentei a dissertação no dia 6 de abril, de forma virtual, como há de ser tudo nestes dias, e isso sem dúvidas trouxe um alívio depois de anos de dupla jornada diária, profissional e estudante, regadas a muito Coca-Cola.

Mas o desfecho desta jornada acadêmica não diminuiu o hábito. Pelo contrário, era almoço, janta e lanche, com as garrafas se acumulando ao lado do lixo nas primeiras semanas de quarentena. Da pressão dos prazos, ao enlouquecedor isolamento.

Esta não é a história mais fascinante do mundo, então encurto.

A coisa chegou no ponto que meu corpo estava tão envenenado que eu nem dormia direito mais. Sabe quando tu toma dois ou três latas de energético e, mesmo horas mais tarde, não consegue dormir? Essa era a minha rotina.

Não sei vocês, mas eu gosto de dormir. Entre aquele carinho na alma momentâneo e seis horas seguidas de sono, fico com a segunda opção, ainda mais no inverno.

E foi assim que eu resolvi parar de tomar refri, dessa vez, para valer.

Lá se vão mais de 40 dias sem Coca. A esposa, que compartilhava o hábito, parou junto. Ainda abrimos exceção para um guaraná aqui e ali, mas bem mais raro, porque um dos problemas das nossas tentativas anteriores era sempre "enjoar" das alternativas e voltar correndo na primeira saudade.

Já durmo melhor, bastante.

A barriga desinchou e o corpo dói menos.

A propaganda contrária é realmente verdade, vejam só, trata-se de um veneno. É, pois, uma pequena vitória. Insignificante no meio de tudo que está acontecendo, mas ainda uma pequena vitória nestes tempos em que tudo parece derrota. Faz bem para alma, e pro corpo.

4.7.20

Dia 109: por Fernando Schmitt

Nos longínquos meses de janeiro e fevereiro, quando o vírus mais famoso do momento aterrissou no solo europeu, pensei: então já era; vou fazer de um jeito que ela não vai esquec... Opa, me deixei levar. É só me distrair um pouco que as sequelas aparecem (enfim, prosseguindo). Em algum momento o tal micróbio virá para o Brasil, país tropical que possui natureza tão exuberante quanto há de desigualdade socioeconômica. A catástrofe sanitária estava anunciada.

Em meados de março, a UFRGS – onde estudo – decretou pausa no ensino presencial. Incrivelmente, apesar de não parecer, já passaram mais de 100 dias nessa quarentena. Ainda fica a sensação que nada está acontecendo. Não conheço ninguém infectado, muito menos que faleceu às custas da doença. POA, que inclusive detinha um posto seguro em comparação ao resto do país, já está com a corda no pescoço. Pressões de todos os lados induzem os governos municipal e estadual a afrouxar medidas, mesmo com índices cada vez mais negativos. Entretanto, observando tudo o que ocorre no planeta, fica impossível não ferver de ódio ao constatar a grande inoperância de outros governadores e principalmente o da esfera federal, justamente aquele indivíduo que balbuciou mentiras, incentivou aglomerações, desdenhou dos mortos... vou parar por aqui, não vale a pena... ainda não, pelo menos.

Em termos mais pessoais, tentei utilizar o tempo de sobra – quando ainda não havia aulas à distância – para enraizar hábitos que julgava pertinentes, todos ao mesmo tempo. Fazer 1h de atividade física, meditar pela manhã e à noite, ignorar meu niilismo existencial, comer verduras. Meu recorde foi de 4 dias: eles sempre desabavam no fracasso (exceto o niilismo, companheiro de sempre, parceria verdadeira). A preguiça universal para realizar qualquer atividade demonstrou que possui mais potencial do que eu pensava. Os primeiros dias de isolamento foram passados deitados na cama, saindo apenas para comer e tomar banho. Nessa situação, uma TVP era mais assustadora que a própria pandemia. Deixa eu ver aqui quanto custa a heparina... aos poucos, com a retomada do ensino (à distância), uma espécie de rotina retornou à minha vivência, porém nem de longe parecida com a normal de outrora.

O que mais sinto falta, sem dúvidas, é caminhar por aí, especialmente perto de padarias. O cheiro irresistível entrando nas narinas, seguido do calafrio gostoso na espinha. Batalhar contra a vontade de se deliciar com certos alimentos açucarados é algo imprescindível ao meu ser – até porque em 94% das ocasiões, eu perco; não tem graça pedir por aplicativos (apesar de que o faço, do mesmo jeito). Tentei aprender alguns dotes culinários (envolvendo docinhos, é claro). Logo notei que não tinha muita paciência, queria era degustar mesmo, de preferência com agressividade e com mordidas pesadas (Oi, Freud?). Como moro com pessoas de risco, e que levam a sério tudo isso, virei o agente do exterior. Agora me resta aguardar as idas ao supermercado. Me visto, penteio o cabelo, passo sabão nos óculos para não embaçar (dica do FSF), desço na porta do prédio, saio e lembro que não peguei a maldita máscara. Passo em cada corredor, com muita calma, olhando os diversos produtos existentes. Faço questão de voltar a pé, mesmo com infinitas sacolas – aproveito e paro no meio do caminho, respiro fundo, espirro 3x (rinite e seus momento inoportunos de aparecer) e vejo a cara assustada das tias que passam do meu lado, fofocando sobre os vizinhos.

Esperaremos um bom tempo ainda. Talvez haja uma vacina nesse ano. Imagino o reencontro com amigos, no bar, falando besteira. A vida parece simples nessa ótica: é justamente essa a lição que busco aprender e desenvolver durante o tempo de eremita que me resta.

3.7.20

Dia 108: Raul Salinas Arrojo

Quando eu soube que se instalava uma pandemia, só tinha uma certeza: a minha esposa estava grávida e nós viveríamos um grande desafio e uma experiência nova. Seríamos pais. Sentia que esse laço familiar, o qual estava se formando, seria especial - daquele momento em diante não existia mais eu, e sim nós.

Nós temíamos e tememos por nossa saúde, porém a preocupação era e é exacerbada, o que é notável, pois uma vida viria em meio a um caos de saúde inestimável.

Enfim, o Bento, nosso filho, nasceu em 19 de março, quando já estávamos passando por restrições, já se alarmavam sobre a Covid-19 e pessoas já haviam sofrido com a infecção. Eu sentia aquele misto de emoções inexplicáveis, muitas dúvidas e incertezas começavam a cada dia se fortalecer. Outrora, antes do nascimento, as preocupações já martelavam nossas mentes, como será o parto no hospital? O ambiente estará livre do vírus? A médica, os técnicos ou algum funcionário do hospital pode estar contaminado? Como posso proteger meu filho de uma possível contaminação? Enfim, essas e outras dúvidas pairavam o tempo todo na minha vida e na vida da minha esposa.

O Bento nasceu e nós voltamos para casa, mas como diz meu pai: as “coisas não são mais como antigamente”. Não estamos recebendo visita de familiares, somos pais de primeira viagem e agora não podemos contar presencialmente com o auxílio de nossos familiares, pois preferimos ficar mais isolados zelando pela saúde do nosso filho e pela nossa também.

Como todos nós sabemos, o período é de ansiedade, incerto, inseguro e não estamos acostumados a não conviver em sociedade, não estamos acostumados a não abraçar, não beijar, não acariciar nossos familiares e amigos; porém, repentinamente temos que deixar nossos instintos de lado e seguir as orientações de saúde necessárias.

Hoje, 03 de julho de 2020, o Bento acordou às 04:30 (ele ainda está regulando seu soninho), fiquei com ele até as 08:00 como de costume e fui estudar remotamente, fiquei sentado à frente do computador até o almoço. A despeito do Rio Grande do Sul estar próximo ao pico de contaminação, eu tive que sair para pagar algumas contas do meu pai.

É impressionante como muitas questões ainda tenham que ser feitas presencialmente. Quando preciso sair para meus pais, sempre fico apreensivo, pois estou sempre num impasse ponderando que preciso fazer isso por eles (pois estão no grupo de risco), mas também não posso me expor, visto que tenho um bebê de 4 meses em casa.

O dia vai passando e eu e minha esposa estamos cansados, porém gratos quando percebemos que nós estamos com saúde. Estamos nos preparando para noite que promete ser talvez a mais fria do ano, pensamos em quem não tem lar, pensamos em comprar um vinho para se esquentar. Sempre nos permitimos fazer planos, então estamos planejando os 2 aninhos do Bento, pois acreditamos que o primeiro será entre nós.

2.7.20

Dia 107: por Reginaldo Pujol Filho

Faz mais ou menos um mês que a Julia me confirmou o dia 2, esse que começa a acabar, como a data em que eu escreveria no diário. Lembro dela me perguntando se eu não conseguiria antes, porque isso dava uma esperança de não planejar mais um mês de isolamento. Lembro de não compartilhar da esperança e também de fazer questão de que fosse uma quinta-feira, porque quintas-feiras são dias mais tranquilos para mim. Um mês se passou e hoje pensei muito sobre ilusão e uma palavra que talvez devêssemos suspender do dicionário momentaneamente ou para sempre: controle. Manter essa palavra no dicionário só, quem sabe, como sinônimo de ficção.

fic·ção
(latim fictio, -onis, .ação de modelar, formação, criação, invenção, suposição, hipótese)
substantivo feminino
1. .Ato ou efeito de fingir. = DISSIMULAÇÃO, FINGIMENTO
2. Invenção fabulosa ou engenhosa.
3. [Cinema, Literatura, Televisão]  Criação de .caráter artístico, baseada na imaginação, mesmo se idealizada a partir de dados reais.
4. Fábula.
5. Interpretação ou relato .subjetivo de um .fato ou de uma .ideia.
6. [Retórica]  Suposição do orador para abrilhantar ou reforçar o discurso.
7. Controlar, ter controle

Essa é das tantas torturas do nosso tempo: esse bicho que cria agendas, bips, post-its, aplicativos de meditação, assistentes virtuais, pilotos automáticos, vê esfregado diariamente na sua fuça o caos, que, na verdade, é e sempre foi rotina. Apenas maquiamos ele bem com nossas parafernálias enquanto o mundo não resolve dar as caras. Um vírus invisível, um ciclone bomba como o de anteontem e acho que ontem também, um presidente desmiolado e desalmado, e pronto: onde está esse bicho superior, as lógicas da macroeconomia? Parece que esse é um pouco o nosso desejo como espécie: controlar, eliminar o acaso. Mas nunca conseguimos. De um mês para cá, a situação não melhorou no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. Piorou. Curiosamente, porque Marchezan e Leite começaram, lá em maio, a se convencer de que estávamos controlando a curva. Não, essa curva é um touro brabo e vocês são uns vaqueiros iludidos. Acham que só porque se mantiveram oito segundos se sacudindo sem cair na garupa do bicho, vocês estavam no controle e podiam botar o bichinho para dormir. Olha o pinote que tomamos.

E a minha quinta-feira tranquila, na qual observaria o dia, seja lá qual fosse esse dia, e refletiria ao final dele, que desastre. Venho há uns quantos dias me equilibrando sobre prazos, correndo sem sair de casa e hoje não foi diferente. Ao refazer toda a pauta do dia para dar conta de um trabalho, me lembrei de como eu havia planejado essa quinta-feira ideal. Todas as férias, os churrascos, os feriadões planejados e convertidos em chuva na hora H já deveriam ter me ensinado que não adianta escolher a melhor data. Não faz parte das minhas condições.

De positivo hoje, além da situação privilegiada de ter casa e comida na geladeira, talvez o fato de não ter tido tempo para ver uma notícia sequer. Lembro daquele texto da Eliane Brum, a partir de ideias do psiquiatra Fernando Tenório sobre estarmos doentes de Brasil. Eu estou. Se pegar Covid e vier a falecer, podem botar nas comorbidades: doente de Brasil. E o melhor remédio, às vezes, parece ser a alienação. Tenho escolhido alguns dias para não me informar. E alguns dias, como o de hoje, em que passei oito horas lendo ficção de alunos e alunas sem parar, escolhem que eu não vou me informar. E esse vazio de notícias (embora, como uma criança no quarto escuro não deixe de imaginar que monstros estão escondidos nas telas escuras espalhadas pela casa) me faz bem. E depois me faz mal: porque me dou conta desse tratamento ao qual, em 39 anos de vida, nunca tive que me submeter. E agora, aos 40, parece ser uma necessidade.

Dias como esse, de tanta correria mental e nenhuma física, me levam a pensar, às vezes, em contas esdrúxulas: me pego somando as pelo menos três horas que ficava no ônibus indo e voltando duas vezes por semana da PUCRS, mais duas horas e meia das caminhadas de 15 minutos indo e voltando da natação, mais umas três a quatro horas de envolvimento com o jogo do Grêmio na Arena e outras duas do jogo na TV, mais umas três horas de um eventual bar com amigos, mais uma hora de deslocamentos para dar aulas na livraria... isso já dá mais de quatorze horas que não utilizo mais todas as semanas. Como fico acordado em média umas 16 horas por dia é praticamente um dia inteiro que eu teria ganho. Não tenho dormido mais, tenho assistido menos a TV, tenho entrado menos no Twitter e não posso acreditar que passo 14 horas desinfetando as compras semanais do Zaffari. Onde enfiei todas essas horas? Não tenho controle sobre elas. É lógico como não é lógico querer ter controle.

1.7.20

Dia 106: por Vera Lúcia Pezzi

Anoiteceu, estou ouvindo Milton Nascimento em sua Live...

Quanta beleza nas suas músicas, letras e voz, mesmo que por vezes trêmula e fugaz, nas lembranças ecoa forte e vibrante.

Talvez hoje eu esteja ainda mais sensível. Me emociono com seu cantar.

Em outros momentos deste dia também me emocionei.

Iniciei o dia assim:

...com um vídeo de crianças cantando, separadas em suas casas. Unidas pelo canto e tecnologia, suas imagens formavam quadros graciosos.

... da mesma maneira emocionei, com a aula de yoga e meditação compartilhada;

...mais tarde com uma Focalizadora de Dança Circular, aproximando pessoas de toda parte, as faziam dançar individualmente, como se estivessem de mãos dadas, descobrindo o poder da Sagrada Intenção.

Estou sensível por tudo que estamos enfrentando em função da pandemia. Tive dias de angústia e depressão. Felizmente tive escuta, tive ajuda...

Então me pergunto:

O que nos faz parar ou agir? ...Criar? ...Olhar para dentro de nós mesmos?

Sobretudo, o que nos faz inventar e conjugar o verbo “Esperançar”

Lamento estar com uma agenda restrita, principalmente porque as pessoas estão temerosas.

Como fisioterapeuta poderia estar minimizando dolorimentos, promovendo saúde e bem estar, mas agora precisamos nos restringir e nos cuidar.

Considero-me privilegiada por exercer minha profissão com interesse renovado a cada dia, e mantendo esta chama acesa, busco novos olhares e novos recursos para substituir o presencial, tudo que possa me fazer sentir útil e produtiva.

O oxigênio que se teme a falta está ainda disponível, mantendo a chama acesa. Motiva a mim e a uma legião de trabalhadores, alguns lutando pela vida, outros produzindo pesquisas, músicas, artes diversas, outros fazendo a manutenção de nossas máquinas, higienizando espaços, recolhendo lixos. Todos essenciais.

É um outro olhar deste momento que estamos vivendo que incentiva e reanima.

Recursos tecnológicos permitem acompanhar o mundo, museus abrem suas portas, pesquisadores, artistas, jornalistas e muitos outros passam a ser nossas virtuais companhias.

Criam-se movimentos de auxílio àqueles que não têm acesso à tecnologia.

Multiplicam-se campanhas por recursos, roupas, alimentos aos necessitados.

Novamente me pergunto:

Quando seremos mais?

Como seremos quando a ameaça acabar? O que vai acabar?

Exercito minha mente e meu corpo, flexibilizo, fortaleço, compartilho, distribuo recursos.

E, quando enfim saio de casa, seja para trabalho ou auxílio, uma voz interna dita cuidados diversos.

É tão estranho, distanciamento, álcool em gel, máscara...

E é no espelho do elevador que me vejo, entre frágil e determinada, agradeço mil vezes por lembrar do principal e indispensável cuidado:

Sorrir gentilmente com o olhar.

É o olhar que magnânimo escapa da proteção e “cegueira” da máscara.

Sim, é possível distribuir sorrisos usando máscara.

Possível aos olhos de quem sorri e aos olhos de quem percebe, recebe e retribui.

29.6.20

Dia 104: por Marisa Schroeder

Dia 17/03/2020 fui surpreendida, assim como todos os gaúchos, com a novidade do isolamento social. Naquele dia não conseguiria imaginar o que isso significaria muito menos o que teríamos pela frente.

Tenho percebido que, como todos que estão vivendo essa pandemia, venho passando por diversas etapas. O medo está sempre rondando, a ansiedade também, assim como as noites de insônia. Também tem momentos legais, surpresas "doces" de amigas queridas, mensagens simples e significativas no whatsapp, reuniões pelo meet, momentos em que sinto não estar tão sozinha.

Essas experiências têm mostrado, cada vez mais, o valor dos encontros. Este é o ponto mais dramático dessa pandemia na minha vida. A falta dos encontros.

Estou afastada do meu filho, que é muito cuidadoso e segue todos os protocolos de prevenção a Covid-19, desde março. Entendo e apoio as razões dele e me sinto cuidada com esse afastamento. Precisamos mesmo nos manter afastados de quem amamos, porque precisamos proteger quem amamos. Esse paradoxo é complicado.

No entanto, por conta de uma circunstância pessoal, que me deixou em vantagem, neste fim de semana tive o privilégio de um encontro com parte da minha família. Foi ótimo mas não perfeito, pois não foi possível reunir toda a família e meu filho não teve o mesmo privilégio que eu.

Vivi esse momento com muita intensidade, quase me assustei em sentir tanta felicidade em meio a essa pandemia. Como é bom estar em família, escutar vozes e ser escutada. O aniversário de uma sobrinha muito querida me presenteou com esse afago no coração. Espero que essa dose de carinho me abasteça para que eu possa enfrentar toda a imprevisibilidade que temos pela frente até que eu possa novamente dar meu melhor e maior abraço para meu filho.

28.6.20

Dia 103: por Glória Di Leone



Durante o afastamento social acordo cada dia mais tarde, pois durmo cada vez mais cedo, ou seja, próximo ao amanhecer.

Mesmo assim ainda é cedo.

Não há tempo para ler todos os livros que repousam na estante, nem para realizar a limpeza da casa como planejo, nem de assistir filmes, entrevistas e lives que me interessam.
Como pode?
Sem falar no tempo de ócio necessário, entre uma xícara de chá e outra, contemplando o nada, tocando o instante com a ponta dos dedos, oferecendo uma pausa para o pensar.

De repente uma estranha angústia me traz o medo do futuro, uma insegurança relacionada ao trabalho, o temor de não ver mais os filhos e de não encontrar o mínimo de previsibilidade na vida.

Percebo o quanto é difícil lidar com a constante ameaça de um ser invisível e desconhecido que se expande pelo planeta.

O que me salva neste momento?
Talvez a arte. Voltei a pintar aquarelas, me dedicando às conchas.
Mas por que conchas?
Porque um ser que habita a concha é um ser amparado, em seu estado de isolamento, curvado sobre si mesmo.



O ser que habita a concha se abriga, mas também prepara uma saída, fala Bachelard.

Então já não me preocupo com incertezas.
Pintar conchas, recortar formas, compondo colagens me coloca em contato com o presente.

O presente é o real.
A vida no exato instante em que o pincel toca a tinta e a dilui com água, que se espalha no papel, dando origem a novas tonalidades.
O presente é fugaz.
É um sopro de vida possível ou impossível, dependendo da forma como se encara a ruptura do cotidiano, provocada pela pandemia.

Então me escondo. Procuro abrigos de paz, tentando espantar morcegos. Tento me encontrar como ser vivo que um dia abandonará sua concha.
Porém tenho dúvidas. Será este, mais tarde, meu desejo?

Há quem diga que existe um risco de viver só.  Seria a intolerância à presença do outro. Pois o ser vivo se molda de acordo com seus contornos e labirintos, desistindo depois de compartilhar espaços com outros seres falantes.
E adaptado ao silêncio, o único ruído suportável se torna o barulho do mar, que vem de dentro.
Então as palavras deixam de ser necessárias, pois aprendendo a viver em isolamento o ser às vezes acaba descobrindo sua zona de conforto, desistindo de abandonar sua concha.

27.6.20

Dia 102: por Marcelo Coelho da Silva


Inebriante

Já se passaram 85 dias desde o início da pandemia. O estado de emergência foi decretado em Porto Alegre no dia 17 de março, desde então, eu também me encontro alerta. Passei a beber com mais frequência, até evoluir para diariamente. Por noites tenho apelado para o chocolate. O doce é inebriante e também me fornece bem estar. Racionalizei a situação e decidi não comprar mais chocolates. Tenho estado sozinho. Falo sozinho. Tento cantar. Reviso os quartos vazios dos meus filhos todos os dias. Sozinho, gastei uma barra de sabonete inteira, mas ainda não consegui acabar com o xampu.

Há 37 dias, seis horas, 17 minutos e 47 segundos não toco em ninguém. Trinta e tantos dias em que ponho o pé dentro de casa, ligo a televisão, vou tomar banho e janto em minha auto-companhia. Preciso de algum ruído além dos meus próprios. A Miche e as crianças estão bem longe, em segurança. Alegrete, no interior gaúcho, é um oásis se confrontada com a Capital e é um paraíso se compararmos à situação brasileira.

As matérias jornalísticas são insalubres e povoam telejornais, rádios, jornais, sites de notícias. A realidade é deletéria desde a sua negação até o seu sensacionalismo. As notícias só não são mais infames e anacrônicas do que o Presidente da República. Como último ato, ele achou por bem mandar suprimir informações de mortes acumuladas dos atuais boletins epidemiológico-militares do Ministério da Saúde. Isto em um país onde há uma subestimação monstruosa de casos pela falta de testagem dos doentes. Talvez ele deva acreditar que pessoas mortas e não contabilizadas são pessoas “não mortas”. Mas, se também são pessoas “não vivas”, então serão zumbis? Sei lá o que se passa naquela cabecinha vil. Em plena era da informação, alguém acredita que estes dados irão desaparecer? Nem a indigência será empecilho a essa resposta. Contudo, a cena nacional tem evoluído num roteiro digno do Monty Python. O histórico de atleta do nosso mandatário máximo, que o deixou imune ao coronavírus, ajudou-o a demitir um ministro da justiça e dois da saúde em meio ao caos sanitário. Temos pexotadas, temos bizarrices em “entrevistas” diárias. Ainda bem que os internautas registraram, e estão registrando, aquelas falas para todo o sempre. O nosso país está sendo elevado a uma categoria de chacota mundial.

Desprezando a raiva, deixemos a política pra lá um pouco. Vamos aos números. Segundo sites independentes, no placar da Covid-19 no Brasil, temos 38.497 mortos, 742.084 casos confirmados, uma taxa diária girando em torno de mil óbitos e, em letras garrafais nos scouts do Governo, são 311.064 pacientes curados. Estamos ganhando de lavada, minha gente! Só que não...

Aqui em Porto Alegre a situação parece estar mais controlada. Os números totais de pessoas que perderam a vida para a doença são considerados baixos (48) e o sistema de saúde está suportando bem. Parte da população, aquela mais fervorosa, parou de nos acusar de que estaríamos levando a cidade à falência. O comercio está reabrindo. Os shoppings voltaram a ser palco de clientes ululantes. Sôfregos a consumir, eles devem ter rogado a algum Santo atlético. São Paulo Cintura, rogai por nós!

Eu achei uma aposta arriscada. Mas o quão chata seria uma vida sem riscos, não é mesmo? Dizem por aí que o vírus do desemprego é pior do que o da doença. Fiquei pensando nisso. Empregos são perdidos desde que o mundo é mundo, mas só perdemos a vida uma única vez. Eu já fui demitido (umas três vezes) por diversos motivos. Consegui dar a volta por cima porque tinha uma família, que me suportou, e porque tinha S-A-Ú-D-E para suportar.

Na minha função de fiscal da Vigilância em Saúde, um dos objetivos do trabalho consiste em ações de prevenção para que as pessoas não precisem de hospitais. Logo no começo, acreditava que o primeiro mês de pandemia seria o pior. O que foi um erro grotesco, e estou com medo de qualquer antevisão do futuro.

Até aqui, enfrentamos muita coisa pesada, onde a morte esteve por perto. A morte e a ignorância. A ignorância e a mesquinharia. A mesquinharia e a ganância. A degradação humana vem de eras. Havia trabalho análogo ao escravo, resultante de relações de poder desequilibradas, e garis submetidos ao descalabro humano. Houve quem enxergasse oportunidades de lucrar com a pandemia oferecendo um drive thru para coleta de exames para Covid-19. Até aí, tudo bem, se não estivesse sendo utilizado o estacionamento do condomínio em que se localizava o laboratório. Imaginem o Seu Fulano, terapeuta holístico, chegando para trabalhar e sendo recepcionado por um astronauta na garagem. Também foi preocupante o caso de uma empresa terceirizada para a coleta de lixo hospitalar da cidade. Os trabalhadores paramentados descarregavam as bombonas de lixo infectadas e, junto a esta área de contaminação, podiam beber água filtrada por um equipamento com três torneiras. E, se quisessem relaxar um pouco mais, tinha também uma garrafa térmica com café adoçado que poderiam sorver em copinhos plásticos dispostos em cima do filtro. Tudo isso é impressionante. Mais do que isso, é impensável.

Teve uma inspeção que vale contar com detalhes. Foi a do cemitério. Por ironia, o mesmo cemitério católico onde os meus avós paternos estão sepultados. Era uma demanda banal. Alguém reclamando de que os funcionários do cemitério não tinham álcool em gel, não usavam máscaras, não faziam distanciamento das pessoas, não, não, e mais não. Enfim, pensei em aproveitar a oportunidade para fazer uma visitinha a Vovó e Vovô. Porém, eu sofro do “mal do fiscal”, e comecei a elaborar hipóteses: E se eu encontrar algum velório? E se a capela estiver lotada? E se o falecido testou positivo para o novo coronavírus? E se o caixão estiver aberto? Pois então, o meu sangue começou a circular frio pelas veias. O pior é que o “mal do fiscal” não termina por aí. Na minha cabeça, produzi respostas aos questionamentos hipotéticos: Vou ter que averiguar o velório. Vou ter que mandar as pessoas chorarem em casa. Vou ter que perguntar à viúva (ou viúvo ou filho ou neto) do defunto se a (ex) criatura morreu de Covid-19. E, como todo o “mal do fiscal” não termina bem, vou ter que mandar fechar o caixão e enterrá-lo de imediato. É aterrorizante esta ânsia dramaturga. Então, eu fui até o endereço denunciado. Confesso que suava ao entrar no cemitério, apesar de ser um dia frio de outono. Havia uma névoa suspensa no ar, e o silêncio era indefectível. Em linha reta, dirigi-me ao setor administrativo. Rapidamente, o gerente de vendas e atendimento ao público (descobri que cemitério tem gerente) me deu a notícia. Relatou com uma voz assustada que, naquele dia, não havia nenhum velório. Terminada a inspeção, decidi ir embora o quanto antes. A visitinha aos meus avós ficou para outra oportunidade.

Agora, estou há 37 dias, seis horas, 30 minutos e 12 segundos sem tocar em ninguém. A televisão continua a matraquear. Enquanto a minha família estava aqui comigo, eu podia tocá-los, dar e receber abraços, trocar um pouco de calor humano. Tento me convencer de que eles estão mais seguros onde estão e que eu estou bem. Posso trabalhar tranquilo sem a preocupação de trazer a doença para casa e infectar as pessoas que amo. Sou um adulto racional. Até gosto de ficar sozinho e...  Que estupidez! A quem eu pretendo enganar? Não estou preparado para este tipo de solidão. Não estou.

Tentei participar à distância da vida deles. Fizemos vídeo-chamadas, trocamos áudios, fotos, mensagens, mas parece que falta alguma coisa. A minha esposa se desdobra para manter a nossa proximidade. Apesar dos esforços dela, os detalhes se perdem. Aquele sentimento espacial de completude não está disponível para mim. Eles não estão nem na minha visão periférica, nem naquele contato de almas que se tem sem sentir. Falta presença, em todos os sentidos. Eu nunca havia estado assim tão frágil.

Meu filho cresce a olhos vistos. Tem só quatro anos. Ele é argumentativo, engenhoso, persuasivo ao extremo advogando em causa própria. Fala comigo ao telefone com desenvoltura. Papai, eu fiz novos amigos hoje! Pergunto do que brincaram. Eu escalei uma árvore sem ninguém ajudar. Queria que tu visse! O papai não conseguiu mais responder.

A minha filha, na última vez que a vi tinha três dentinhos, agora tem quatro. Está começando a falar. Oi, não, tchau, Tetê, mamãe, papai. Pede papá, indica que quer aguinha. Adora fazer bagunça com o mano. Fala papai para tudo, e aponta para a tela do celular. Menina de sorriso fácil. Sempre sorri quando me vê, joga-se para trás encobrindo o rosto com as mãozinhas (fazendo-se de envergonhada). Já possui trejeitos que são somente dela. Mal caminhava, agora corre e anda com firmeza. Eu não estive por perto. Dela, eu perdi coisas demais.

Além das crianças, eu sinto uma falta terrível do abraço da minha mulher. Virei um taciturno horripilante vagando pela casa. Penso nela e, como se imergisse dentro de mim, transporto-me para encontrá-la. A sua boca, o seu hálito, o brilho em seus cabelos, as suas curvas sendo percorridas pelas minhas mãos. Desperto por noites a fio, estendo o braço, e não a encontro. Seu lugar na nossa cama está gelado. Desabo no silêncio. Na minha cabeça, um zumbido vazio me aturde. Só escuto este maldito zumbido! Sinto uma dor de cabeça cansada e lágrimas fugidias, ultimamente.

Não sei o que ainda teremos de enfrentar aqui em Porto Alegre. E isso me preocupa, pois o retorno da minha família é incerto. Nesta semana atendi dois surtos da doença, um com oito, outro com cinco infectados. Lugares tão distintos quanto o revólver e a reza, mas por iguais insurgentes. Os números de casos e de óbitos causados pelo sars-cov-2 têm aumentado, e ainda tem gente capaz de negar a realidade. Meus colegas epidemiologistas revelam que os surtos estão aparecendo em toda a Capital, e ainda existem os sabichões que não acreditam na pandemia. Preferem não assistir a Globolixo (sic). É, simplesmente, inacreditável. Como se o problema maior fosse a notícia (em seu viés), e não a capacidade pessoal de interpretação da mensagem.

A solidão me facilita a pensar em tudo. Chega num ponto em que o cansaço vai se transformando em raiva. Achei que a minha se dava só no campo político, mas nada é só. Estou cansado desta gente fraca. Minoria que parece multidão. Gente fraca sem um pingo de empatia, sem uma nesga de solidariedade. Gente estúpida! Pessoas sem respeito! Enquanto uns adoecem, outros se divertem. Enquanto uns morrem, outros fazem festinhas proibidas. Isso não é rebeldia, crianças! Vocês se aproveitam de uma situação para a qual não estão contribuindo. Ficam bêbados entre amigos. Vão pescar, fazem churrascadas, riem até vomitar, tomam mate ao pôr do sol. E o meu rosto está marcado de tudo.

Agora, estou bêbado e sozinho. Ganhei olheiras, que ganharam vincos no meu rosto marcado pelas máscaras. Vincos desenhados até as orelhas. Sulcos pelos quais escorri saudades ao acordar à noite. São verdadeiras cicatrizes que me acompanharão no espelho.

Li em um livro do autor espanhol Javier Cercas que o ofício de escritor é muito filho da puta. Pois o bom escritor torna visível o que já é visível e ninguém quer ver. Aquela realidade desconfortável, que as pessoas desejam negar, o escritor a desnuda usando o dom da escrita como escudo para não enlouquecer. Para Cercas, e eu concordo, ao enxergar a realidade, um escritor nunca mais deixará de vê-la e terá de conviver de modo pacífico (se conseguir). Fiquei pensando nas coisas que vi e no que estou (e estive) fazendo. Eis que tenho dois ofícios filhos da puta. Tenho que trabalhar pela saúde dessa gente fraca também. É muita empáfia minha achar que sou escritor. Talvez eu me torne um daqui a alguns anos. O fato é que me sinto melhor depois de descarregar por aqui as angústias dos últimos dias. Posso não ser um escritor, mas já estou utilizando o escudo.

Estou há 37 dias, seis horas, 39 minutos e 27 segundos sem tocar em ninguém.

26.6.20

Dia 101: por Gustavo Czekster

O fim do tempo

O que faz com que um dia seja um dia? Ou melhor, o que faz com que 24 horas sejam plenas, pulsantes, repletas de acontecimentos, sons, reviravoltas, dissabores, alegrias, e que todas essas pequenas rusgas na realidade constituam um tempo tão bem vivido a ponto de ser chamado de “dia”?

Pergunto isso por que perdi um dia. Aconteceu em torno de três semanas atrás: imaginava que era quinta-feira, tinha uma agenda de atividades para cumprir na sexta e, no final da tarde, descobri que já estava vivendo na sexta. O que aconteceu na quinta-feira que perdi? Ou melhor, será que ela existiu?

Depois descobri que outras pessoas estavam passando pelo mesmo fenômeno, o apagamento do tempo. Dormiam de dia e tinham madrugadas ativas; almoçavam às quatro da tarde e jantavam à meia noite; confundiam as semanas, as datas comemorativas, os aniversários dos entes queridos. A quarentena apagou a noção de tempo passado e tempo a correr, além de ampliar o alcance do espaço, eis que estamos confinados nos cômodos reduzidos de nossas casas. Para mim, uma pessoa acostumada a acorrentar o tempo em relógios e calendários, a noção de estar vagando em meio à indefinição temporal é fonte de angústia: se eu não acreditar que estou vivendo no dia correto, em qual dia estou vivendo? Ainda estou no presente?

Desculpem a minha inconformidade, mas perder um dia é inaceitável. Sei que muitas pessoas dizem que perderam o dia fazendo algo chato ou maratonando uma série, fazendo pães artesanais, ficando na cama. No meu caso, perdi o dia de maneira tão completa que o apaguei da minha memória, e receio que nunca mais irei recuperá-lo. Ter essa aterradora certeza me fez perguntar quantos dias já não perdi no decorrer da minha vida, quantos dias ainda me restam. Não temos uma cornucópia infinita de dias, eventualmente iremos chegar ao nosso último. A quarentena trouxe consigo o desconforto de colar um dia no outro, uma semana na outra, um mês no outro, até que o tempo cronológico se tornou uma grande borra de acontecimentos insossos. Foi incrível notar o quanto somos pautados pelos encontros, e o quanto os nossos compromissos, prazeres e a vida social acabam fazendo surgir o tempo.

Impossível não lembrar o início de “Preâmbulo às instruções para dar corda em um relógio”, de Cortázar: “quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar”. A quarentena nos liberou do inferno dos minutos, horas, dias e semanas a que estamos confinados: o tempo passou a correr devagar para uns e rápido para outros, pode se apagar por algumas horas ou ser dolorosamente presente em outras. É capaz de fazer os anos se acentuarem ou retardar o surgimento das rugas. A quarentena transformou tudo, inclusive a nossa saúde, em uma incógnita; mais do que nunca, agora, somos nosso próprio tempo.

Foi possível observar uma mudança gradual durante o período de isolamento: desde a euforia dos primeiros dias, quando as pessoas se entregaram com volúpia a fazer cursos, assistir filmes, comentar política, ler livros e pesquisar sobre o vírus, até que, com o passar do tempo, a rotina começou a impor suas regras sufocantes, esmagando-nos por completo entre as suas impiedosas engrenagens. As horas deixaram de passar; todos os dias tornaram-se o mesmo. Um dia não aproveitado continua sendo um dia? Ou não passa de um acúmulo enfadonho de minutos? Se for assim, pobre desse Deus incauto que, ao criar o Universo, se condenou a uma eternidade de dias iguais, modorrentos, chatos: criou o seu próprio inferno.

Alguns otimistas dizem que o vírus vai deixar a humanidade melhor, mais centrada, mais disposta a pensar no próximo – não foi o que vimos até agora. O vírus parece ter despertado as bestas que moravam escondidas nas frestas dos pensamentos, e o mal sempre é mais divulgado do que o bem.

Em um texto psicanalítico, leio que o coronavírus é o “vírus da solidão”: ele nos força ao isolamento social; impede-nos de encontrar as pessoas amadas, os amigos, os familiares; ele segrega avós dos seus netos. Depois de contraído, o coronavírus continua isolando: os pacientes são presos em alas específicas, das quais existe a grande possibilidade de não saírem vivos; não podem se despedir dos familiares; estão cercados por pessoas desconhecidas trajando roupas especiais; não lhes permitem sequer tocar outro ser humano. Após a morte, ainda há um último e cruel isolamento: enterros vazios, familiares distantes, menções de nomes em um que outro boletim, a transformação de uma pessoa em um número frio dentro de uma estatística insensível. Não somos preparados para a solidão.

A quarentena encaminha-se para um fim, de certa forma, melancólico. Não por causa da aguardada cura, mas por que as pessoas preferiram deixar tudo nas mãos da sorte. Enquanto as estatísticas gritam mortes e apregoam a necessidade de um pouco mais de proteção ainda por algum tempo, as pessoas sentem-se abandonadas pelo governo que deveria protegê-las e preferem rolar os dados, confiantes em serem bafejadas pelo Destino. Talvez o vírus não entre na nossa casa, talvez a Morte vá espreitar a vida de algum vizinho. Talvez não seja tão grave quanto dizem, talvez a cura surja na forma de um remédio corriqueiro. Talvez o governo minta, talvez os jornais mintam. Cercados de incertezas, caminhamos sobre pilhas de mortos, fazendo de conta que não escutamos o estalar dos ossos que espreitam nossos passos culpados, nossas aglomerações, voluntárias ou não.

No entanto, a minha quinta-feira continua desaparecida. O que fiz nela? Qual a vida que tive nesse dia? Às vezes, acordo no meio da madrugada, ainda sacudido pela instabilidade do tempo cronológico que deixei de contar com a precisão (falsa) de um relógio suíço, e observo os prédios ao redor. Várias luzes acesas, pessoas caminhando de um lado para o outro, algumas delas paradas na janela: somos uma legião de desorientados. Como eu, talvez estejam procurando dias perdidos. Mas as respostas – todas elas – estão na literatura, é só uma questão de procurar, - e Faulkner disse qual a verdadeira função de um relógio, esse “mausoléu de toda esperança e de todo desejo”: “Dou-lhe esse relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu tempo tentando conquistá-lo”. A quarentena também nos ensinou a esquecer que o tempo existe.

25.6.20

Dia 100: por Elisabeth Abreu


Já peço meu primeiro perdão desde o início, porque sei que sou pipa demais para escrever um bom diário.

Estou mal e porcamente presa ao chão. De poucas convicções, uma é que o tempo é o vento, passa sem ninguém ver e só se sente quando pausa... e estabacam-se as pipas no chão. Esse, aliás, é um desses raros momentos de estabacamento, se tudo der certo. Outro perdão requerido: eu tenho medo do chão. Por favor não me façam ficar muito tempo no chão, eu não aguento. Chão duro é desgraça demais para meu corpinho de bambu e rabiola. Quero ficar longe, longe... onde o tempo passa e eu fico lá, voando no mesmo lugar.

Nessa missão de marcar ao menos um dia num diário, tenho a chance de ouro, para mim, pelo menos: amarrar essa corda solta em um ponto fixo, uma vez na vida. Ter certeza do hoje para depois me lembrar que, por mais que pareça, não estou suspensa num tempo pré-tempo de lenda, sem início nem fim.

O que são cem dias? Não sei. Cem vezes nascer do sol, sem vezes para se nascer sol nenhum? Devo ser sincera e dizer que vejo o sol cruzar de ponta a ponta da minha janela, quando as nuvens assim me permitem. Então, podem confiar, ele ainda existe e está lá. Mas então outra confissão... de uns tempos para cá eu tenho visto o quadrado da minha janela cada vez mais como uma moldura. Aos poucos meu quarto vira um museu meio deprimente. A paisagem que eu vejo vai terminar de virar uma pintura qualquer dia desses, e infelizmente, é uma pintura meio feia.

Mesmo que cá na cidade o sol seja enquadrado por prédios, paredes, antenas, guarda-chuvas ou olhares para baixo, eu sempre baseei minha noção temporal no nascer e pôr do sol. Nada inovador, eu sei, e tampouco consciente. Tanto é, que passaram noventa dias para eu entender que não havia passado nenhum, de verdade. Se foi por o sol não ter nascido ou por eu não ter vivido, fico suspensa e sem resposta.

Pergunto de novo: o que são cem dias? Eu não levantei cem vezes, não rabisquei nem escrevi nem escutei nem toquei flauta cem vezes, não vi cem filmes e séries e animações, não tentei me alongar nem me esforçar nem liguei cem vezes, não li contos e contas e artigos e relatos cem vezes, não comecei projetos, não desisti de projetos, não fiz contato, não faleci de tédio nem de medo nem de saudade cem vezes. Não, porque o sol do primeiro dia nem sequer se pôs ainda. Eu não o vi ir, nem vir, então ele não foi nem veio...certo?

Talvez seja só a consequência cósmica e melancólica do pós-solstício, essa certeza de que o tempo agora não se marca e sim vagueia em Hiperbórea até o meu aniversário lá no equinócio. Sim... uma estação segue a outra, sunrise, sunset, logo o ciclo volta a fazer sentido. Ainda vou me convencer que o tempo só começa na primavera de novo. Mas como vamos chegar na primavera se o tempo não passa? É até irônico, mas se o tempo é o vento, e ele parou, como que ainda estou voando presa no mesmo lugar? Suspensa de novo, sem resposta.

É por isso que eu não faço diários. Estabacamento é um negócio delicado. Talvez eu deva recomeçar, deixar as coisas mais concretas. Ou tentar. Vamos lá:

Paro o que estou fazendo e medito, recomeçando. Que dia é hoje? Sim, já falamos sobre isso, é o centésimo. Não, é o primeiro ainda. Estamos no canto primeiro, chuchu. Tá, mas é vinte e cinco hoje. Já se passaram cem páginas. Mas como? Quando que a história anda? Ela tem andando, e bastante. A corrente, se não meu barco, joga uma frota inteira nas pedras. Onde estão essas pedras? O mar é ilusão, são tudo pedras, é só uma questão de profundidade... no fundo no fundo, até a menor delas quebraria esse barquinho. Só que aqui onde eu tô, o mar não é raso, ou não está. Que sorte. Será que o horizonte está tão curvo que não dá mais para ver? É uma odisseia estática, e na melhor das hipóteses, sem intercorrências... é isso?

Alguém amarra a alegoria na âncora e a âncora nas Fossas das Marianas, por favor. E que fossa, nossa. Não, tangente, pode parar.

Que desventuras nesse meu barco-pipa à deriva, que desventuras nesse primeiro-ou-centésimo dia? Bem, o barco está bem, seus navegantes estão... bem, surpreendentemente bem até, eu diria. O horizonte parece o mesmo, bem curvo, só mais nublado quase não vejo outros barcos. As janelas, abertas porque está abafado, e fechadas porque está chovendo, e abertas de novo porque precisamos ver o que está acontecendo no mundo. Mas não era uma pintura esse mudo? Qual a realidade de olhar pela janela ou pela janela do computador? Como disse, na melhor das hipóteses, sem intercorrências. Se é tédio, uma vocação para pitonisa ou pra mênade que vão decorrer de nada decorrer, só o tempo para dizer. Isso, quando ele voltar a andar.

24.6.20

Dia 99: por marília-saldanha

Solidão solar

Ontem foi um grande dia para o Brasil. Um ministro da educação que desonrou o cargo e desrespeitou o povo brasileiro das mais diversas maneiras foi deposto. E o sumido do Queiróz, policial militar amigo do presidente com pê minúsculo, foi preso. Brindes com sucos de laranja! É neste espírito que escrevo. Mas não esperem uma análise política da nossa conjuntura. Aproveito apenas a atmosfera de renovadas esperanças para compartilhar com vocês minha experiência na pandemia e na quarentena. Desde que me propus a escrever, me vi fazendo contato com uma certa melancolia, serena e suave de fundo. Junto o micro e o macro como tintas e talvez saia um texto aquarelado, sigamos!


Pois o contexto do corona me pegou em fase recente de aposentadoria. Eu que fui aeromoça e psicóloga e que também enveredei pelo campo acadêmico com forte viés feminista, estou em pleno processo de reinvenção, aos cinquenta e seis. Imaginem-se chegar nesta fase da vida, morando só, começando a se tornar boêmia e com alma de artista se desnudando. Nascida em Porto Alegre, saí da terrinha aos vinte um e morei vinte cinco anos fora. Pois é, camaradas! Fui para o mundo sob as asas da Varig, morei em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Roma, em Los Angeles. Há dez anos que voltei para a aldeia.

Tornei-me uma mulher desengajada do mundo doméstico, tive dois casamentos e trabalhei ininterruptamente por mais de trinta anos. Pude me dar ao luxo, neste país de tanta desigualdade social, de parar e pensar para onde ir daqui pra frente. O que realmente me move? De tudo o que fiz e experimentei, o que pulsa dentro de mim? Estas interrogações andavam comigo quando no verão decidi reformar a cozinha. Os montadores chegaram quando já era recomendado evitar os contatos físicos. E foi assim que lhes disse “lamento não apertar sua mão” quando o senhor na entrada do meu apartamento estendeu seu braço na minha direção. Sejam bem-vindos neste contexto estranho!

Pois eu não tinha ideia, de quanto aquela cozinha renovada me faria feliz nos meses que se seguiriam. Virou palco para dançar, cantar, performatizar! É onde mais fico na casa. Preparo meus pratos vegetarianos, veganos e sorvo missô todos os dias, meu bálsamo benigno. O isolamento alargou minha relação com a solidão fértil. Se antes ficava bem, hoje fico melhor. Digo isto porque fui localizando com o passar dos dias que a solidão coletiva teve o efeito de me acalmar. Não estou perdendo mil eventos...claro que há as lives, mas ando mergulhando nos livros. E nas escrituras diárias. Escrevo há anos e agora mais.


Não se enganem, eu sinto saudades. Quando caminho no décimo andar, no terraço modesto do prédio, aqui no centro histórico, olho para o céu. Todo dia ele está lá diferente e lindo. Meu jeito de espreguiçar os pensamentos. E, às vezes, choro. Sinto tantas coisas. Amo viver. Caminhar por uma hora ou quase, é aquele bom encontro com o movimento e com o meu estado emocional do dia e daquele momento. Não se enganem, eu sinto saudades de vocês que não conheço. E de outras criaturas com quem senti a pele, o beijo, o abraço. Ah, não se enganem se eu parecer auto suficiente. Não, não. É resistência. Resistência adquirida com o primeiro corte que me afastou da família em 1986. Longa história. Mas estou de volta e todo dia observo as diferentes posições do sol.

23.6.20

Dia 98: por Ana Maria Meinhardt

O buquê de gérberas, rosas e lírios orientais interroga-me de volta. São vinte horas e há cinquenta anos Karin paria Betina no Conceição; vinte horas e Betina  responde à trinta felicitações paralelas. Hoje soube particularmente a feriado - o aniversário ou o hasteamento da bandeira vermelha (famigeradas bandeiras vermelhas). 

Queria dizer de como meu pai chegou apressado e beijou minha mãe sem lavar o rosto - "mas passei álcool", apressando-se ao banheiro antes de acompanhar-nos à mesa (9h). Dos agradecimentos seguidos de condolências pelas mechas canceladas de Karin; e seguidos de mútua comiseração, votos de fé e risadas irônicas entre minha mãe e sua sogra Leonor (10h). Do zelador Tiago lamentando o salão de festas interditado (mas minha mãe jamais festejaria em salão). Do cartão que Betina lançou à areia da gata no contorcionismo de adentrar a casa (15h).  E da sobreposição do mesmo nome por duas âncoras à fuga deste àquele canal (sempre).

Queria dizer de como negação, colapso e adaptação aplicam-se a cada um, um de cada vez se Deus abençoar - se Deus abençoar, as explosões sucessivas quarto a quarto; e de como temo encontrar gritos congelados quando caírem as máscaras. Dizer da autopiedade ofertando medo ("medo de quê?" "de tudo...quer dizer...não do vírus, da questão econômica"); e de como faz falta misturar meu asco defensivo - descobriu a pobreza agora, mãe? - ao delas (vocês, gurias), cozinhando nosso caldeirão de mágoas fervorosamente para perguntarmo-nos, afinal: isso tem gosto de quê? 

(Uma a uma brande o cálice. Ríamos. O riso nos escudava pra batalha. E o absinto da Cidade Baixa...que submergiu na memória).

A professora contou de alguém que perdia o chão ao andar de avião, não sabia ser entre um ponto e outro porque não se encontrava em lugar algum, e do vazio que o pânico possuía... Então Alguém costurou álbuns destas viagens para carregar consigo ao longo, e venceu. 

Meu pai cospe aos quatro ventos que é um ano de faz de conta.

É um ano de faz de conta pra quem não consegue contar. Não faz cantar esse agudo esdrúxulo e inesgotável de passarinhos assoberbados e guindastes inimputáveis. É incapaz de marchas fúnebres. 

As orquídeas observam minha sofreguidão, amordaçadas como eu, seus pescoços verdes agonizando ao luar; adentro-me, alucino. Privilégio mais polêmico que o tempo de alucinar¿ Que dinheiro pra ter cova e não esgoto. (Afogo em toneladas de flor).

A respeito do esgoto, entre pão e leite matinal a manchete: novo marco legal do saneamento. E discutimos Carris, uberização. Mormaço, mormaço...Ah, deixa eu sonhar o metrô em Porto Alegre que sonho é bússola em céu nublado, além do mais "prometo realizar o que estiver ao meu alcance" (só me alcança antes a realidade). 

A introdução da Voz do Brasil ilumina palhacinhes dançantes no palco do pensamento. E tecidos (vai macaquear nos panos, artista? Viu que o Soleil tá quebrando?). Infalivelmente lembro a performance de Daniel Lima Santiago, O Brasil é meu Abismo.

Lembro que meu abismo é meu princípio. Enfim embriagada, reverencio quem sofregamente relincha contra o vento, construtores de memória (vocês).

A Cidade de Deus é campeã, afirma o jornal. Outra vez. Cantamos parabéns. 

22.6.20

Dia 97: por Carla Vargas

Depois de três meses e tanto esforço, estamos na bandeira vermelha! E já ficou sem graça (se é que um dia teve) contar os dias de “isolamento social”...

Sem exagero, este termo cabe bem aqui em casa já que moro sozinha. Tirando algum encontro esporádico com vizinhos, nos corredores do edifício, ou trabalhadores dos serviços essenciais – mascarados como eu - todos os outros contatos passaram a ser mediados pela tecnologia. Da ligação ou recados pelo celular, às “lives” e vídeo-chamadas... E agradeço muito por isso! Insuficientes e frustrantes no início, hoje, os contatos virtuais representam a única possibilidade segura de manutenção da sociabilidade, da parceria e dos afetos e, por isso, já foram incorporados à rotina da maioria! Quem diria?

Os resistentes a esta alternativa sofrem mais; são raros, mas eu conheço alguns... E sofro junto, pois me fazem falta as conversinhas “bobas”, mas vitais! Acho que são elas que dão sabor à vida...

Ontem foi o meu aniversário e a comemoração: virtual, claro! Não é a mesma coisa: a imagem congela, o som atrasa, alguém cai! Mas é bem melhor que nada... E se eu pudesse fazer um único pedido online para aquela velha fada madrinha da infância, pediria o extermínio sumário deste vírus maldito, miseravelmente pequeno e desproporcionalmente desastroso. Por causa dele, a vida - como a gente conhecia até então - ficou suspensa... Não tem abraço, beijo, visita, cinema, trilhas na natureza, caminhadas à toa, na cidade mesmo...  E quantos projetos foram interrompidos ou adiados como se tivessem morrido subitamente? Muitos! Por causa dele, meu planejamento se reduziu ao curto espaço de 3 ou 4 dias (o cardápio do almoço), e se estende, no máximo, até o pagamento das contas do mês seguinte...

Trancada em casa, às vezes me perco nesse universo infinito e cheio de memórias, lembranças vivas dos tempos de criança, que vem à tona durante as atividades de limpeza doméstica... Lembro demais da minha avó e da minha mãe e suas vidas, tão dedicadas e discretas, que hoje me são tão próximas como se eu tivesse voltado no tempo... Afinal, nunca fiquei tantos dias em casa , desde meus 6 anos, quando entrei na escola! E agora, é isto - entre outras medidas - que pode abrandar as piores consequências provocadas pelo coronavírus.

Estou com pressa, como quase todo o mundo!

Paciência? Nasci sem ela e ainda não aprendi o seu cultivo... Quem sabe eu aprendo até o fim da pandemia? E que seja logo!

21.6.20

Dia 96: por Felipe Schroeder Franke

Num sábado de inverno de 2016, meu vô me ligou de manhã. Naquela época, eu andava ocupado de um jeito bem caótico, sem tempo ou rotina para quase nada, e muito em dívida com muita gente querida. Meu vô era uma delas. Ele me ligou, e me lembro de ouvir a voz dele enquanto me debruçava pela janela do meu apartamento, olhando um dia ensolarado (era ensolarado?) na Cidade Baixa. Falamos coisas simples, mas boas. Quando desligamos, eu afirmei comigo mesmo: eu preciso conversar mais com meu vô, e estabeleci que me obrigaria, apesar dos compromissos caóticos, a ligar para ele no sábado seguinte.

Um dia depois, meu vô passou mal e foi para o hospital. Ficou lá duas semanas, e morreu.

Hoje foi o primeiro dia de inverno de 2020. Chegou ontem, às 18h44, como se fosse o verão, e esse foi, de novo, um fim de semana ensolarado de inverno. Também me debrucei por minha janela, mas sem falar com meu vô. Meu espanto, hoje, era ouvir os barulhos de uma cidade que vive como se nada de diferente estivesse ocorrendo no mundo.

Às vezes eu penso que não seria nada fácil para meu vô passar por essa pandemia. Ele era um homem extremamente ativo, criativo e independente. Depois dos 80 anos, ainda perambulava anualmente entre o Sul (ele odiava o frio) e o Nordeste (ele amava as praias). Do pouco tempo que ficava em Porto Alegre, menos ainda era passado em casa. Ia de lotação ao Centro, ia toda semana no cinema.

Ele era um homem muito engenhoso, mas penso que nem sua inventividade seria suficiente para se manter feliz em casa por tanto tempo. Ele provavelmente teria inventado alguma desculpa para pegar o carro e ir na fazenda do filho em Encruzilhada do Sul, ou visitar as irmãs em Itapiranga. Seria um desafio às regras da pandemia, mas seria um respeito ao espírito aventureiro e ativo que lhe era tão próprio.

Na casa da praia, meu vô tinha um cofre. Houve um verão em que ele decidiu voltar a usar o cofre, mas não lembrava a senha. Passou algumas semanas testando senhas, metódica e progressivamente. Pesquisando, descobriu também que soprar um secador em vento quente (óbvio que seria quente) desencadearia não sei qual mecanismo de dilatação metálica do cofre. Sem senha, mas com muito método, ele abriu o cofre. Não lembro o que tinha dentro. Provavelmente não tinha nada que já não estivesse fora: meu vô gostava de um bom desafio.

Meu vô gostava de um bom desafio, de um bom vinho, e também gostava de um bom verão.

Esta pandemia seria péssima para ele, que - idoso, diabético e ex-fumante - cairia em cheio no grupo de risco. Mas ele adoraria saber que esse início de inverno abriu com um dia de verão em Porto Alegre.

Hoje de tarde, depois de terminar um de meus compromissos (hoje já um pouco menos caóticos que em 2016), servi uma taça de vinho gelado, e senti saudade de não poder compartilhar esse vinho, esse verão extemporâneo, e os desafios da minha vida com ele.

20.6.20

Dia 95: por Aline Stawinski

Já é quase julho, e esse ano, pra mim, nem começou... me dei conta, do jeito mais didático, de que sofrer antecipadamente é um desperdício de energia. Que turmas vou pegar esse ano? Será que vou conseguir o que pedi? Me inscrevo naquele processo seletivo? E o congresso em Milão? Torcicolo, dores no corpo, será, será, será?  Tentei controlar o incontrolável, ansiei por respostas rápidas, e vem um vírus e derruba tudo. Pronto, agora não preciso mais me preocupar – ao menos, não com o que faço ou deixo de fazer... Ainda bem que deu pra aproveitar aqueles finais de semana no litoral, antes de todo mundo parar. Quando vamos poder voltar? Não sei...

Enquanto algumas pessoas parecem enlouquecidas com a abertura de um shopping (é só um shopping, aberto, no meio de uma pandemia...!), eu realmente me considero adaptada ao isolamento. Na verdade, estou até confortável, afinal, tenho uma tese pra terminar, um emprego estável que, por enquanto, permite que eu fique em casa... Tenho meu companheiro com quem posso contar e me sentir segura, dá pra assistir uns filmes e séries, curtir o aconchego da casa... Temos nossos cachorros pra fazer companhia, e que agora nos levam aos passeios diários fora de casa (com a máscara abafando o rosto)... Realmente, pra uma pessoa que sempre foi caseira, nada mau.

Pena que não é só isso. Não é só o alívio da rotina interrompida, das pressões e anseios da vida de quem dá aula, em um contexto cada vez mais desvalorizado (porque, sim, é possível piorar. Sai o ministro da falta-de-educação, e a pasta deve seguir acéfala em todos os sentidos). O mundo não parou porque as estruturas insustentáveis desse planeta se romperam. Elas continuam bem sólidas, aliás – e isso dá medo. São quase cinquenta mil mortos no país. Cin-quen-ta-mil. Acompanhar as notícias nos jornais é uma tortura imposta a mim mesma – mas como fugir das informações, se, hoje, é nosso maior bem? Até isso querem nos tirar.

Queria muito não pensar em nada. Esquecer que estamos vivendo uma pandemia em um desgoverno maníaco. Mas não dá. É impossível. Nem nos sonhos (pesadelos) consigo me livrar da realidade, me dá raiva. Eu não quero acreditar que faço parte de uma minoria que fica com um nó na garganta por causa de uma notícia do jornal, com a injustiça de uma morte injustificável, com o descaso à existência do outro... Porque isso é insuportável.

19.6.20

Dia 94: por Lucas de Melo Bonez

Turva a noite. São tantos dias observando a casa detrás da minha. Pela janela que resvala gotas e mais gotas de uma inesgotável chuva, inesgota meu desejo de vê-la uma vez mais. Já são dias em que a vejo abrir e fechar janela, sem nenhum movimento a mais que desmonte minha peregrinação pela busca de seus olhos.

Da janela para dentro, canta o aguaceiro pela claraboia, contrastando com o inequívoco silêncio que habita em mim. Se a música da tempestade recria um balé de categoria discutível, o que não se discute mais é a insípida vivência que o isolamento me provoca.

Do computador do escritório para a caneca de café na cozinha, com uma breve passagem pelo pátio de roupas estendidas; um retorno amargo para uma sala vazia que canta e desencanta notícias sobre um cotidiano comum – mas ensandecido pela voz de alguns. Falta de máscara? Tropeços? Risadas infames? Delirantes afirmações? De que me serve tudo isso se, na calada solidão do meu escritório, eu mal posso contemplar um dia da felicidade de alguém? Rio-me da desgraça.

Ao menos, ao lavar a caneca, vejo um brilho diferente. Reluzente. Se é o reflexo artificial de uma lâmpada ou a minha esperança por sair livre no dia seguinte, não sei. Mas brilha alguma coisa naquela limpeza. Me boto a olhar o pátio de novo e a chuva vem insistente, tornando esse dia também insistente em não acontecer nada.

Ao retornar para o escritório, ponho-me na frente do computador e começo a escrever. A luz que vem da janela de minha vizinha brilha intensamente de novo. Posso ver sua movimentação, seu circular de um lado para o outro, suas mãos passeando pela imagem como se tresloucadamente se fizessem entender. Mas alguém aparece e tudo escurece. Não se vê mais nada acontecendo do outro lado.

Turva a noite. Turva a imagem de desejo para se transformar em preocupação. E, assim, segue a noite, que lacrimeja mais e mais as poças do meu coração.

18.6.20

Dia 93: por Regina da Costa da Silveira

A máscara em quadrinhos de histórias

Sua máscara de pano, assim como você está a moldá-la de modo a cobrir nariz e boca, Lúcia, faz lembrar nossa colega Anita, em sua antiga instituição de ensino. Mas era com folhas de jornal amassadas que ela dava início às máscaras africanas em suas aulas de Literatura e de Língua Portuguesa.

Assim, ela cobria de barro o molde de papel e passava a alisá-lo com as duas mãos até chegar à base da bola achatada contra a mesa e sentir seus dedos e toda a palma da sua mão acetinada e viscosa. Só então, com um clipe introduzido na ponta de um canudo plástico, que podia ser de uma caneta Bic, Anita traçava uma cruz de malta sobre a superfície, introduzia os dois dedos até encontrar o papel, fazendo furos  para os olhos nas pontas horizontais da cruz, perfurava também o barro para que desse vazão à boca e, como quem acariciasse não mais o barro amorfo, mas já uma face humana, perfilava com gestos lentos o nariz.

Fui sua aluna em Letras, mas também a acompanhei como monitora em outras turmas e nunca esqueceria do modo como Anita agregava a turma em volta da mesa da maquetaria dos cursos de Arquitetura e Design, para uma releitura de Saramago, revisitando o talento do velho oleiro Cipriano Algor, protagonista do livro A Caverna. Aquilo pareceu-me resultar sempre em esculturas em movimento, de acordo com o que um certo Jean Laude escreveu sobre as máscaras.

A confecção daquelas máscaras dava-se como uma preparação para reanimar antigos seres mitológicos, seres insólitos dos filmes de terror, cenas dramáticas de contos, romances e peças teatrais. Ao final da aula, chegava-se ao símbolo da máscara como identificação dos sujeitos que a modelaram, momento em que os alunos apresentavam cada qual a sua máscara, observando como ela foi pensada, enquanto ia sendo construída, e quais as possíveis representações que ela então pronta sugeria.

Nesse ponto, a professora costumava observar com o grupo que, não obstante as medidas tivessem sido as mesmas, e o mesmo material tivesse sido utilizado, nenhuma máscara resultava igual à outra. Por certo elas evidenciavam que a diferença entre os humanos, esta que começa pela ponta dos nossos dedos, estende-se por todo o nosso ser. Nas referências do plano de ensino da professora Anita, constava o Dicionário de símbolos, de Chevalier. Tua atividade com retalhos de tecidos hoje, Lúcia, me puxou para lembranças antigas e para as reflexões que seguem.

***

Já éramos mascarados antes mesmo da COVID19 

Dentre as tantas funções simbólicas, uma delas chama atenção para o momento, a de que as máscaras preenchem uma função social, uma vez que são também verdadeiros espetáculos catárticos, em que o homem toma consciência do seu lugar dentro do universo e vê a sua vida e a sua morte inscritas em um drama coletivo que lhes dá sentido.

Mas tudo isso ocorreu há meses, muito antes mesmo da quarentena pela pandemia do Coronavírus. Agora que você está em casa a me ensinar pelo WhatsApp como se faz uma máscara para prevenção de adquirir ou de propagar o vírus, Lúcia, fico ainda mais atenta, pensando nos povos das aldeias, para quem você disse que vai doar mil máscaras de tecido, você junto ao grupo de idosos no trabalho de extensão da sua universidade.

Penso nos pobres moradores de rua, na dor de quem está sofrendo à espera dos respiradores, nos que sofreram perdas de familiares e de amigos por conta da pandemia. Quanta preocupação entre as pessoas que trabalham em serviços essenciais, da saúde, do comércio de alimentos, dos entregadores de gás e frentistas dos postos de gasolina. Penso na saudade, palavra única para dizer tanto, que só existe mesmo na língua portuguesa, saudade de gente querida que está no exterior, impossibilitada de abraçar seus pais e irmãos, até quando não se sabe; saudade dos passeios em grupo, e aqui me lembro das saídas de campo nos trabalhos extensionistas junto ao grupo de Anita na pesquisa sobre o silêncio da história dos negros nesta cidade, saudade, saudade, só saudade.

As aulas mal reiniciaram em março e veio a quarentena, distanciando milhares de alunos e professores de suas aulas presenciais nesta cidade e em diferentes pontos do planeta. Todos deveriam ficar em casa, aconselhados a participar de aulas virtuais, situação que nivelaria o mundo todo, não fosse a falta de internet e de recursos afins para muitos estudantes, senão para seus próprios professores. 

Aos quase três meses de quarentena, os professores continuam pondo em prática o que na verdade nunca antes praticaram ou sequer ao menos obtiveram treinamento básico, no intuito de agregar suas turmas com aulas a distância.

Li hoje uma homenagem no facebook da psicóloga Vera - membro do Clube de Leitura de que Lúcia, Anita e eu, junto a mais de duas dezenas de professores-leitores fazemos parte no Clube do Professor Gaúcho - para você, Lúcia, porque você foi matéria do jornal da universidade, como representante do projeto que confeccionou e doou máscaras de tecido a pessoas necessitadas.

É interessante pensar no segredo de quem está por trás de uma máscara. A máscara instiga e agrega o outro, a partir do enigma que só poderia ser desvendado pelos olhos não fossem eles, como as pontas dos nossos dedos, parte significativa da diferença em cada um de nós.

Quando fui pela primeira vez de máscara ao supermercado, tive a certeza de ser vista e de ver os outros como seres amordaçados por uma situação delicada e amedrontadora. Tudo lembrava a crise na saúde, e tudo se expressava pelo olhar, porque poupadas eram as palavras sempre que essas não fossem urgentes, indispensáveis.

Nas nossas entradas em locais públicos, não podendo levar as mãos à máscara, levantamos os olhos para encontrar o olhar do outro, desvendar por vezes os sentimentos e, à luz da ciência, manter a necessária distância entre os indivíduos, regra pré-requisito da razão.

Esquecemos das máscaras como magia de um espetáculo para pensar nelas com a urgência que o novo tempo requer no mundo inteiro. A máscara, então, pensada como objeto a ser confeccionado para atender à sua função físico-social. A máscara vista agora como agente regulador da circulação das pessoas; como dominadora e controladora do mundo invisível do novo vírus.

Com função aparentemente, e só aparentemente, inversa à da psicanálise e da psicologia, ambas com o objetivo de arrancar as máscaras do indivíduo para colocá-lo na presença da sua realidade profunda; a máscara que hoje irremediavelmente usamos esconde parte do nosso rosto, ao tempo em que desnuda uma situação irremediável e um mal até agora também sem remédio.  É quando se toma consciência do lugar que ocupamos diante do outro, e na presença solitária de nós mesmos percebemos a nossa vida inscrita em um drama coletivo, agora relacionado à verdadeira guerra contra o novo Coronavírus. 

17.6.20

Dia 92: por Tailor Diniz


São dois os motivos pelos quais decidi não aproveitar a quarentena para escrever.

Primeiro: não estaria fazendo nada diferente do que tenho feito a vida inteira, todos os dias.

Segundo: tenho seis originais inéditos, acabados, lidos, relidos e revisados, prontos para serem publicados, e um no prelo, Só os diamantes são eternos, que sai em outubro, pela editora Folhas de Relva (SP).

Então, escrever um novo livro para quê? Seria mais um na memória incerta do computador, na fila, esperando sabe-se lá quanto tempo para ser publicado, se for publicado.

Assim, decidi me dedicar a algo diferente, que não fazia havia anos. Peguei minhas tintas guardadas, umas telas antigas, pincéis endurecidos e uma paleta e fui pintar. Se o corona me levar, o destino dos livros inéditos provavelmente será o saco. Já um quadro fica na parede, pelo menos por uns dias, e alguém o vê.

Esses acima são dois óleo sobre tela, quinze por vinte e quinze por quinze. O segundo ainda cheirando a tinta fresca. Abaixo uma sequência de três imagens a partir do esboço. Ao apresentá-los, peço a compreensão do amigo leitor. Minha participação neste diário, dessa forma atendendo a um gentil convite da Julia, se justifica não pela qualidade das obras, especialmente técnica, mas pela curiosidade sobre o que tenho feito para ocupar o tempo durante a quarentena. Portanto, só com o olhar benevolente de todos é que isso terá algum sentido.


E ainda faço uma última ressalva: embora mergulhado nessas misturas de tintas, que resultam em suaves pandorgas coloridas, primaveras em flor e casas com puxadinhos, é impossível perder a consciência sobre onde estamos e para onde somos levados nestes tempos sombrios de muitas mortes e demência institucionalizada. Não há dúvidas de que somos empurrados para a parte mais funda de um esgoto pútrido, pelas mãos sujas de uma espécie de elo perdido entre um perigoso psicopata e o mentecapto da pior espécie. Sustenta-o uma claque de canalhas pestilentos, exemplares raiz de um tipo abjeto de miséria humana do qual se orgulham, e que, por assim ser, jamais terão salvação.

Lamentavelmente, é nas mãos dessa gente que estamos, enquanto levamos a vida adiante, tentando evitar, do jeito que podemos, pisar nessa cloaca em que eles nos meteram.