Uma pessoa por dia. Um dia de cada vez. Diário da pandemia é uma tentativa de reunir relatos daqueles que estão atravessando os tempos de coronavírus em Porto Alegre.
Se quiser participar, é só mandar um e-mail pra organizadora em juliadantas@gmail.com pra combinar uma data pro teu relato. Os participantes estão em Porto Alegre ou abandonaram a cidade temporariamente para a quarentena.
23.5.20
Dia 67: por Liége Biasotto
Sou produtora cultural, moro com meu companheiro Mateus e nossos três gatos, e minha rotina sempre foi muito ativa. Embora já trabalhasse de casa, meu dia era ocupado por diferentes reuniões e encontros, refeições em restaurantes - por não ter tempo e nem vontade de cozinhar -, academia e vida social agitada, onde a melhor parte do dia era ir para um bar, para um show e encontrar pessoas. Sempre me ocupei muito, um pouco por querer fugir da realidade, por ansiedade, pela vontade de devorar o mundo.
Mas hoje faz 65 dias que tudo mudou, virou de cabeça para baixo.
As primeiras semanas de quarentena foram difíceis. Vi vídeos de pessoas isoladas em outros países, relatando o que estava por vir. O que me trouxe pânico e, metódica e planejadora que sou, montei logo uma rotina, cheia de metas e objetivos. Comecei aulas online de yoga e de francês, me inscrevi em três cursos gratuitos online, criei um projeto pessoal para me dedicar, comecei a desenhar estratégias de trabalhos alternativos em nova versão e conceito, pensando em manter a cabeça ocupada e as perspectivas ativas.
As semanas têm passado como uma montanha russa de emoções. A euforia de preencher os dias deu lugar a um par de semanas de muito sono e depressão. Medo e desmotivação pela falta de caminhos, pela de falta de controle, por não ver mais sentido em fazer ou criar nada novo. E então chegamos no aqui e agora. Dois meses e um punhado de dias.
Faz duas semanas que não me exercito, larguei as aulas de yoga, não faço mais as aulas de francês. Um mês que não abro os cursos gratuitos e quase dois que não encosto no meu projeto pessoal. Meu tempo foi reconfigurado. Minha prioridade passou a ser as próximas horas, o hoje. E começo a gostar disso.
Gosto das pequenas coisas. Do dormir sem despertador e ver que meu corpo acorda sozinho depois de 8 horas de sono bem aproveitadas. E não importa mais que horas são neste acordar, se é cedo, se é tarde. Saio da cama e faço meu ritual: tomo café com calma e fico procurando os cantinhos de sol pela casa. No amanhecer, pega sol no sofá da sala. Perto do meio dia, tem sol na cama e posso voltar pra lá por mais um tempinho pra ler alguma coisa. Pelas 16h, o sol atravessa o apartamento e posso pegar mais um calorzinho.
Fazia dois anos que eu não cozinhava. Agora, é uma das coisas que mais me acolhem nesta quarentena. É como se a cozinha fosse meu espaço de criação. Abro a geladeira, vejo o que tem, o que está prestes a estragar e precisa ser cozido antes. Me arrisco a fazer uns pães. Pão leva tempo, demanda paciência. Sova, descansa, sova de novo, descansa mais. É como se o tempo do pão fosse um presente.
Esses dias, falava com uma amiga sobre como a quarentena nos trouxe conexão com a nossa casa. Descubro os cantos, os livros, os objetos, a poeira acumulada embaixo dos móveis, umas teias de aranha e mosquitos no gesso do teto. Descubro coisas que comprei há anos, nunca usei e que agora me são úteis. Utensílios de cozinha, lápis de cor, blocos e cadernos, temperos e chás que não venceram. Parece que o tempo das coisas mudou junto com o meu.
Coisas que eu comprava uma vez por ano, passaram a ser compras rotineiras: detergente, azeite, álcool, esponja, grãos… Minha geladeira, que era descongelada semestralmente, agora pede uma atenção mensal. O gelo se forma rapidamente lá dentro, fico sem espaço para congelar minhas criações.
Nossas saídas de casa estão cada vez mais esparsas. Começamos indo ao mercado uma vez por semana, depois a cada dez dias, a cada quinze e, agora, estamos na meta dos vinte dias. Os ranchos são maiores e estranhamente mais baratos, pois nossos hábitos de consumo também mudaram. Faço uma lista ao longo dos dias para garantir que, quando tenha que sair, não esqueça de nada. Atenho-me ao essencial, às coisas que duram mais, e faço a manutenção dos itens frescos com a feira online.
Mas o sair de casa passou a ser o auge do estresse enquanto casal. Por isso a necessidade de espaçar cada vez mais as idas ao supermercado. Quando saímos é quando normalmente discutimos. Um excesso de cuidar do outro e de paranoia. Mas ainda preferimos fazer isso juntos, dividir a busca pelas coisas da lista, ficar o menor tempo possível na rua.
Sair de casa para ir às compras essenciais necessita um planejamento. O que era tão comum e tranquilizador para mim, agora se torna um grande fardo. Precisamos já ter almoçado antes de ir, pois a função levará horas. Precisamos já ter lavado a louça para que a pia esteja vazia ao chegar. Uma pré-faxina antecede a ida ao super. Casa limpa, chão varrido.
Quando chegamos, eu entro primeiro, sem sapatos, lavo as mãos e prendo o Madruga no escritório para que ele não fique se roçando nas sacolas. Mateus lava as compras, eu seco e guardo. Sacolinhas de molho na água com sabão e alvejante, que depois serão estendidas ao sol, secas e dobradas uma por uma. Álcool em tudo que encostamos. Roupas na máquina, banho e pano com clorofina no chão de toda a casa, a finalização da faxina iniciada. Todos limpos e assépticos. As compras, a casa e nós. Essa função nos toma um turno inteiro e nos ilude que assim estamos a salvo.
Minha rotina de trabalho também mudou. Agora, trabalho quase um turno por dia. Divido todas as tarefas da semana em pequenas porções diárias, pois o tempo de executá-las já não importa, nada é urgente. Faço pequenas etapas de cada projeto por dia. E isso já me basta. Transformei o desespero de falta de renda, que é inevitável, em resignação. Me acostumo com a ideia de viver com menos, mas com mais tempo.
A situação também trouxe soluções. Não exatamente soluções, mas tudo pode ser adiado e isso me tranquiliza. Conseguimos congelar o financiamento do apartamento e do carro por alguns meses, diminuir o valor do condomínio e o cartão de crédito, com a falta da vida social, se estabilizou. Nossos custos diminuíram para um quarto do que gastávamos anteriormente. Sei que essa conta vai voltar, algumas com novos juros, mas me atenho ao que posso controlar agora. O amanhã é o amanhã.
Só sei que me acostumo e começo a gostar dessa nova vida. Os encontros sociais passaram a ser online, estamos ainda mais conectados com amigos que não moram na cidade e nos vemos muito mais do que nos víamos antes, mesmo a quilômetros de distância. Voltei a falar com pessoas que há anos não via pessoalmente. Penso que as conexões se fortaleceram, as pessoas estão mais próximas de alguma maneira.
Ainda tem a comodidade do cansar do encontro social e ir dormir, na porta ao lado. Não precisar esperar o companheiro querer ir embora, nem pagar a conta, chamar um uber. Basta, simplesmente, trocar de cômodo e capotar, sem nem precisar trocar a roupa. Porque sim, sou daquelas que adotou o outfit moletom o dia inteiro, só mudo quando fica sujo.
Inclusive, tenho lavado mais toalhas e panos do que roupas. Meu hábito de tomar banho também mudou. Antes ele era necessário ao acordar, para ajudar a conectar o cérebro e ficar em dia para os encontros sociais. Agora, a prioridade é dormir limpinha e quentinha. Os banhos passaram a ser à noite.
Parece que o tempo mudou, as prioridades mudaram. Mudou a percepção do que realmente é importante, quem queremos por perto. E gosto dessa ideia. Tenho medo de tudo voltar ao normal, da obrigação social, do custo de vida mais caro, da agenda cheia, da desconexão com a minha casa, da vida amortecida pelo externo. O isolamento, que chegou me tirando o chão, agora até poderia durar mais uns meses. Me sinto preparada para esperar essa tormenta passar.
O sentimento de resignação me trouxe a liberdade do tempo, a transformação do olhar e daquilo que é essencial. Espero encontrar equilíbrio na volta à normalidade, para quando o ermitão que há em mim sair da caverna, ele não esqueça que as urgências do mundo podem ser ilusórias. E lembre de limpar as teias de aranha que habitam a casa.
22.5.20
Dia 66: por Luís Felipe dos Santos
21.5.20
Dia 65: por Rodrigo Schuster
Aqui o sol é verde, as vacas laranja-escuro quase ocre (a cor chama “aiotfes”, que significa “vaca”, na língua local), as ovelhas continuam com cara de idiota e bolsonaro é apenas o nome de um musgo cinza que surge durante o orvalho e desaparece nos primeiros raios de sol.
Gosto desse mundo. Descobri que nessa dimensão Hortelã é a divindade suprema e eu pareço ser alguma entidade que ela protege, ninguém sabe por que ou do quê, e já aceitei que ovelhas são idiotas em todas as realidades possíveis, paciência. Queria passar mais um tempo vendo os bezerros se divertirem fazendo novas manobras aéreas, porém Hortelã tem um reunião na cidade e preciso ir junto “para minha segurança”.
A cidade é perto, mas para não perder tempo resolvemos utilizar os TLRs (Tubos de Locomoção Rápida). A reunião parece importante, diversos cães apareceram. Hortelã deu instruções a todos e demonstrou o correto posicionamento dos gravetos. Agora, que temos tempo, decidimos não voltar pelo TLR, que, segundo Hortelinda (ela é uma divindade, tem vários nomes), resseca minha pele com o vento quente. Caminhamos um pouco e logo encontramos Jurandir, um boi amigo nosso que nos oferece carona. Eu nunca tinha voado tão perto das nuvens daqui, que são rosas porque o sol é verde e não por serem feitas de algodão-doce. Fiquei um pouco decepcionado.
Chegamos na choupana. Hortelã se retira para atingir a iluminação e ir para o plano celestial. Nunca falamos sobre isso, mas imagino que os deveres dela no plano celestial tenham alguma relação com as reuniões matinais, pois, quanto mais agitada a reunião, mais tempo ela passa no plano celestial durante a tarde, mas pode não ser nada disso. Há coisas que um simples humano não pode entender. Enquanto Hortelã cumpre suas tarefas celestiais de Deusa Suprema do Multiverso, eu uso um TLR para ir ao centro comprar comida e encontrar alguns novos amigos. São muito práticos os TLRs: encontramos os amigos quase imediatamente, e depois entramos em outro e já estamos em casa, sem o inconveniente de perder tempo de deslocamento, durante o qual sempre lembramos de mais alguma coisa para dizer, como acontece lá no meu planeta de origem.
Parece que faleceu uma artista importante que eu, evidentemente, não conheço, e a maioria das pessoas com as quais falei também não conhecem, mas todas pareciam sinceramente consternadas. Quando um artista morre, o musgo cinza cresce nas calçadas e não some com o sol. Eu estava comendo e bebendo com uns amigos quando alguém leu uma nota de pesar sobre a morte da tal artista, era compositora e cantora, então me mostraram algumas músicas. Abraço meus amigos efusivamente, me despeço com uma quantidade exagerada de beijos que eles não entendem muito bem, caminho em direção ao TLR, nativos cantam uma das músicas que acabei de conhecer, e escaravelhos multicoloridos saem de suas tocas e devoram o musgo cinza.
Estou no sofá da choupana quando Hortihorti sai do estado de iluminação e retorna ao plano mundano.Ela se aproxima de mim com uma bolinha, para que eu corra atrás dela. Hortelã precisa fazer eu me exercitar todos os dias, para gastar energia e dormir bem. Um som forte chacoalha as janelas, e a Princesa mais Rainha de todas as Deusas manda eu me proteger. Reconheço o som do Devorador de Ovelhas, o cruel Deus principal do décimo sétimo mundo. Hortelã o rechaça com seu ataque “Fera Feroz” (ela mesma nomeia os ataques) e me avisa que posso sair: estou seguro.
Já é noite. As estrelas, lilases, brilham no céu azul-claro, as vacas formam um círculo e estendem suas enormes asas, formando uma cabana e protegendo umas às outras do sereno e do musgo cinza. Vou dormir porque amanhã a Bonitinha tem outra reunião, ainda não sei onde, mas espero que seja aqui.
Posso viajar por dimensões, conhecer mundos de diferentes tempos, em diferentes galáxias de diferentes universos. Mas só posso dormir, só pego no sono, na minha cama, do meu apartamento no meu planeta de origem.
Eu não sei onde nem quando você está lendo isso, mas no meu planeta de origem, nesse momento, a louça não se lava sozinha, cerveja engorda, um vírus está matando mais de 30 mil pessoas por semana e eu não encosto em outro ser humano há 68 dias.
Boa noite, escaravelhos multicoloridos. Boa noite, lua rosa. Boa noite, aiotfes. Boa noite, Hortelã. Até amanhã.
20.5.20
Dia 64: por Jota Machado
Hoje saí de casa para atravessar a rua até a padaria em frente.
Impressão minha ou a rua está mais limpa? Quase não há carros e poucos transeuntes.
O cachorro do vizinho late insistente; digo: e aí amigão? Ele me reconhece e sacode o rabo.
O que não mudou, mesmo com a pandemia e quarentena a que nos propomos, é o garoto da outra rua com seu carro sobre a calçada, tocando aquela "coisa" que chamam música.
E vejo estranhos na rua, ou as máscaras escondem os rostos e já não reconheço ninguém.
Mas reconheci a vizinha.
Minha vizinha, parada diante de mim, na fila do pão.
Olho bem; será ela mesmo?
A todo momento passa a mão para ajeitar uma mecha de cabelo que insiste em cair sobre o rosto.
Tento não olhar, fico de cabeça baixa quase todo tempo, mexendo com as mãos.
Estou constrangido.
Aqueles olhos... aqueles grandes olhos verdes.
E aqueles cílios... Imagino nossos filhos com esses olhos.
A mesma mecha de cabelo loiro caindo sobre os olhos...
Tenho vontade de falar que tinha planos mas ela mudou de ideia; que tínhamos ideias e ela mudou de planos.
Estou parodiando alguém?
Me dói o estômago quando lembro daquele dia de chuva. Nos molhamos andando da parada de ônibus até nossa rua.
Ela disse um ‘oooooooiiiii vizinho...."; claque! Quase um desfibrilador no meu peito.
Daí falei: chuvinha boa né? Boa pra ficar na cama vendo um bom filme.
Anhan! Pois é...
Tens planos pra hoje à noite?
Ela disse que nada, eu respondi "então tá...".
Falei: tô a fim de um cinema. Você iria se te convidasse? Ela fingindo receio: "mas você não vai tentar me agarrar?"
Mas é claro que não. Ela: "Ah, que pena..."
Sou tímido, fiquei vermelho e só não tive febre porque a chuva esfriava a minha cabeça.
Cinema vazio, cabeça cheia. Sua roupa permissiva permitiu me apaixonar.
Acabamos a noite enchendo e esvaziando taças, sorvendo borbulhas e brincando com espuma.
Lembro de sua boca me desviando dos planos de toda uma vida.
E o que parecia para sempre... sempre acaba! Olha aí meu cérebro dando um nó e plagiando alguém!
Ela pegou o táxi antes de eu acordar.
Quase morri, dias depois, quando soube que ela tinha casado, papel passado e tudo.
Vou falar!
Falar assim: depois de conhecer você, nada mais interessa.
O tempo não mais interessa então p'ra que ter pressa?
Para que caminhar pelas ruas? Para que servem as ruas?
As conversas, as fotos; as minhas e as tuas...
O silencio no quintal, as roupas no varal são as minhas, não as nossas.
Os discos empoeirados, os livros amarelados, as viagens adiadas.
Nunca as mãos dadas...
O silencio é companhia no jantar.
História não acontecida não termos nos amado
Noites em que não ficamos juntos, lado a lado deitados, as horas passando as horas, os olhos felizes, corpos cansados.
A semana toda passando; e o que viria depois da sexta? Esperava um sorriso teu logo ao acordar em plena segunda-feira.
Tenho raiva de mim mesmo e minha timidez idiota! Eu sou um idiota!
Eu seria capaz de dizer tanta coisa, mas as coisas são mais difíceis quando a gente fica sem ar.
O ar são como as palavras, no momento de nervosismo elas faltam, no auge da discussão elas somem.
Divagando cabisbaixo ouço a moça do balcão gritar: "o próximo!" O próximo sou eu.
Quase me esqueço de quem sou e o que faço aqui.
Então fico ali, estático, surdo e mudo, vendo tudo passar, vendo o tempo passar, vendo ela passar...
Quem sabe um dia você não passe; pare, sorria e me olhe com esses olhos – Ah! esses olhos – e então eu crie coragem de não ser só...
Ainda espero?
Gostaria de saber quanto tempo vai durar esta espera tão inútil.
Bom, não foi Jung que disse que a felicidade perderia seu significado se ela não fosse equilibrada pela tristeza?
Estou devaneando mas é o que sei fazer de melhor.
Quantos pãezinhos? Que voz irritante da atendente; eu acho estranho como algumas pessoas crescem e a voz continua infantil.
E lá vou eu atravessar a rua, rumo a meu bunker. Comidas congeladas, pizza congelada, Netflix, o especial do Yes pela quarta ou quinta vez.
Esqueci a máquina de lavar ligada; espero não ter escapado a mangueira e molhado todo o piso como ontem. Preciso consertar aquilo.
A pia está cheia de louça para lavar.
Acho que já são quase dois meses que voltei daquela viagem. Sim, metade de março.
Até quando isso?
Pelo menos ficando em casa tenho motivo para estar à janela, vendo a vizinha passar.
19.5.20
Dia 63: por Ana Carolina Peres Bogo
18.5.20
Dia 62: por Cândida Castro
17.5.20
Dia 61: por Fernando Gomes
Sexta fechou uma semana que fizemos o que não era recomendado, e ontem o guri começou a tossir, sibilar, reclamar da difícil respiração, do coraçãozinho. Espirrou o dia todo, e quando falou em dor na garganta, eu gelei. Três e meia da manhã me chamou. Tava todo molhado de xixi. Depois que troquei o pijama e trouxe pra nossa cama, dormiu. Eu não. Droga, não devíamos ter ido a Porto Alegre no Dia das Mães + aniversário do vô. Mas a insistência era grande, e tomaríamos todos os cuidados. Seria tri para as crianças verem a priminha que já vai fazer um ano, e ótimo para meus pais se animarem matando a saudade dos netos depois de dois meses.
Eu sei, talvez não precisasse ter ido no super nem no outro mercadinho perto da casa da minha irmã. Calma, não deve ser nada. Não levaria uma semana inteira pra começarem os sintomas. Será? E por que a mana, eu e mais ninguém de lá apresentou quadro parecido? Quer dizer, até onde eu sei. Quando amanhecer vou perguntar. Fica frio, man, é só paranoia pela sensação de ter estado no meio de tanta gente, 100% de máscara. Aqui em Canela eu ainda não tinha visto isso.
A culpa é uma desgraça. E se...? Melhor parar de ver tanta notícia, é muita energia negativa. Até rezar já rezei. Tô há dias pra fazer aquela doação. Na dúvida de seguir ajudando, mesmo que só com 5-10 pila. É quase nada, e pra quem recebe, no volume, faz diferença. Se bem que eu tô sem receita desde fevereiro. Mas se for ver, é o valor de 1 ou 2 cervejas. Fudido, fudido e meio. Doar só pra aplacar esse sentimento de quem rateou e tá devendo, vale? Ou tem que ser espontâneo total pra ser de verdade? Não viaja, que que o cu tem a ver com as calças?
Por falar em cu, tá uma merda geral. Tanta gente sofrendo. Presidente filha duma puta. Cambada de retardado quem votou nesse doente, tinha que perder o título por três eleições, no mínimo.
A visita pra bisa foi a única parte totalmente segura desse passeio indevido. Ela à distância no portão, apesar de não estar de máscara como a gente. Também não desceu com o aparelho auditivo, então quase nem deu pra conversar. Tomou esporro da vizinha que parou pra saber como ela passou a semana. Disse que outro dia o motoboy ficou apitando até em outros apartamentos, já que a vovó não escutava o interfone. “A senhora tem que usar o coisinha na orelha, gastou uma fortuna nele!” Perguntei se ela ainda ouvia rádio. Tive que repetir a pergunta duas vezes. 95 anos. Passa o dia no face, whats, netflix. “Tô de saco cheio, queria ir no Praia de Belas, pegar um cinema. Não vai passar isso?”
Vai, vó. Vai.
Amanheceu e o Chico tá melhor.
Vai passar.
16.5.20
Dia 60: por Jéssica Ribeiro Daitx
abandonado rebento
em tentativas,
pouca vida
em postulados,
vívido excesso
em vigílias,
sujeito a
breves sinas,
perdido
em rotinas de anedota.
Conforme escrevo estas palavras, lembro a mim da razão pela qual as componho e, então, retomo o meu ritmo de novo: entre os muitos altos e baixos, controles e descontroles, agarro-me à criação, às suas múltiplas possibilidades e à urgência em mantê-las, que é o que, desde que me conheço por gente, me mantém sã, alerta e determinada. Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobre e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Clarice sempre entendeu que é a escrita a maior afirmação que tenho e a maior justiça que conheço, portanto, deixo a ela o fim do meu relato.
15.5.20
Dia 59: por Eva Mothci
Fechando 60 dias afastada, dois longos meses saindo de casa o mínimo possível. Um tempo estranho e atípico mas vou sobrevivendo sem maiores paranoias. Quem me conhece sabe que tenho um temperamento à polyanna, então ok. É preciso usar máscara, ter cuidados com o que vai para fora e o que entra para dentro de casa – sapatos além da entrada, nunca mais, uma das primeiras lições da pandemia. Mas confesso que nunca limpei tanto o chão e as superfícies. Quero ficar em casa tranquila e me sentindo razoavelmente segura. Porque lá fora tá estranho, porque eu não tenho mais a paciência que tinha, detesto essa propensão a julgar os outros e pretendo ver o fim desse tempo.
O trabalho com texto praticamente desapareceu, o bar que abrimos fechou e até a volta, graças às pessoas que nos finais de semana deixam os gatos aos meus cuidados, não estou exatamente desocupada, embora tenha bem poucos clientes. Driblo a saudade dos filhos e dos amigos com os apps da vida. Acompanho as notícias em meia dúzia de fontes que confio pra não enlouquecer de raiva – sim, faço o possível pra não olhar nem escutar vocês sabem quem. E sou ótima companhia, como quando tenho fome, durmo ao ter sono, me divirto sempre que posso, leio muito, bordo, canto e danço pela casa, arranho o violão, invento umas bobagens, faço drinks e fumaças.
Enfim, vou seguindo. E os gatos, Minoca e Ronronildo, sempre me acompanhando. Grandes parceiros, meu pretinho e minha ruiva amados. E meus filhos, que sempre foram e sempre serão o meu grande alento – no dia das mães, fizemos uma live de cinco horas e meia, conexão Porto Alegre-Curitiba. Foi maravilhoso passar a tarde com eles. Amor sustenta!
E então, conto a vocês que, no meio dessa nova rotina que não tem – pra mim – rotina nenhuma, começou uma pequena reforma no meu apartamento. Pequena, mas com tudo a que se tem direito: reboco, massa corrida, retirada de madeira, troca de portas, tinta, barulho, sujeira. Mas é o que acontece quando o apartamento é alugado. Depois de (muitos) pedidos, o proprietário concordou e os trabalhos começaram. Hoje foi o segundo dia, das 9h às 14h porque ele terminou as tarefas mais cedo. Na segunda-feira deve ir até às 18h.
Daí, a polyanna aqui se pega, depois que o rapaz que está fazendo as obras vai embora – rapaz que troca a roupa ao chegar para trabalhar, anda de meias pela casa e lava muito as mãos – passando pano com álcool em tudo que é maçaneta, espelho, móvel e qualquer outro lugar que possa ter sido tocado, e passando água sanitária com canela pelo chão. E me pergunto se era, realmente, hora de estar fazendo isso, nessa época em que não dá pra visitar ninguém e fugir um pouco da poeira, nem ficar batendo perna na rua. Mas na verdade a hora já passou faz tempo, era preciso e necessário. O inverno vem aí e era MUITA umidade. Então, sim, me respondo. Vamos lá!
No mais, vivemos. Como já disseram por aí, lutar contra o vírus e resistir aos vermes ao mesmo tempo é para os fortes. Que tenhamos, então, muita força. No fim das contas, ainda bem que tem obra na minha casa. Lá adiante, vai ser bem bom ter o apê com a cara que eu queria, consertado e renovado, para poder de novo receber os meus queridos e as minhas queridas daqui e de mais longe. Porque vai, sim, passar. Tudo isso e todos esses passarão. Nós ficaremos.
14.5.20
Dia 58: por Raphaela Donaduce Flores
13.5.20
Dia 57: por Roberta Konzen
Mas, quem não está?
12.5.20
Dia 56: por Gabriel Eduardo Bortulini
– Autoficção? Hoje?
A Sara remexe os lábios e me deixa sozinho. Já entendeu que nesses momentos eu preciso me isolar.
Abro o Twitter e me irrito ainda mais. Anoto a ideia para uma notícia falsa sobre a saúde do presidente. Leio um poema sobre astrologia no Instagram e nada poderia ser pior. Amaldiçoo o anticientificismo, penso na futura prisão dos homeopatas, invento uma vertente astrológica obscura e coloco a culpa no zoroastrismo renascentista.
Me levanto para esquentar a água. Dos cinco tipos de erva, escolho a de sabor médio. Canarias Serena, la mejor yerba del mundo, el mate de mi país. Têm razão os uruguaios, embora a erva seja brasileira. Mas algumas coisas se ignoram pelo romantismo.
Recebo uma mensagem do Iuri, falando da rodada do torneio de contos e vejo que saiu notícia na Folha. Dou uma olhada. Mais tarde paro para ler com atenção, tenho que escrever o diário. Dia doze de maio, agora me dou conta, exatos dois meses do meu último evento público, aquele Grenal da Pandemia (gracias pela alcunha, Iuri) que me perturbou durante as duas semanas seguintes, apesar do tubo de álcool gel no bolso, distribuído a cada quinze minutos aos que estavam comigo, incluindo o próprio Iuri que tanto me irritou naquele segundo tempo dando a volta na Superior Leste até parar no local vazio ao lado da torcida do Internacional – mas veja só que ótima ideia –, onde acompanhamos toda a pancadaria entre os gritos colorados.
Ouço a água fervendo e já não me importo. Misturo alguns goles de água fria e ya está, quem dá bola para purismos tradicionalistas nessas horas?
Me sento ao lado da janela, pernas esticadas no sofá (algum dia vou me adaptar às escrivaninhas?). Lá fora é maio, dizem a luz da tarde, a frente fria sobre Porto Alegre, o som dos pneus na Perimetral. Lembro de outro diário, em outro maio, naquele de 2018, o primeiro frio do ano, seis horas de ônibus para velar a morte de uma mãe no dia das mães. Quantas terão sido anteontem?
A Luna pula no sofá e chora. Levanto a coberta que aquece as minhas pernas e ela entra, dá três giros anti-horários e se acomoda sobre minhas coxas. A luz cai rápido e agora já posso perceber a luminária acesa ao lado da estante, esquecida na noite anterior. A Sara fala alguma coisa sobre a sua sessão de terapia, mas eu estou no meio do parágrafo. Agora ela usa de fones de ouvido e limpa com álcool algum objeto minúsculo, que não sou capaz de identificar.
Porto Alegre começa a piscar no horizonte. Às 18h, como de costume, abro a janela para xingar o presidente. Nos primeiros dias, eram ofensas mais assombrosas e, por isso mesmo, ineficazes. Então, em vez de genocida ou miliciano, passei a gritar corno (perdão ao bom senso), enquanto bato o sininho das contações de histórias da Sara.
A irritação ameniza e percebo que coloquei muita água fria na térmica. Volto a aquecer e o mate agora tem sabor metálico. A Sara aproveita minha folga e fala sobre conceitos de casamento e maternidade e a Luna está com a língua para fora. Eu ouço e concordo, ela diz que me ama e, neste momento, eu sinto a mesma alegria que voltará mais tarde, quando eu abraçar seus sonhos numa cama de outono. Mas apenas digo que vou usar algo do discurso dela neste diário. Ela ri, comendo uma maçã, e teme que eu a exponha.
Algum vizinho grita e bate portas e a Sara e a Luna vão até a parede para entender o conflito de outra quarentena. A Sara volta para a mesa e olha feliz para a Luna, que ganhou metade da maçã. Não há melhor som neste momento do que o de um cão mastigando uma maçã, nem melhor visão do que duas covinhas nas bochechas de quem eu amo. Ou talvez sejam apenas algumas noções de paternidade.
11.5.20
Dia 55: por Gabriel Fragoso
Vou acordar num sobressalto, pois terei ouvido um barulho vindo da rua — daquele apartamento que sempre fazia festa, mas que andava tão silencioso. Como não poderia ser diferente, puxarei o celular aos olhos. Dez e quinze da manhã. Vou pensar Eu bem que poderia dormir mais, e a dúvida aterradora, existencial, profunda, me fará perder — ou ganhar, não saberei dizer — quinze minutos a mais naquela cama quente. Quente como foi em todos os dias anteriores, sem exceção, disso não poderei reclamar.
Às 10h30 será hora de contrair o abdômen e gemer baixinho enquanto me ponho sentado junto aos lençóis emaranhados e ao travesseiro úmido. Os pés serão lambidos pelo chão gelado e lembrarão, comunicando a cada poro que se segue à subida do corpo, sobre as baixas temperaturas que já tomam conta do estado. Vou sorrir em um pequeno êxtase. Sempre gostei do frio e já sentia falta dos casacos compridos e dos cachecóis ao redor do pescoço. Jogando o celular sobre a cama, me arrastarei para o banheiro.
Os vizinhos do apartamento ao lado vão dar outro grito e esse último, especificamente, me fará ter um sobressalto, justo no exato momento em que mergulho meu rosto naquela pia de porcelana verde militar, craquelada pelo tempo.
Aquela será a manhã em que me sentirei como a pia: craquelado pelo tempo. Com os olhos fixos ao meu próprio rosto — que, sim, seguirá sendo meu e somente meu — vou me questionar, ainda sem a clareza dos despertos, Quantos meses se passaram? Quantas rugas decidiram ignorar o isolamento e abraçar o meu rosto, sem pena, sem medo, sem qualquer ruído que meus ouvidos — ainda atentos aos gritos da rua — pudessem ter escutado?
Enquanto a minha boca estará reclamando dessas Rugas completamente histéricas, fodam-se elas, Gabriel, fodam-se, serei silenciado à força pela escova de dentes e pela preguiça de seguir pensando. Vou sair do banheiro um pouco confuso, como se sentisse que há algo de estranho no ar. Talvez seja só a poeira acumulada, afinal de contas.
(Perceberei que, mesmo com tudo aquilo, minha capacidade de fazer piadas comigo mesmo não terá acabado.)
Será hora de tomar um café, mesmo que o horário do almoço já esteja se anunciando à distância. Grande coisa, é fim de semana. Enquanto dou bom dia aos meus familiares, que estarão sentados em frente à mesa e aos seus farelos, pegarei a xícara que mais se parece com um pequeno balde e subirei ao terraço que se acostumou a acomodar meu corpo, meus livros e duas cadeiras de praia: uma para a bunda e outra para os pés. Refletirei por alguns segundos sobre a dor nas costas que venho sentindo, mas a interrupção se dará sem rodeios — assim como devem ser feitas as boas interrupções.
Outro grito dos vizinhos barulhentos mas que andavam tão silenciosos, ou talvez seja um grito de outra casa, ou quem sabe da minha própria mãe. Vou me levantar tão rápido quanto sentei. Naquele instante, a verdade cairá aos meus pés, como um clarão divino, um bater de panelas ou um clique. O famoso clique sobre o qual tanto se fala — este, um clique de acender.
Antes do meio dia, terei lembrado de algo que a força do hábito me fez esquecer ou empurrar para baixo do tapete. E descerei as escadas, abandonando naquela cadeira de praia o livro que planejava passar o dia lendo.
Correrei ao quarto, me juntando ao coro de gritos, calçarei os tênis, colocarei o cachecol e abrirei a porta.
Aquele será o dia em que estaremos todos prontos.
Enquanto o dia não chega, respiro fundo.
Não sou, ainda, de abandonar livros
— nem de me comparar a pias rachadas.
Os dias passam. E a cama segue quente.
10.5.20
Dia 54: por Alexandra Lopes da Cunha
Sinto-me doente, doente há muito. No entanto, chamem-me de tola se quiserem (não ligo), mas creio, quero crer, que não é de Covid-19 que padeço, mas sim de uma doença psíquica que acaba por repercutir no meu corpo, influenciando o ânimo, a qualidade do sono, o apetite, revoltando-me o estômago, deixando-me enojada, com asco de tudo.
Tenho um nojo profundo. Leio as manchetes dos jornais do dia e sinto engulhos. Quanta mediocridade, quanto despreparo e imprevidência. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se tivéssemos dirigentes melhores? Quantas vidas teriam sido salvas se os governantes mundiais, em especial o atual presidente do Brasil, tivesse um mínimo de discernimento, um pingo de grandeza de espírito?
Os números sobem, estão a subir, continuarão a subir porque foi assim na China, foi assim na Europa e nos Estados Unidos até que se tomassem medidas, mesmo depois de tomadas medidas. Nenhum infectologista que honre o título anunciou que seria distinto aqui. Era inevitável que a pandemia nos atingisse. Já aconteceu antes e tornará a acontecer. Os vírus desconhecem limites geográficos. É preciso aprender com os erros, quando aprenderemos? Quando o senhor presidente aprenderá?
Sinto-me doente e continuarei a me sentir doente de desespero, de tristeza porque estamos a viver um momento terrível da nossa história; para além das perdas humanas para a Covid-19, além de todas vidas que perdemos todos os anos para a violência em suas diversas formas, para outras doenças como as amebíases, hepatites, leptospiroses e diarreias resultantes de falta de saneamento e tratamento de água, devemos vir a sofrer uma fortíssima recessão econômica e não temos governantes a altura do desafio. Simplesmente não temos.
Como ontem, amanheci com náusea, cuidei das minhas filhas, das tarefas domésticas e a náusea, presente. Mantive-me em casa, li, escrevi, conversei com amigos sem nunca deixar de sentir o incômodo revoltando-me o estômago. O dia passou, a noite caiu e, com ela, o silêncio anormal desses tempos. Vou cuidar do jantar, vou tentar distrair a mim e as minhas filhas, vou tentar dormir às horas de sempre e sei que permanecerei acompanhada pela mesma maldita náusea que, com toda a sinceridade, não sei se passará algum dia.
9.5.20
Dia 53: por Claudia Gelb
Sempre fui mundana, ao mesmo tempo que uma ostra. Portanto, poucas pessoas conhecem o meu “infinito particular”, ou o inferno e a complexidade dos meus sentimentos. Não gosto de imposições ou regras, não gosto. Passei a vida com a crença de ser dona de mim. Não sou.
São tantas as demandas e tarefas em meio ao confinamento que, a princípio, para não me perder, fui uma garota comportada. Não tão garota, sempre desconfiei que sou imorrível, posto que a alcunha de imortal foi dada a Sandy há muito tempo. Hoje, sendo bem clichê, meu mundo caiu. Não posso fugir da verborragia tampouco da velocidade dos meus pensamentos, bem como das referências literárias e musicais das quais sou composta.
Então eu acordei tarde, de bode, como diria o meu amigo Eduardo. As paredes e cômodos que me abrigam são em número pequeno, mas quanta fantasia, memória e enfado comportam! Se eu fechasse os olhos e pensasse em um lugar calmo, tal e qual nessas meditações que são propostas com a finalidade de acalmar a mente, seria o nirvana. Seria, do verbo não é. Vivo no limiar entre uma aparente calma e o tédio.
Lembro de tanta coisa boa que vivi, gente bacana que conheci, e outras tantas histórias que queria apagar com sangue, mas infelizmente há que se seguir as leis. É natural que nesses dias eu mate um pouco de mim. E mesmo nesse processo de lobotomia, a parte do cérebro que pulsa me dá a impressão de que não, não vai passar. Não há mais tempo. Não haverá criança esperança ou a empreendedora que começou a fazer sucesso. Tento reconstruir mentalmente meus cacos, ao mesmo tempo que verifico a respiração constantemente. Para o bem ou para o mal, ainda estou aqui.
Se eu estiver errada, porque minhas ideias vagueiam entre passado, presente e futuro (uma grande confusão), gosto de pensar na utopia de um mundo à la Imagine, do John. Mas onde é que há gente no mundo? Na televisão, não. Nas redes sociais, são outros os carnavais, compostos de um samba de uma nota só. Ou duas, pois nos tempos atuais, paradoxalmente, ou se é lado A ou B.
E eu me pergunto: para quê? Por que diabos é que tenho que ceder ou aquiescer? A quarentena me deu clareza e coragem para me aceitar e, pasmem, até me amar. Talvez, como já disse, não haja tempo de ninguém perceber. A única certeza é que isso já não importa. A mulher agradadora está morta. Não faz a mínima diferença como se deu a redenção. Não se ensina isso nessa vida de gado que tentam nos impor. Aconteça o que acontecer, não me enredo mais. Se eu der sorte, que eu entre para os anais.
8.5.20
Dia 52: por Tanize Cardoso
7.5.20
Dia 51: por Marisa Piedras
6.5.20
Dia 50: por Maria Williane
Casaquinho matinal, blusão back to the future, calça de moletom e, nos pés, pantufas de lobo. São patas enormes pra se levar a sério. Assisto à aula do Assis Brasil e me pergunto o que ele acharia desse visual de outono com o máximo de conforto e o mínimo de elegância. Aulas via Zoom são cada vez mais absurdas pra mim. Nesses dias de isolamento, ando escrevendo pouca prosa, deixando muito texto sem desfecho e sem partida também, por isso acabei entrando em débito nas disciplinas da faculdade. “Paciência!” – eu me prometo, mesmo que não cumpra.
Quando tudo isso tiver fim, quero me mudar. Ontem o síndico chileno, do 203 (que é mesmo chileno, apesar de morar aqui há uns 40 anos), e a vizinha Arigatô, do 201 (uma senhora com seus 70 anos em média, sulista o suficiente, mas que morou no Japão por muitos anos e agora cumprimenta todo mundo com “Arigatô”, querendo dizer “até logo” mais do que “obrigada”), me chamaram do térreo. Apareci na janela e vieram pedindo a vaga de garagem emprestada por dois ou três dias, pro filho da senhora Arigatô que deve chegar por aí no final de semana. “Ela tá de mudança pra São Paulo, tentando alugar o apartamento e ele vem ajudar...”, “tu quer alugar meu apartamento?”, ela interrompe, tentando a sorte. Nunca fiz questão por essa vaga. Mas, e o coronavírus?
O fato da vizinha que mora bem ao meu lado, com a porta a menos de um metro da minha ter atravessado o corredor para ir falar com o síndico sobre a minha vaga de garagem ilustra bastante como são as relações pessoais por aqui. A vizinha do 303 também só conheci quando apareceu na porta pra me vender mel, mas é uma comerciante simpática – agora ela tá tentando me vender pudins. Espero outra sentença bonita pra me convencer.
Dali a pouco, o síndico chileno solta “Maria, essa é só pra brincar contigo: eu sou o síndico desse prédio e se eu te pego batendo panela tu ganha uma notificação, hein?”. Eu já suspeitava que tinha muitos vizinhos bolsominions, mas a cordialidade sempre foi mais forte aqui no prédio. São 9 apartamentos, nem todos ocupados, e as pessoas trocam cumprimentos amenos, falam do tempo ou nem falam, apenas um aceno de cabeça (mesmo antes do vírus), parece que tá todo mundo fazendo de tudo pra não se encontrar. (Eu também). Cada um vive sua vida como se não escutássemos uns aos outros o tempo inteiro, dividindo o som das flatulências diáfanas que atravessam as paredes finíssimas sem poupar vexames (eu sei, essa frase é ridícula, mas vou deixar aqui pra rimar com a temática), ou as vozes de TV nos corredores.
Aliás, a acústica é mesmo horrível. Todo dia escuto a vizinha Arigatô abrir torneiras, conversar banalidades com alguém (pelo telefone, eu suponho), receber semanalmente a filha e um Lulu da Pomerânia que ela chama de neto e diz que ama e faz a maior festa na porta de casa. Todo dia também escuto o vizinho do 302 bater o pé no chão ou socar alguma superfície, gritando “puta que pariu, caralho, porra” três vezes, enquanto joga videogame e conversa com alguém usando fones de ouvido – isso eu concluí junto com o Isaac, que mora comigo, pela repetição, sempre de noite, e pelo monólogo estranho que é mesmo um diálogo com falas ausentes. Ainda não descobri o que ele joga, mas deve ser algo bem hétero-másculo-fodão (metendo tiro, porrada e bomba em alguém), como a moto bem hétero-máscula-fodona que ele tem na garagem e sempre me faz pensar que deve dar uma dor de coluna terrível. Ele é novo no prédio. É policial também. Risos. Tenho uma fraca esperança de que a brutalidade seja só no videogame. Isaac, por exemplo, joga Far Cry e usa a violência que experimenta em todas as versões pra escrever artigos que falam sobre a relação entre fascismo e liberalismo e depois submete à publicação em revistas A2 ou B1 – invejo muito essa produção, inclusive; até ontem eu nem jogava videogame e já tô cheia de entregas atrasadas na faculdade. Ele bate a almofada contra o sofá se não derruba os helicópteros que precisa, ou diz “fuck fuck fuck fuck, a talkin’ pussy that says fuck”, bem rápido, gesticulando com uma das mãos. A vizinha do 402 escuta todas as lives sertanejas. Antes do isolamento ela dava algumas festas de arromba que enchiam o prédio de nascidos nos anos 2000. Da última vez foi um aniversário.
Não sei se todo apartamento é assim, é a primeira vez que moro em um lugar que não tem jeito de casa. “Bato panela sim, não aguento mais nem olhar pra cara daquele escroto que chamam de presidente”. Lá embaixo eles riem ou se assombram ou ficam sem graça, e “tu estudou em escola pública?”, a vizinha Arigatô que, antes, disse ter estudado na PUCRS, formado em história e trabalhado muito tempo como professora na área, me pergunta. “Sim, formei em uma universidade pública”. “Ah, por isso é Lulista”. E saiu. “Sou da terra do Lula também”, fiz questão de dizer, imitando a lógica errante dos dois. Subindo as escadas, eles riam e se espantavam com a vizinha baderneira que sou. Ainda escutei ela confessar “sabe o que é que mais me indigna do Lula? É o fato de ele ter tido uma amante!”. Chiiiild. Olhei pro Isaac e só conseguimos dividir caretas de “que merda foi essa?”. “E roubou”, completou o síndico chileno. Então “adiós”, “Arigatô”. Eu ainda tô presa na informação “professora de história”. Vou seguir batendo panela – ou dando play naquele áudio que poupa minhas frigideiras (obrigada, Julia!).
Fico pensando que faltou terapia pra salvar o Brasil do bolsonarismo, algumas sessões e as pessoas seriam melhores, mais sãs, menos suscetíveis ao umbiguismo. Faltou educação também, sempre faltou educação, e respeito, empatia. Falta muita coisa, né? Quando tudo isso tiver fim, quero me mudar. Meu apartamento não pega sol, há apenas um pedaço pequeno de céu que alcanço com a vista das janelas, muitos telhados e o tempo é sempre atrasado. Se hoje faz um frio intenso, só vou sentir na mesma medida duas horas depois, quando já nem estiver tão frio assim. Procuro os defeitos pra me convencer a sair da zona de conforto que me segurou aqui nesses dois anos e meio. Mudança dá um trabalho danado, mas às vezes é bom, necessário, “não acomodar com o que incomoda”. E parece uma casa anfíbia.
Uma casa anfíbia era a imagem que me faltava pra terminar um conto, acabo de me dar conta! Apreciem minha epifania, mesmo que em retrocesso.
Ao lado do prédio, tem uma casa em sanduíche (porque em seguida tem outro prédio), que é mais ou menos minha paisagem principal desde as janelas do quarto e da sala. Sempre que amarro as cortinas, vejo uma senhora assistindo TV, bordando ou tomando coca-cola (a garrafa também fica à vista, na mesa, junto com um calendário da caixa econômica federal). O Isaac começou a chamá-la de “Dona Fátima” e todo dia nos perguntamos como deve ser a vida dessa mulher, o que ela deve assistir e se é seguro tomar tanta coca-cola nessa idade. Mas Dona Fátima parece bem. Hoje ela só abriu a janela e sumiu de vista. Pode ser que esteja no quarto, tá um friozinho. Dona Fátima certamente não tem esse nome, mas é uma senhora idosa, negra, de óculos, que adora usar sua cadeira de balanço.
Sobrou batata doce do jantar. Cortei em rodelas e passei na manteiga pra servir junto com as lentilhas que Isaac preparou há um par de dias, arroz com brócolis e carne (na verdade eu comi calabresa). Foi com a quarentena que criamos a tradição de assistir Will & Grace no almoço. Morremos de rir e ficamos o episódio todo discutindo quem é quem. Hoje Isaac era o Will, comendo cereal colorido que deve ser feito de açúcar + corante + câncer em pó, e eu era a Grace, pedindo opinião sobre a roupa pra um evento importante e pouco satisfeita com as respostas rasas do meu amigo que entende de moda mais do que eu e não se esforça pra me ajudar. Antes de ontem eu era o Will falando pra Grace que ela não precisava levar uma bolsa de lantejoulas pra um fim de semana no meio do nada. Mas minha personagem favorita é a Karen Walker, começo a rir assim que ela entra em cena serrando as unhas.
O Lulu da Pomerânia acabou de chegar na vizinha Arigatô.
Abro o calendário pra checar há quanto tempo estou em isolamento. Desde o dia 15 de março, saindo apenas duas vezes: banco; mercado. Já faz
Uma vez eu disse pra Natalia Polesso, no meio de uma aula na UFRGS, que eu pensava em perguntas pra escrever: “O que é a ruína?”, por exemplo. Ela riu. concordou, mas riu da pergunta, desaforadíssima (um beijo, Natalia!). O que eu não sabia era que estava enterrando minha paz. Agora vejo a ruína em toda parte, no corpo, na Língua, no texto literário, na arquitetura, na arte, na comida, na vida. Com o isolamento tenho pensado muito mais sobre isso. É o exílio ao avesso, somos empurrados pra dentro em troca de sobrevivência, quando tá todo mundo acostumado a olhar pra fora, a sentir pra fora. Por dentro é o caos. Toda ruína é um limite inexpressivo entre o que vive e o que morre, entre o que se inventa também. Toda ruína é memória. Ainda é fim de tarde, eu paro por aqui. Os dias não se desamarram mais.
5.5.20
Dia 49: por Cris Beck
“Vamos comemorar como idiotas/
Os mortos por falta de hospitais/
Vamos celebrar o horror de tudo isso/
Com festa, velório e caixão”
(velório de 10 minutos, por favor)
ATENÇÃO - PODE CONTER FINAL REDENTOR: Mas sigo percorrendo os versos do poeta que por fim me diz que vai chegar a primavera, que nosso futuro recomeça, e (dizem os mais otimistas) que o que vem é perfeição. Talvez, para isso, basta sabermos que no dia seguinte, ninguém morreu.
4.5.20
Dia 48: por Ida Schwartz
Opiniões tão diferentes....Eu às vezes sou tão esponja, pareço que não tenho pele, limites...Absorvo tudo...Alguns vendo o mundo de forma catastrófica...COVID-19, Bolsonaro, tudo em um mesmo dia, é difícil mesmo...O que para mim é um mundo sem cor e sem perspectiva? É não poder viajar, é ficar ilhada, é não poder encontrar o meu amor... Sim, eu me apaixonei em tempos de COVID-19, e eu tenho de esperar.
Outros, dizendo que tudo bem, pois ainda vemos luzes entrando pelas janelas do apartamento. O meu apartamento (assim como o de várias pessoas) é de segundo andar: não tem luz, não tem vista...
Amor em tempos de COVID-19. Que bom que existes, que ainda estás aí. A minha amiga está certa: não são períodos de distanciamento social, são períodos de distanciamento físico. Mas amantes precisam de contato físico.
Dai eu leio a Marta Medeiros falando de Rolling Stones (“you can’t always get what you want”); a Monica Salgado falando sobre quem seriam nossas rochas (amor de marido e mulher é condicional, não são rochas); e o Mario Corso afirmando que nossa única meta na quarentena deve ser a sobrevivência e a manutenção dos vínculos.
Com o coração mais em paz, esqueço (um pouco) que tenho de terminar de escrever um projeto para o CNPq, dou um beijo virtual no meu amor, e começo a escrever o meu diário. Porque conheci este blog também no dia de hoje. E fico pensando quem seriam minhas rochas....Meus pais são rochas, idosos, e estamos na fase de inversão de papeis. Meu pai sempre foi uma rocha para mim.
Que todos fiquemos seguros. E com alegria, depois de assistir a Veveta cantando “I will survive“.
3.5.20
Dia 47: por Kainan Porto Alegre Lopes
2.5.20
Dia 46: por Leandro Godinho
Percebi logo que os dias não vão parar de nascer. A partir do instante em que se abrem os olhos e me dou conta de que, sim, é um novo dia ali nas paredes, nos lençóis, nos barulhos, na luz que penetra o quarto e na pele da namorada que não acordou, a vida seguiu – e por vida eu quero dizer a vida no planeta, a Terra girando no espaço em torno do sol, a nossa estrela, que um dia, daqui a mais ou menos um bilhão de anos, vai começar a se apagar, derretendo todo o sistema solar antes, mas, vamos com calma: antes, amanheceu e o tempo não para porque há um vírus potencialmente fatal na umidade do ar.
Nos dias bons, eu levanto da cama e espio a louça que sobrou da janta, ou do pós-janta, e assim começo outro dia, qualquer dia, um novo dia, que se parece com os dias passados, assim como os dias antes do vírus também se pareciam uns com os outros. Dentro do espaço da louça, eu encaixo podcasts, músicas, elucubrações. São os dias em que eu tenho vontade de cozinhar também, e durante o expediente do trabalho proponho ideias, ofereço boa vontade e faço até gracejos.
Nos dias não bons, eu me levanto da cama também, e a louça talvez ainda esteja lá, e a consciência de que é justo eu lavar a louça porque Fernanda fez a janta também está lá, e a diferença é que lavar a louça, enxaguar, passar a esponja nos talheres e pratos e bandejas e cumbucas e canecas ganha um peso que não existe fora de mim, porque não quero estar ali, dentro de mim, dentro do homem de quarenta e dois anos que lava a louça enquanto pensa em esquecer que o celular já estaria apitando as demandas do trabalho a partir do whatsapp caso o aplicativo não houvesse sido impedido de apitar na tela, bloqueado numa resolução tomada há anos atrás. São os dias em que ali perto da noite eu vou até a varanda e olho pro céu, preciso olhar para a lua e quando existe a lua, ela esvazia o pensamento e talvez uma parte do peso que saiu da cama junto comigo.
Em todos os dias, eu levanto da cama. E até aí, nada mudou (ou quase, porque me mudei para o apartamento de Fernanda há cerca de um mês e meio e nunca mais dormi na minha cama, nem acordei no meu quarto). Todo o resto, sim, mudou. O corpo ainda é o meu, mas o mundo parece que não. O corpo segue envelhecendo, cabelo e as unhas não param de espichar, a língua não se cala, a vista não cansa de procurar por horizontes. Mas as ruas e as portas estão fechadas, as pessoas podem ser suspeitas e falar demais não convém. Eu estava de passagem marcada para daqui a duas semanas flanar por Roma e Lisboa de férias e cancelei minhas férias. Não tive forças para conseguir cancelar as passagens e remarquei a viagem para um utópico setembro no qual já não deposito tanta fé de que se realize, mas de todo modo está lá, pode acontecer, quem sabe.
Sem o mundo lá fora, só me resta o mundo aqui dentro. A vida é um bicho duro de ser vencido, afinal. Eu aproveito convívio diário com a tela do notebook para retormar o hábito de escrever e essa sensação de que não faz mais sentido ter pressa me tira a angústia que eu tinha ao demorar no texto. Quanto mais tempo me demoro no texto, mais fácil do dia confluir a meu favor. Eu gostaria de poder dizer aqui que, ao escrever, eu, o autor do meu texto, retomo uma pequena e íntima, porém minha como poucas coisas são minhas, sensação de ordem e controle da realidade, ou da ilusão de realidade que me leva a abrir uma garrafa de vinho (ou duas) todas as noites e não me preocupar se é alcoolismo ou desespero, mas apenas uma garrafa de vinho, ou duas. Só que eu estaria driblando o fato de que essa sensação de ordem e controle desaparecem diante do primeiro diálogo fora de tom que meus olhos pescam, e nem preciso de diálogos, basta a metáfora que me enchia de orgulho há dois dias perder sua validade, e daí o texto, que eu jurava ter em mãos, parece escapar delas com uma pulsante vida própria e eu não encontro outra resposta que não desembestar atrás dele – mas, sim, é esse tipo de coisa que me fascina na escrita, a luta que eu travo com meus demônios e fantasias.
O lado bom desses dias, de todos eles, é que ao cabo de cada um, havia Fernanda. Há. Haverá, espero.
(O título desse texto era pra ser “Fazer amor na pandemia” e a ideia original, pensada há nove horas, quando saí da cama e no lugar de lavar a louça, decidi ligar o note, era escrever outro texto. Não esse aqui, outro. Mas é esse aqui mesmo que acabou escrito, e isso já diz bastante sobre a pandemia e este homem que a descreve, a seu modo, em seu mundo. Um homem que deveria ter feito amor mais vezes na vida, mas é o que deu pra ser até aqui.)
