Se quiser participar, é só mandar um e-mail pra organizadora em juliadantas@gmail.com pra combinar uma data pro teu relato. Os participantes estão em Porto Alegre ou abandonaram a cidade temporariamente para a quarentena.

17.12.20

Dia 275: por Victoria M. Soares

Nascimento do filho da pandemia
Reflexão sobre a importância da literatura 

No fundo sempre quis partilhar as ressignificações me fizeram evoluir como pessoa, devolver ao mundo toda essa maravilhosidade que através das letras ele me presenteou.  

O filho da pandemia esteve em processo de concepção por 33 anos, como em um casamento, passei pela fase do conhecimento, do namoro, compromisso e finalmente eis que me vem esta luz. O filho da pandemia é a percepção do quão importante é a linguagem escrita. Ao lermos, degustamos grafemas, brincamos com fonemas, damos sentido a palavras e frases. Ler é misturar nossas percepções com as de outros que também através de suas vivências vem compartilhar com o mundo suas experiências. O filho da pandemia vem para iluminar e esclarecer sentimentos, ao escrever pensamos duas vezes, três, quem dirá até quatro.

Há nove meses que isto tudo começou. Ficar mais em casa, buscar os nossos prazeres, sem precisar do outro. Neste período, lembranças de meus primeiros momentos literários vieram à tona, ainda no quarto ano do ensino fundamental, lembro das emoções vividas junto a jovens (na época com minha idade) perdidos em uma mina de ouro. A narrativa da autora é minha primeira lembrança do despertar para a literatura. Depois veio a feminista Marion Bradley Zimmer, o fantástico mundo de Harry Potter, os mistérios de Sthepan King e tantos outros artistas que fizeram meu coração. Em muitos momentos da minha vida me senti só em termos de ideias, me pareceu que os personagens seriam companhias muito mais proveitosas que as que a vida me oferecia, e isto no final das contas se provou uma verdade divina. É sobre o deleite e encanto da leitura e da escrita que eu quero falar. 

Como educadora tenho o costume de rever os aspectos positivos de minha formação justamente para que somado às teorias, meu próprio conhecimento empírico (experiências)  se faça valer como forma de despertar este mesmo apreço em meus pupilos. Agradeço minha mãe por sempre me dar exemplos positivos do gosto pela leitura, certamente experienciar isto em minha infância contribuiu. Oriento as famílias com as quais trabalho da importância do exemplo, mas ninguém é melhor ou pior por gostar ou não de ler. A literatura, como o cinema, as redes sociais e outras dedicações, são uma questão de gosto e de chamado. Expondo minhas experiências, espero poder ser uma interlocutora de chamamentos. Se a fagulha da literatura acende, há de haver entrega, ao menos uma chance

Exatamente porque minhas colocações pessoais do relacionamento saudável e frutífero com a leitura seriam de interesse alheio, eu ainda não sei. Mas que me dá muito prazer a  ideia que a leitura e a escrita sejam instigadas e valorizadas por mais pessoas tenho certeza. Espero poder de certa forma encorajar relacionamentos duradouros com esta arte que me faz tão plena e feliz. 

24.11.20

Dia 252: por Cissa Castro

Diário de quarentena 

Hoje tá tudo normal. Todo mundo foi pra rua e se sentou no bar. O mundo continua estúpido como sempre e eu alimentando meus rancores sem fazer muita coisa producente. Só lendo uns livros a mais e escrevendo palavras perdidas. Vou amontoando elas ali nas linhas, como se aquele fosse o ponto de encontro.

Mas a minha plantinha cresceu, acho que vou até ter que trocá-la de vaso.

Que mundo estúpido. Mas tudo dentro do normal. A gente normaliza tudo, se acostuma com tudo, com tristeza, com morte. Só não se acostuma com solidão, com esconderijo. É preciso se mostrar, bater foto na praia, na mesa do bar. Todo mundo se amontoando, seja onde for, uns em vala, outros na rua. Também, não tem muito o que fazer, não é mesmo? Se ficar preso, a gente enlouquece. Eu adoro essa coerência de um país que condena o comportamento animalesco daqueles que ficam anos encarcerados dormindo no odor dos outros e no seu próprio, condenados por crimes que o Estado ajudou a cometer. Mas realmente, ficar preso deve ser de enlouquecer. 

Eu entendo o argumento dessa gente. Tomar vinho bom, no sofá confortável não é a mesma coisa. Mas também, o mundo é cheio de gente estúpida. Não tô me colocando fora dessa. O mundo não evolui, o homem não evolui, ele circula; volta e meia a gente volta pra mesma imbecilidade.

Tá tudo normal. Eu, por exemplo, curada a ressaca, retorno ao mesmo cálice de vinho. Como se qualquer delírio etílico fizesse mais sentido que ver o jornal. Eu odeio matemática e só vejo esse empilhar de números na minha frente. Todo dia. Tudo igual. Tudo normal.

Diário (cantado) de quarentena 

A música anda tocando desafinada. Talvez seja porque antes era composta também dos barulhos de copos batendo na mesa, da risada que vinha do pessoal ao lado, do “tudo certo?” do garçom que sempre entrava no ritmo. A música tinha muito barulho na sua volta. O cantor do bar era interrompido pelo cantar desafinado de um bêbado que saía a dançar como se aquele espaço fosse todinho dele. Cantava alto e com a alegria de quem sabia que o arrependimento só viria no amanhã.

Agora a música tá errada, silenciosa demais. Dentro da casa vazia não tem nada que compita com ela, ninguém ocupa um espaço na sua melodia como se fizesse parte da composição. A música da casa sozinha só briga com o silêncio da minha própria ausência (o velho clichê do silêncio ensurdecedor). 

A janela da frente é distante, mas me pego a imaginar o que pensam, o que sentem e quais são as dores daqueles moradores que me fazem companhia nesse happy hour imaginário. É possível que tenham dores, deveria ser obrigatório que tivessem. É muito egoísmo passar por tudo isso ileso, tão mais egoísta do que eu querer que doa tanto em vocês o que dói em mim. Mas nesse silêncio penso muito em querer as coisas do jeito que quero e não do jeito que esperam de mim. No silêncio desafinado que sai da caixa de som fico esperando por algum outro barulho para que eu possa parar de sentir medo do volume alto importunar os vizinhos. Talvez fosse bom que batessem a minha porta e reclamassem do barulho, seria uma mínima forma de interação com as pessoas que vão restando no mundo. 

A quem eu quero enganar? O volume está sempre baixo, eles não podem ouvir; só eu posso. E posso porque sei a ordem de cor do que irá tocar, mesmo que o modo seja aleatório. A música sem o convívio do resto pode ser opressiva às vezes. Eu escuto baixinho só pra que abafe o meu pensamento até que ele se fantasie de feliz quando o efeito do álcool começar a surgir.

É mentira, tudo isso é mentira. Eu gosto da música. Eu gosto do jeito que ela compõe o mundo. É que eu não tenho gostado muito do mundo.

23.11.20

Dia 251: por Arthur da Silveira Fortes

Mais um dia infeliz para eu escrever.

Mil trabalhos, mil escritas, mil dias contados, mas nunca podendo sair, pois o vírus tá bem aqui.

Cansado eu fico, já escrevi uns vários dias, todos os mesmos, em meu diário; hoje estou me cansando de tanta escrita, ela ficou aborrecida porque eu fiquei aborrecido de tanto fazer ela.

Mas, preciso fazer ela, ela é minha vida, minha distração, tira o tédio de só ficar em casa o dia inteiro, de não ter coisa alguma a fazer, pessoa alguma a conversar, pessoa nenhuma a ver em nenhum lugar; ela me dá alegria e felicidade nesses momentos difíceis de ficar só em casa com apenas a presença de minha família.

Porém, a escrita também me entedia, me deixando aborrecido quando tenho que fazer, principalmente quando é dever.

Agora, já deu a escrita do dia e digo para o meu leitor que a gente vai se esbarrar no percurso de nossa vida.

8.11.20

Dia 236: por Grace Gosmann

Estamos no mês de novembro do ano de novos e velhos tempos.

Querido diário, 

8h. Dormi mal de novo, preocupada com meus filhos, e não ouvi o despertador, rsrsrs. O dia será cheio. Preparação de aulas, correção dos exercícios. Vou sair para caminhar novamente. Esse negócio de estar isolada em casa me deixa de muito mau humor.

Ontem à noite o Augusto fez uma chamada de vídeo. Estava aliviado porque ele e a Ari continuarão em home office. Que situação esquisita! As gurias estão ótimas, eles vão tentar vir para as eleições. Muito bom! 

13h. Carol ligou e fiquei feliz mais do que o normal. Ela disse que pela primeira vez desde o final de março está tranquila, achando que os cuidados com o uso de diversos equipamentos de proteção e o isolamento total no convívio com a família e amigos estão mesmo funcionando. Eu disse que ela faz um enorme sacrifício, mas ela não concordou. Ela está de folga e virá aqui em casa pela primeira vez desde que está na tenda do Covid. Ela está vindo trazer o pão que fez para mim.

21h. Estou felicíssima. A vida é mesmo feita de pequenos momentos. Abracei-a com toda a saudade acumulada. É óbvio que eu chorei, você já sabia. Tomamos café com bolo de maçã. Conversamos dos filmes e vídeos que assistimos nos últimos meses, falamos do nosso cotidiano, rimos juntas. Relembramos bons momentos e até listamos as próximas viagens. Só nos damos conta da hora quando as luzes amarelas da rua entraram pela janela. Para esticar essa intimidade tão rara nessa época, fui com ela até o super que fica no caminho.  

Querido diário, sinto-me culpada por estar em casa fazendo meu trabalho em toda a segurança. Gostaria de ter um poder mágico. 

Penso nos familiares e amigos que estão na linha de frente do Coronavírus. Minha homenagem!

Fim por hoje.

 😊

24.10.20

Dia 221: por Elenir Souza

Um triste desencanto

Estou entre as pessoas que, logo no início do surgimento do vírus, se deu por conta da gravidade da situação. O mantra "fique em casa" ecoou forte aos meus ouvidos.

Tínhamos que nos proteger. Era mesmo tudo muito assustador e deveríamos seguir todas as regras e normas dos protocolos da saúde. Muitos resistiram ao não acreditar na situação epidêmica. Houve dificuldades em aceitar as privações. O amor e o ódio andaram paralelos, apontando para os governantes. 

Dentre as barreiras exigidas e para seguirmos em frente com segurança, o distanciamento social foi o mais sofrido. Não me ressinto de andar mascarada, já acostumei, até procuro combinar a cor da máscara com a roupa que vou usar.

Passamos por um período de transformação e tivemos que repensar nossa trajetória de vida. Eu jamais imaginei passar por tudo o que estamos vivendo. Teve um dia em que me deparei comigo mesma, parecendo fazer uma viagem interna para dentro de mim. Revi tudo o que já tinha vivido até agora. Aí pensei: "Não é à toa que tenho que procurar manter o equilíbrio emocional. Não posso falsear o pé". Sentia, que era pouco o que tinha vivido até agora. Eu queria mais, tantas coisas mais...

Pensei, também, que eu poderia ter conduzido de outra forma minha vida. Meus pensamentos ficavam brigando entre si, tumultuando minha mente já confusa.

Na minha rotina diária gosto de levantar cedo, já entre os primeiros raios do sol. Ouvir os pássaros cantando na minha janela do quarto é um convite para sair da cama. O fato se deve, também, pela saudade que sinto logo ao acordar, dos meus animaizinhos queridos. Tenho dois cachorrinhos da raça cockers, e uma gatinha que é uma gracinha.

A cada manhã, quando sinto o vento soprando leve o frescor da primavera, aliado ao aroma do pó de café que já exala pela casa toda iluminada pelo sol, sinto o quanto "A vida é bela"!

Aqui, claro, lembrei-me do filme de Benígni de 1997. A história do filme, de certa forma, ajuda-nos a refletir sobre pôr em prática nossa capacidade de resiliência, para irmos podendo superar isso tudo.

São cenários diferentes. Bem diferentes. Aqui temos um vírus como inimigo e, no filme, são os humanos contra eles mesmos em plena segunda guerra mundial.

Mesmo assim, mesmo sentindo a beleza da vida, às vezes o torpor toma conta de mim e fico me sentindo inerte. Não foram poucas manhãs que, ao acordar, a primeira coisa que pensava é se era mesmo real o que estávamos vivendo. Fazia uma retrospectiva dos últimos dias e dizia para mim mesma: "Estamos sim vivendo uma experiência dolorosa de vida. Isso é aqui e no mundo todo".

O que tenho a fazer então? Cair em desvalia? Esconder-me por detrás da minha fragilidade e desesperança como se fosse um escudo a me proteger? – Não, não é isso!

Não posso ficar na neutralidade e nem na neurose maníaca da negação. Hoje, a fase mais difícil do isolamento está em arrefecimento. Estamos exaustos da quarentena, mas a pandemia não acabou ainda. Estão ocorrendo flexibilizações e temo pelo risco de termos que nos trancarmos em casa novamente. Tomara que não. Torço para que isso não aconteça aqui como está acontecendo em alguns países europeus.

Com isso tudo, procuro evitar a inatividade, escrevo e leio, leio e escrevo. Vivo refugiada em meus livros. Gosto de escrever sobre tudo o que sinto e penso, se parar posso escorregar com o tédio e a desesperança vindo, então, o desencanto.

Afinal, não posso ficar paralisada frente à vida que segue. Neste tempo triste, não quero a intensificação de meus conflitos. Carrego dentro de mim lembranças salpicadas de nostalgia de um tempo de vida alegre, parecendo vida encantada. Tudo nos leva a crer que a vida pode mesmo ser bela.

1.10.20

Dia 198: por Roselena Colombo

Os sons ao redor 

Que barulho é esse? Será que são aqueles empresários enlouquecidos de novo para abrir tudo? Mas já tá quase tudo aberto. Menos a mente de quem, por ganância ou ignorância, não percebe a merda em que estamos. Estarão eles novamente enrolados na bandeira (agora sei por que nunca fui com a cara da bandeira do Brasil) dentro de seus carrinhos mandando a “pobretagem” ir se infectar? É isso dai. Olho pro Pedrão que uiva fingido de cão selvagem e penso no que fazer – me esguelar xingando, atirar ovos como os vizinhos fizeram da outra vez ou fugir pra debaixo da cama... O som vai aumentando, invade meu parco aparelho auditivo e quando num arroubo atiro-me na sacada para berrar impropérios, escuto sons, palavras que me caem bem aos ouvidos...Outra carreata, outras bandeiras, outras cores – vermelhas e generosas, a plenos pulmões. Passado o fervo, olho para a gaveta do escritório e penso no texto que escrevi em maio, tão cheia de esperança e ao mesmo tempo tão longe dos dias que vieram depois daquelas noites de maio...Gosto de escrever à mão, de rabiscos e erros, da mente exposta no papel...Eis:

“As estantes com livros e postais, os quadros e caixas com fotos, a rede. A saleta toda é um baú de memórias pronto pra ser acessado a qualquer momento, como uma constelação provisória.  O pé direito alto e o ranger do piso – estalos da madeira levemente comida pelos cupins – sinalizam o passar do tempo na casa. A janela e a pequena sacada abrem-se direto para a rua.

Estreito, seu traçado foi desenhado como um braço de rio, serpenteado por moradas outrora indígenas. Essa arquitetura longa e fina a mantém até hoje livre de ruídos e fumaças de ônibus superlotados. A cidade nasceu assim, banhada por águas calmas e caminhos tortuosos. 

Ao abrir a sacada, os sons de gentes e pássaros preenchem a quietude de sua manhã e o sol subverte a geometria dos prédios, invadindo ângulos. Em confinamento, cada detalhe da casa é como se fosse uma extensão de seu corpo. Estreita como a rua, transita nela até seu oásis de plantas ao fundo. Espera o anoitecer. Espera que algo de novo aconteça. 

A lua cheia esparrama sua luz na rua iluminando de um jeito todo especial aquele prédio vizinho, quase centenário. Não havia reparado como ele era bonito com seus detalhes, simples mas com um acabamento da época em que prédios eram assim – baixos e com uma pitada de arte.  

De repente, outros sons. Desafinados e com ritmos diversos, aumentam paulatinamente até engolir a rua como uma sinfonia anárquica.  Chegara a hora de se juntar ao cortejo. Estavam ali seus instrumentos. Esticou os braços e alcançou a colher de pau e a panela velha, escolhida a dedo. Não estava sozinha.”

29.9.20

Dia 196: por Jonas Dornelles

Na verdade, eu só gostaria de poder esquecer. Chega uma hora que você também tem outras coisas pra se assustar, e sempre aparece, desgraceira e desgraceira de coisas pra se assustar. Quem não largaria de mão tudo por um pouco de paz? Esquecer de tudo. É o que todos fazem aqui na região onde as casas são cor de cinza descascado. Só se quer esquecer, mas vou te contar uma coisa: todo mundo de vez em quando ouve uns dois ou três estampidos lá longe. Uma hora você resolve não se assustar, ao menos não pensar tanto tempo, já que não faz sentido se não pode fazer nada.

A caminho das casas multicoloridas, escuto o ruído repetitivo de etiquetas sendo recolocadas, as pessoas sentadas em banquinhos, muito cômicas, dedicando seu tempo a substituir as etiquetas antigas, num trabalho que nunca termina, já que ao longo da semana sempre aparece um fornecedor ou uma manchete confusa que as obriga reajustar. Ninguém lê com calma, por isso não desconfiam da artificialidade da coisa.

Se é preciso lembrar, vou te contar: um zé povinho me aporrinha a vida dia sim dia sim. Não que ele mereça ser lembrado, e a bem da verdade, a melhor maneira de conduzir essas coisas seria esquecê-lo mesmo para todo sempre. Fazer como ele: dormir por cima dos problemas, se intoxicar, de vez em quando botar o som bem alto e entrar madrugada falando falando falando, com as paredes, pro telhado. As vezes invejo essa rotina, como se eu pudesse um dia também ganhar a vida no grito, só mandando tudo calar a boca, falando por cima.

Com frequência sinto um cheiro de plástico queimado ou madeira muito verde e imagino minha casa queimando. Um incêndio que vem zé povinho, e só depois percebo. Deve ser o que acontece com um nariz todo destruído de cheirar pó, ou uma bosta assim. Precisa se desgraçar com um cheiro de podre para sentir uma adrenalina. Queimar um terreno baldio, porque é assim que chamam um pedaço de natureza depois que já está cheio de lixo espalhado por ali. Tocar fogo em terreno baldio, para sentir um cheiro de mudança enquanto se observa sério a fumaça, como se disso surgisse uma experiência sábia. A sarça ardente! E então Deus mesmo apareceu para Moisés em meio à sarça, como diz na Bíblia. Imagino uns quinze anos de Datena ou programa da Márcia na cabeça da pessoa, se eu mesmo não aguento uns quinze dias dessa dieta...

Por vezes escuto sua conversa ridícula, outra bravata, o falar falar falar. Imagino essa cracolândia como se fosse o próprio Senado, na verdade mesmo o Judiciário, deliberando e decidindo aleatoriamente sobre a vida das pessoas que passam descuidadas ali pelo beco. E isso alegra a vida, a barca desce como se estivesse em direção a uma cachoeira, você sente o frenesi da urgência, e algo parece que vai mudar dramaticamente. Uma catarse imensa, o fármaco definitivo, remédio-veneno para vidas geradas na desgraça, zé povinhos obcecados pela desgraça, só reconhecendo uma cena alegre quando permeada por banhos de sangue. Como se um gostinho de sangue na boca fosse remédio para essa miséria toda que se vê aqui na região.

Quando as paredes estão encostadas umas nas outras, todos fazem questão de ensurdecer, mas às vezes esse barulho é muita coisa, quando ressoam como os estampidos. Desde sempre essa é uma vida na prisão, você pode escutar uma conversa de muitos pavilhões adiante, sem interessar de verdade, já que não vai se meter no que não te diz respeito. Porque uma hora acontece algo de inusitado, e ir preso não é pior que uma tempestade derrubar o teu barraco. Essa sensação é bem comum pra muita gente por aqui.

Na região, vi tantos que loteiam um campo e depois vendem. Não era pra morar, afinal, era só pra tirar vantagem do que estava de graça ali. Tem uns que desde sempre fizeram dinheiro assim, o avô que vendia arvores que derrubava, que estavam ali, coisa pública. Os mais favorecidos hoje tem seus sobrenomes ilustrando placas, com empreiteiras que não encontram nenhum problema de legislação ambiental. Lembro do aspecto semi rural que está se desvanecendo, um boi mugindo de noite ou o canto do galo madrugando cedo, aqui mesmo onde agora patrolam para fazer condomínio. Vejo um submundo de escroques, que hoje tem filhos ressentidos cujo plano máximo é passar no concurso da polícia, para daí poder espancar alguém ou dar tiros. Isso já há décadas, fatos históricos que fogem do arquivo e ocorrem nos bastidores do teatro jurídico. Enquanto isso sufoco com a fumaça, imaginando quando será a vez do meu barraco. E me pergunto por que o ódio prende mais atenção que os gestos de solidariedade?

O zé povinho fala fala fala, como se em uma prisão, como se numa tribuna, como se só pudesse fazer isso, pra daí então esquecer. Não querer pensar, ser um zé povinho, rosnar de um jeito cômico: “É por isso que o Brasil não vai pra frente!”, por cima de qualquer situação aleatória que seja trazida em meu cotidiano. Esquecer. E então, depois de muitos dias sem algo trágico, sentir que algo de grave está acontecendo. 

No caminho até as casas multicoloridas, indo comprar mantimentos, todos falam falam falam como se isso fizesse o corpo fechado, escuto-os falando sobre a situação toda como se fosse um mau olhado que é só afastar que não deixa doente. Você pode inclusive encontrar sempre alguém com mais problemas, para daí se sentir melhor, mesmo se já tá descansando entubado na UTI. Acho maravilhoso como com frequência, desde o início, escuto sobre uma junçãozinha. Quando se encontram falam sobre como tomam cuidados, narrando obsessões cômicas a respeito do álcool gel. Enquanto isso, compartilham o mesmo copo de cerveja babada, algo que vejo pode se dizer até que com certa frequência aos domingos, a algumas quadras daqui.

Penso em quantas vezes já vi tragédias em que por nada um grandão derruba a porta, invade o barraco, arranca todos a pontapés e estapeia uma avó na frente de todos. Como esperar que sejam racionais, dentro desse absurdo todo? São tantas testemunhas que não se escuta, que levaria um tempo considerável para refazer em detalhes o cenário de toda essa tragédia. Já há muitos anos. Mas mal começamos a recapitular, e alguém mais nocivo, um outro zé povinho mais patológico, faz parecer que o psicopata do momento até que não era tão mal. Ou outra legislação correndo o risco de ser queimada, os juízes loucos para assumir uma ar inocente, como se buscassem fazer sua caridade ocasional. Sem dúvida a saúde das suas avós são seu o maior tesouro e está muito bem preservada. É um salve-se quem puder, uma desgraceira toda, um estardalhaço de sangue derramado. 

A verdade é que eu só queria esquecer, e uma hora você resolve não pensar mais sobre isso. É justamente esse o problema. Ninguém quer pensar muito tempo se não pode fazer nada. Mas é só com a paz sentida nas casas de cristal translucido e luzes ambiente, que se pode de fato esquecer. Não há estampidos, não há pestilência ou pequenas avós sendo esculachadas pela polícia. Só assim é possível esquecer de verdade. Do lado de cá estão todos preocupados com seu próprio barraco, com a cela em que já vivem há décadas. Porque muitos se esforçam em esquecer é que não percebem que essa suposta selva, um grande terreno baldio, é na verdade um zoológico, e que o zé povinho é uma cria desse habitat.

É porque nas casas translúcidas de cristal já se esquece de fato, que continuamos encarcerados ouvindo um zé povinho lunático discursando, desesperados sem poder fazer nada. Lá se ocupam e iludem, mantêm um constante jogo onde fazem todo tipo de truques e pequenos blefes, e fingem que arriscam tudo, as próprias leis, suas matérias primas e reputações. Por vezes tudo é colocado na mesa de maneira dramática, se cria um tumulto histérico, que não precisa de sangue para ser controlado. Algo se reorganiza apenas com dor de cabeça, permitindo uma nova fase de esquecimento. É porque agora está tudo tranquilo nas casas de cristal translúcido, que transborda para cá um sentimento de paz, e se pensa poder esquecer tudo isso de fato. Esquecem que agora é o zé povinho que está ditando as regras do jogo.


27.9.20

Dia 194: por Ana Paula Silva Barbosa

Já faz dois meses que esse longo domingo começou. Dois dias 25 nos passaram, ou seja, consegui economizar duas mesadas. Isso não importa muito, é mais surpreendente como eu consigo me atrasar para uma videoaula mesmo estando em casa, mereço um prêmio.

A internet não ajuda muito a manter minha noção de perigo, para mim, que confiavelmente e despreocupadamente me ajustei a essa rotina, não importa faça chuva faça sol, a ordinária família do 103 não é grande o bastante nem pequena o suficiente para ser percebida. Nesse pequeno apartamento, cheio de pelo de gato, e mais canecas do que ovos, nós fazemos a cor do pé ser uma piada melhor do que o “ tijolinho “. 

As coisa aqui são muito bem confortáveis. Não mudamos a nossa rotina, nem nossos hábitos, muito menos nossos pensamentos. Todo dia eu acordo às 5h, enrolo e só faço o meu omelete as 6:30. Vejo um anime, por que eu odeio assistir com qualquer outra presença sem ser meus gatos, lá pelas 7:30, me faço de besta e fico deitada. Tomo vergonha na cara e vou fazer café para a mãe, logo tomo uma pílula de ritalina e marco 30 min. Apesar de já ser 8h, eu tomo um banho demorado, e sempre no quente. Faço um copão de café, corro para o quarto, ligo a videoaula no meu notebook e me deito. Eu continuo tendo preguiça de prestar atenção, então ao invés de copiar toda a aula e estudar em caso como fazia antes da quarentena, eu apenas fico prestando atenção e depois eu estudo pelo livro didático (enquanto tenho 16, poderei procrastinar dessa maneira).

O que acontece nesses momentos sempre será a mesma coisa. O que nos interessa é o que vem depois: meus surtos com a minha mãe, minhas conversas nada a ver com o meu pai, meu gato stalker, minha gata gorda sofrendo bullying, ou eu surtando na internet por qualquer coisa? Tantas coisas acontecem entre três pessoas e dois gatos, que parece coisa de girico acreditar que ninguém sabe que dia é.

Não faz muito tempo que meu pai estava cozinhando um frango afogado na cerveja preta. Ele disse 3 vezes “ cerveja branca “ e durante um filme ele viu uma cena de almoço e falou "frango na cerveja".

Minha mãe, tão surtada quanto eu, não decora nome de personagem, e ainda por cima acha que coisas muito sérias irão acontecer em um episódio. Teve um dia que ela achou que a protagonista era a amiga dela, então ficou me perguntando “ mas a catarina não é a menininha ruiva….mas ela não estava gostando do príncipe?... ela está traindo ele?" não minto, me estressei na primeira pergunta.

Sozinha eu surto comigo mesma, tretando com qualquer pessoa na minha timeline. Sentindo falta das minhas pequenas tretas com minha melhor amiga, pensando em escrever um novo capítulo da minha fanfic, assistir aquele filme que eu parei duas semanas atrás, tentando tomar vergonha na cara e começar a estudar. No final, eu só fico encolhida na minha cama debaixo das cobertas pensando "ah, eu colo da internet. Bora tentar escrever algo". Felizmente eu tenho bom senso e arrasto meus cadernos e meu notebook para a cama e começo a estudar. nice.

Até o fim, posso dizer que fui produtiva no mínimo. Três temas concluídos, dois blocks no Twitter, dois cochilos, meio capitulo pronto, e umas quatro novas ideias de universo para eu criar. Talvez minimamente produtiva, mas produtiva. Nada me impede de ignorar isso e dar total atenção ao meu teto. E no fim, perceber que eu tirei mais um gostoso cochilo.

As coisas só podem ser estragadas se alguém na televisão vem falar do novo números de mortes, a é, já entrou na cachola que ele só vai aumentar, ainda temos feijão? Que dia foi a última feira? 

Não importa muito que dia isso foi. Meus pais estão dormindo,  então mesmo sendo 11h, eu volto a deitar na cama ignorando as videoaulas perdidas, o número de mortes, os novos “exposeds”, pessoas inventando novas regras para o pronome, criando novos gêneros, atacando bissexuais, endemonizando homens e enaltecendo mulheres, matéria atrasada e meu cereal que está escondido na gaveta por que tive nojo do gosto. Não tenho a menor ideia de como consigo conviver com tudo isso, tudo em um mesmo dia, em algum dia… 

25.9.20

Dia 192: por Matheus Borges

Sinto que já não há nada de muito original que possa ser dito a respeito do período que atravessamos. Além disso, estar privado do contato com o mundo em geral é algo muito grave para quem escreve. Alijado das experiências do cotidiano, perde-se o interesse pelas coisas. Em resumo, torna-se muito difícil escrever sem as banalidades da dimensão social da vida. É como dar partida num carro sem combustível, repetidas vezes.

Um aspecto do isolamento que não vejo muita gente comentar é o de como essa impossibilidade de novas experiências condiciona nossa cabeça a remoer eventos do passado. É um efeito colateral possível de ser observado em qualquer feed de rede social, onde as throwback thursdays transbordaram e passaram também a ocupar outros dias da semana. Dezenas, centenas de lembranças de nossos amigos. Também entram nessa lista as incontáveis reprises que tomaram conta das emissoras de televisão, como que segurando um espelho que reflete o passado. Invariavelmente, tomamos isso como sinal de que nossos melhores dias ficaram para trás.

Faz alguns meses que tenho me sentido nostálgico e eu odeio nostalgia. Compreendo que é um sentimento perigoso, capaz de gerar ressentimento, as mesmas convicções que possibilitaram a ascensão do obscurantismo autoritário que tomou conta do país. Não apenas isso, também é um estado de espírito inútil. Afinal de contas, a flecha do tempo só tem um caminho. Adiante, adiante, nunca para trás. Sinto-me patético quando me pego remoendo o passado, quando me flagro tentando lembrar de como já fui. Tomar consciência da nostalgia é o primeiro passo para exorcizá-la, claro, mas é também constrangedor.

No fundo dos devaneios, ecoando como ruído branco, está a ponderação da felicidade. Será que fui mais feliz em outros tempos? Será que algum dia já fui feliz? Será que algum dia serei feliz novamente? Será que algum dia compreenderei a felicidade no instante em que a vivencio? Porque é elementar da nostalgia condicionar o ideal de felicidade a algo que só pode ser compreendido em retrospecto. Essa felicidade, desconfio, não passa de uma ficção atribuída à memória pelo próprio ato da lembrança. Quanto mais peso os fatos contra o êxtase nostálgico, mais evidente fica a inclinação da memória de recuperar os eventos como poderiam ter sido e não como de fato foram.

Um pouco de raciocínio bruto, sensato, desprovido de sentimentalismo, e a resposta para todas as perguntas é um categórico não. A felicidade é o fantasma que assombra nossas vidas. Inutilmente o perseguimos um dia após o outro, enquanto ele atravessa paredes e desaparece no horizonte, justamente quando parecia tão próximo. A nostalgia, em contrapartida, é um segundo fantasma, que corre atrás de nós enquanto perseguimos o primeiro, dizendo “estou aqui, sempre estive aqui, por que você não me notou antes?”.

De qualquer maneira, segue abaixo uma breve lista de coisas que me provocaram acessos de nostalgia ao longo dos últimos meses:

Comerciais da TV Manchete;
Vídeos do Brizola em geral;
O videoclipe de “Lazy Eye”, da banda Silversun Pickups;
O álbum Fever to Tell, da banda Yeah Yeah Yeahs;
A canção “Kim & Jessie”, da banda M83;
O conto “The last lawn of the afternoon”, de Haruki Murakami;
Uma fotografia minha num show da banda Autoramas no Porão do Beco em 2012;
Uma fotografia minha bebendo uma garrafa de Skol em 2009;
O filme Bill & Ted Face the Music;
Rever o filme Starship Troopers, de Paul Verhoeven, depois de muitos e muitos anos.

É isso. Que a nostalgia esteja devidamente exorcizada.

22.9.20

Dia 189: por Altino Mayrink

Um dia como todos

Uns seis meses de distanciamento, dos amigos, dos colegas, dos amores, de todos os contares e cantares nos cafés e nos bares de Porto Alegre e da vida. Sem viagens, sem viragens, miragens, nasceres e pores de sol. A repetição de movimento nos limitados cômodos da casa de adulto solitário, só.

Esse é o hoje, indiferente do ontem e já não sei como será o quando vier.

Olho em volta a desarrumação comportadinha em que se transformou o apartamento dessa vida. As estantes de livros, com muitos livros e mais. A televisão que não ligo. As almofadas do sofá que sentem saudade de serem apertadas e afofadas por mãos carinhosas das minhas visitas. Um tabuleiro e peças de xadrez que vão se multiplicando em muitas partidas, sendo jogadas à distância. Já viram impactantes vitórias, melancólicos empates e vergonhosas derrotas. E os relógios das paredes e estantes, com as apresentações sem parada do tempo e seus tique-taques desarmônicos.

Em momento algum da minha vida de constantes mudanças fui tão eu. Nem tão silencioso, nem tão pensante. Estudei e aprendi. Ensinei e vivi em janelas irreais do notebook negro. Sentenciei minhas realizações e esconjurei todas as deidades possíveis. As graças que recebi e as descrenças que porventura tive povoaram meus muitos e silenciosos pensamentos. Se algo pude dizer ao mundo e a vida, foi pensado e remoído de antemão. Fui e estou mais sábio, mais sereno e mais moderado.

As comidas que aprendi a fazer e que agora são parte de mim. As bebidas, bem mais escolhidas e saboreadas com parcimônia. Redescobrir os fornecedores que nunca tinha conhecido e reconhecido, de insumos mais saudáveis e menos industrializados. Como e bebo melhor. Meu legado.

Queria ter palavras doces e amigas para terminar esse relato, mas não posso. Se o que eu vejo pela janela não me mostra que as pessoas progrediram, se meus vários vizinhos de prédio e de rua insistem em não ver e negar insistentemente as precauções, não posso. Deixo apenas o recado esperançoso de alguém que aprendeu com as atribulações dessa época: se houver um futuro, para mim bom será. Mas não vejo a cidade, o estado ou o país melhor para todos nós.

21.9.20

Dia 188: por Ana Carolina Gomes Petry

Escrevo um diário de um dia. Olho no relógio, 14:55, olho na tela do celular, apenas uma tela vazia. Eu esperava receber alguma coisa. Não foram poucas as vezes que desviei o olhar, inocentemente, esperando uma luzinha azul piscar, alertando-me de alguma nova notificação. Talvez eu esteja me sentindo sozinha. Talvez eu olhe pra janela, só pra olhar e ver um céu azul e pensar em como, em outras épocas, vendo tal paisagem, as seguintes seriam minhas ações: pegar o celular, mandar mensagem pro Netto, "quer sair?", ele responderia que sim, eu trocaria de roupa e nós iríamos caminhar na orla do Guaíba até umas 17:00, voltando pra casa antes que meus pais chegassem. Mas agora, tudo que me restava era observar aquele céu, a cúpula da Catedral por alguns instantes e ponderar sobre a existência de Deus. Que inusitado. Tem sido um tópico recorrente em minha mente, que tem passeado em minha cabeça, a incerteza sobre tantas coisas: sobre quem serei no futuro, sobre quando a quarentena teria fim, sobre Deus. Talvez eu só tenha passado a pensar nele por tanto observar a Catedral, ou por me sentir sozinha, ou por estudar filosofia. Não sei. De qualquer forma, prefiro me ater às certezas e à lógica incontestável de uma equação matemática - mas, na verdade, nem tenho mais certeza alguma sobre essas notas. Mas o céu continuava azul.

19.9.20

Dia 186: por Rita Cavalcante

quanto tempo dura o tempo? quando vira a hora e anuncia o dia? quando o alarme canta o compromisso? quando o risco corta o papel preso ao imã da geladeira?

um dia na pandemia leva muito tempo. anos. do primeiro dia até a consulta médica da filha, 113 (não era. era alergia). dia zero. 19/7: os pais se mudaram pra lá. domingo. depois de 4 dias: 44 anos. era agosto. 46 dias hoje. um dia na pandemia leva 1 vida. 133 mil. hoje. eram.

amanheceu 3 vezes depois que a Mãe foi dormir. nunca mais "bom dia". não era. 14 meses. neoplasia.

18.9.20

Dia 185: por Gabriel Brié

Prepara o cavalo!

Minha avó paterna era como estas senhoras centenárias que habitam os desenhos animados e a literatura. Era baixinha, costas arcadas, passos curtos e olhar atento. Cabeça envolta por um lenço de crochê que se avolumava com o coque impecável. Avental quando estava em casa e talco no rosto quando tinha que sair. Era tão parecida com essas personagens imaginárias que certa feita, quando um amigo desavisado se viu sozinho com ela na cozinha de casa, disparou correndo aos berros: - Socorro! Uma bruxa!

Às vezes, em uma manhã ensolarada, lavava o longo cabelo branco e se sentava ao sol para secá-lo e penteá-lo. Era um ritual. Tão longo quanto os fios que encostavam no chão. E guardava cuidadosamente, em uma caixa de sapato, os cabelos que caíam durante o pentear. Dizia que depois de morto a alma voltava para juntar os cabelos e as unhas (que ela também guardava, na mesma caixa, mas em embrulhos de pano separados). Então era melhor já ir guardando. - Imagina ter que juntar tudo e só depois a alma poder descansar! Dizia ela em tom de advertência. 

A idade da Vó Levina não era uma coisa exata. A sensação que tenho é que, com o passar do tempo, foi se construindo um consenso sobre isso. E sempre que se comentava a idade da vó, vinha à tona a história que ela teria feito a certidão de nascimento quando foi se casar. Então no Cartório de Registros, quando perguntada sobre a data do seu nascimento, não sabia ao certo o ano que tinha nascido. Registraram a idade que parecia ter. A única certeza é que quando morreu, em dezembro de 2000, tinha mais de cem anos. E esta certeza vinha do fato de ela ter presenciado, em 1986, já com idade avançada, pela segunda vez, a passagem do Cometa Halley. Era só fazer as contas e constatar que se tratava de uma anciã. Ela contava que quando o cometa passou ela era criança, mas que se lembrava de tudo. E que a passagem do cometa tinha iluminado a noite mais do que a lua cheia. – Dava pra achar agulha no paiol. Dizia ela. Quando o Cometa Halley passou em 1986, não deu pra ver muita coisa lá de casa. Chamamos a vó para presenciar aquele momento histórico. Ela olhou e disse que não era o cometa, e que estávamos enganados. Virou as costas e foi dormir. Foi uma decepção para mim. 

Este imaginário e suas histórias fantásticas era o que mais me encantava na Vó Levina. Histórias fantásticas para mim, porque para ela era tudo parte da realidade. Sacis, lobisomens, bruxas, Caiporas, Boitatás e outros seres fizeram parte da minha realidade enquanto convivi com a minha avó. Sei perfeitamente como é o assovio de um Saci, o que fazer caso apareça um lobisomem, e ainda me pego atento ao Caipora quando visito uma mata mais densa. Na quaresma também costumo ficar mais atento, só por precaução. 

Ela contava muitas histórias sobre o Bairro dos Prestes, que ficava perto do Bairro dos Fria. Lugar onde ela nasceu, viveu, se casou e criou os filhos antes de ir morar na cidade.  Neste bairro, quando ela era criança, havia a necessidade de se buscar o dia. Era um hábito do lugar. Uma prática fundamental na cosmologia e no dia a dia daquela comunidade. Todo dia alguém acordava bem cedo, encilhava o cavalo com os cestos ao lado, e partia em direção ao leste. Ao sinal dos primeiros raios de sol, esta pessoa dava meia volta com o cavalo e retornava para a sua comunidade trazendo o dia. Até hoje me encanto com a possibilidade de uma comunidade inteira acreditar nisso! Me lembro de perguntar: - Mas vó, por que vocês não ficavam esperando o dia chegar? Era só esperar que ele viria. E sua rápida reposta: - E se o dia não viesse e fosse perdido? Como iria ficar? Entendi que não buscar o dia significava correr o risco de cair em uma noite eterna. E ninguém ali queria correr este risco.

Hoje, dia 16 de setembro de 2020, completa seis meses que eu, minha companheira Maura Rodrigues e meu filho Arthur Roque, estamos em isolamento físico devido a pandemia de Covid 19. Morando no centro de Porto Alegre, me identifico com os conterrâneos da Vó Levina, na época da passagem do Cometa Halley, em 1910. Sinto que precisaremos buscar este novo dia, e que se não o buscarmos, corremos o risco de ficarmos nesta longa e mortífera noite brasileira.

15.9.20

Dia 182: por Henrique Ganbarra

Cada dia desse isolamento a gente se sente mais exausto, esse conceito de exausto não é por fazer várias coisas, é muito mais cansativo que isso, pois além de ter as atividades do colégio para fazer, as aulas para assistir, ficamos pensando o dia inteiro no que pode acontecer daqui para frente e de como existem pessoas imundas no mundo, isso não é novidade, mas não deixa de ser assustador e revoltante. 

Hoje é terça feira, eu acordei bem, pois decidi ficar um dia sem entrar nas redes sociais, tomei essa decisão porque não aguentei o tanto de ódio que está tendo nos meios digitais, o quanto de hipocrisia de pessoas, incoerência de tantos, e milhares de pessoas querendo passar seus posicionamentos, isso é ótimo, mas quando feito direito e com embasamento, não só pelo simples motivo de todos estarem fazendo também. Eu fiquei muito triste e abalado de ver que muitos adolescentes da minha idade estão completamente imersos em suas bolhas e, agora que está acontecendo uma empatia coletiva, querem falar e ditar o que é certo ou errado. Para mim esses têm que ficar quietos e aprender com tudo isso que está acontecendo, sem criticar ou falar o que se deve fazer, pois não acredito que eles tenham argumentos concretos para tal fala. Eu poderia escrever um texto e botar para fora tudo que eu penso e tudo que eu tenho vontade de dizer para inúmeras pessoas, porém já existem muitas pessoas fazendo isso e deixando o ambiente mais confuso ainda. Sobre meu posicionamento, todos que me conhecem sabem o que eu penso e minhas lutas pelas causas que me tocam e que eu acho importantes.

Hoje é uma terça feira, dia que os professores mandam todas as atividades e eu nem entreguei todas da semana passada ainda, aliás essa é uma atividade que eu estou entregando atrasada. Agora são 19 horas e eu parei para entrar no meu twitter e o cenário continua o mesmo, não sei o que vai acontecer daqui para frente, mas sei que está sendo muito difícil de manter uma vida organizada, estou fazendo o possível. Eu poderia escrever um texto de dez páginas só falando sobre o quão mal eu estou me sentindo, o quanto de agonia eu estou nesse período de quarentena e isso está me mostrando o quanto é necessário o apoio da família e de amigos, para desabafar, para ouvir que tu não precisa se cobrar tanto, se quiser pode deixar as atividades para amanhã e ver série hoje, dormir, sei que não é o certo, mas tem dias que não tem como fazer as coisas.

14.9.20

Dia 181: por Manuela Vieira

Dia não faço ideia.

Às vezes acordo e sinto como se nem tivesse dormido. Os dias não passam. É como se eu estivesse presa no tempo. As segundas não podem mais ser chamadas de segundas. Os dias são iguais. Às vezes acontece alguma coisa diferente. É raro. Acordo. Pego o computador. Ligo. Me levanto. Vou para a sala. Largo o computador. Pego meus cadernos, livros e estojos. Vou ao banheiro. Lavo o rosto. Escovo os dentes. Volto à sala. Me sento na cadeira. Mais uma aula. Mais um dia.

Tem dias que eu estou 50% disposta e outros nem isso. Tem dias que eu me sinto totalmente alheia, como se só tivessem me jogado no mundo sem mais nem menos. Tem dias que eu tô bem. E o ciclo se repete.

Em alguns dias, acordo me sentindo vazia. É uma sensação muito estranha que nunca pensei que fosse sentir. Não sinto absolutamente nada e parece que nem eu me reconheço nesses momentos.

A ansiedade tem sido a minha maior companheira nessa quarentena. Ela chegou de mansinho, eu nem percebi e, quando vi, acordava e dormia com ela todo o santo dia. Eu já vivia grudada nela, não nego, mas com a loucura que o mundo se tornou e as mudanças que tive que aceitar, tudo piorou. Eu melhoro quando tenho a companhia de alguém ou quando meu cachorro me olha e consigo ver, no fundo dos olhos dele, que a pandemia tá complicada até para ele.

Mesmo com todo o psicológico abalado, preciso fazer as atividades. Respiro fundo, pego uma água, coloco meus fones para não ouvir os barulhos da rua e abro o classroom. Acho que só quem tá passando por isso que consegue entender esse meu sofrimento.

Mas hoje, por incrível que pareça, sem a ansiedade ou a sensação de vazio a todo momento, senti uma saudade de viver. Uma vontade louca de viajar, de conhecer pessoas novas, lugares diferentes, de sentir o vento batendo no meu rosto enquanto ando de carro, de ver as pessoas, de ir no restaurante que eu gosto, de ver as ruas, de olhar o mundo e não apenas as paredes brancas da minha casa. Esse sentimento preencheu minha cabeça e a calmaria chegou por alguns minutos. Apesar de ser nova e viver de um jeito diferente de muitos adolescentes, sempre me limitei muito a fazer coisas. Sempre me foquei em uma só coisa. E nunca pensei que fosse sentir falta até dessa coisa. A escola.

12.9.20

Dia 179: por Marília Teixeira

Feliz ano novo

Hoje eu acordei cansada. Tem vezes que nessa rotina eu vou direto para a janela. Respiro aquele ar frio, que tem outro peso e falo bom dia. Porque não falarei mais nenhuma palavra até as onze. Minha visão da cidade é considerável, mas esse ritual às vezes vira o ponto limite onde posso chegar.

Dias assim eu me sinto ingrata. Eu já vi alguém morrer. De mês em mês. Era alguém que eu não gostava muito, levava livros ou qualquer coisa para me distrair. Até andei de patins pelo apartamento uma vez. E me perguntava sempre se um dia ia me arrepender disso, que se houvesse de fato um julgamento eu seria a pior pessoa por odiar alguém que morria. Ele pegava na minha mão sempre e me olhava no olho para dar tchau. Se fosse hoje, eu ia sair sempre chorando. Lá atrás, não.

Tem vezes que nesses dias me veem outra memória de morte. Ela já era mais velha e eu realmente gostava dela. Conversava comigo quando andava de balanço, sempre no lado de fora de casa. Há tempos tava doente, não fazia sentido resistir. A incapacidade que se sente quando se precisa de alguém para te trocar as fraldas é quando se morre. O corpo demora em acompanhar. Ela pegava na minha mão forte apesar de eu ser uma estranha que ela nunca de fato conheceu. 

Então eu me sinto ingrata. Ingrata por me sentir feliz quando sou produtiva nesses meses dentro de casa. Culpada por voltar para a rua em duas semanas se tem alguém que perdeu todas as três irmãs no hospital. Ingrata por pensar que as pessoas precisam se despedir assim, em menos de um mês. Resfriado só. Resfriado que minha mãe teme todos os dias estar trazendo para casa por trabalhar no posto de saúde. Aí me sinto com os pés sondados no chão. Preciso ser forte como ela é.

Ao mesmo tempo, tem vezes que nesses dias eu sinto vontade de rever fotos. 

Era a virada da madrugada do meu aniversário. Véspera de natal. Geralmente no meu aniversário não tenho uma memória muito forte, não sou muito feliz. Dois anos atrás eu tive uma companhia que saiu comigo por aí, fotografando, correndo, bebendo, dançando e tropeçando em caracóis. Já que eu olhava para cima, para a lua redonda. E nunca tinha me sentido tão eu, tão pertencente a um só lugar. 

O ano novo foi tão bom quanto. Depois da meia noite subimos eu, meu primo e minha irmã nas pedras bebendo champagne, a lua revisitando na mesma fase. Consegui ver os fogos. Sentamos num banco, no meio do campo, ouvindo música. Senti que vinha muita coisa pela frente e que estava pronta. Que eu era eu, e vivia no meu casulo. Não sabia a que agradecer tanta segurança. Amadureceria muito com aqueles sentimentos de combustível. Tinha feito o discurso de formatura. Tinha me apaixonado. 

E de fato foi um baita ano, o seguinte. Me envolvi com a mesma pessoa, agora desapaixonada. Conheci outras, fiz jogadas de basquete como se soubesse o que fazia e fiquei eufórica com uma torcida. Não me sentia tão ansiosa quanto antes, estudei mais tranquila. Todas as manhãs, sentava no mesmo lugar. Olhava para a torre da igreja naquele tempo lento, cinza, com minhas amigas sempre sentadas no meu lado. Cada prova que entregava eu estava sendo sincera a mim mesma e meu futuro. Aprendi a depender só de mim, a pessoa que ia continuar até o final comigo.

O ano seguinte teve outra promessa. Não me sinto mal de estar em casa e estranhamente não tenho ansiedade nem estresse porque sei que estou fazendo o certo depois de tanto tempo... Mas depende mais do resto do que de mim. Tive sorte de ter vivido minha vida como foi e como está sendo. Tem dias mesmo que não dá vontade de continuar tentando estudar. Perde o sentido. Tu vê cada professor e aluno que também não acredita. 

Não tenho um tom otimista para terminar. Apenas um lembrete de que nada permanece.

Se vivem memórias, pessoas vivas, mil possibilidades que são só jogadas no acaso e se encaixam, de modo tão aleatório que às vezes dá certo.

Na mesma vida que se morre, se vive.

10.9.20

Dia 177: por Bruna Deicke

Horas em claro. Durmo. Pesadelo. Acordo. 
Em claro. Durmo. Pesadelo. Acordo. 
Em claro. Durmo. Despertador. Acordo em um pesadelo.
Café com leite. 2 mols. Matriz de A. 1. Tô aqui. Tudo tranquilo. Tchau.

A quarentena tem sido difícil.

Falar sobre um dia específico é uma tarefa complicada, uma vez que são todos iguais. Um infindável ciclo cheio de coisas e de vários nadas. Manhãs em aula. Tardes no Classroom. Noites mal dormidas. Quase tudo se repete, menos as mortes. Essas vão se somando a cada dia. Não foram mais 800 mortes. Foi uma, mais uma, mais uma, mais uma, mais uma e mais uma história de vida. Mais uma família sofrendo. Mais um caso confirmado. Mais um story irresponsável. Mais um absurdo do presidente. 
 
O mundo tem sido difícil.

Meu mundo submerso é cheio de coisas. Dessas, muitas eu não sei lidar nem resolver e, enquanto eu puder, deixo pra depois. Este é um dos meus maiores problemas: procrastinar. Eu adio tudo o que posso por diversos motivos: medo, insegurança, preguiça ou por não me sentir preparada.  A minha mente é bem traiçoeira, ela me sabota bastante. Sendo de dia ou de noite, ela está sempre pronta. Já me disseram que eu me deprecio demais e que não posso ser assim. É tão fácil falar. Eu tento, eu juro, mas o momento não me parece muito favorável para pensamentos positivos, ainda mais analisando todo o contexto dos últimos meses da minha vida. Tem coisas que não sei quando vou resolver. Deixo pra depois. Choro. Decido resolver. Ensaio uma conversa. Desisto.

A minha mente tem sido difícil.

Tudo parece ainda pior com o isolamento. Já o conheço muito bem. O vivi quando abraços ainda eram permitidos e, mesmo assim, eu não os dava. Já passei noites pensando sobre ele, sofrendo, chorando, mas me escondia atrás de uma máscara quando na presença de outras pessoas. Hoje usamos uma de pano. Só mais uma entre tantas outras do cotidiano. Às vezes ela te deixa sem ar, atrapalha a visão, mas precisamos usar como forma de proteção. Se proteger, proteger o outro ou só como forma de procrastinar o sofrimento. Tiro a minha máscara em casa, no meu quarto, de noite. Só eu, minha mente e meu bloco de notas do celular. Nele revivo quando tudo começou a dar errado, quando a distância se fez presente contra a minha vontade, sem se importar com o que eu iria sentir. Nesse bloco, tenho memórias descritas, palavras que nunca serão ditas, confissões que nunca serão feitas e a senha da Netflix. Há noites em que quase caio na tentação de liberar o que me sufoca, mas, como sempre, desisto. E tudo se repete.

Horas em claro. Durmo. Pesadelo. Acordo. 
Em claro. Durmo. Pesadelo. Acordo. 
Em claro. Durmo. Despertador. Acordo em um pesadelo.
Café com leite. 2 mols. Matriz de A. 1. Tô aqui. Tudo tranquilo. Tchau.

A vida tem sido difícil.

8.9.20

Dia 175: por Alexandra Nogueira Kleinubing

É difícil explicar o que se passa em um dia entre tantos outros que me parecem tão iguais entre si. Quanto mais o tempo passa parece que estou um passo mais próxima de colapsar. Parece que as aulas voltarão, e eu tenho medo. O problema é que eu sempre tive medo de acabar num isolamento muito maior do que o proporcionado pela quarentena, e ainda por cima cercada de pessoas. Acho que muita gente meio que já se acostumou com a rotina construída nesse momento, o problema é que ela é mais confortável de certa forma, mas é muito mais estressante e perigosa. Sem contar o quanto a população está abalada com todas as vidas perdidas, a situação do sistema de saúde, da economia e da política do país e a saudade de seus amigos e familiares. É muito complicado tudo isso e envolve muitas variáveis, e, mais complexo ainda, são os nossos interiores. Tudo isso para introduzir hoje. Eu tinha feito todo um planejamento de tarefas que iam consumir todo o meu dia, que é basicamente como eu estou suportando esse período: estudando. Acontece que nada sai como o planejado. Depois de assistir às aulas online eu começo as tarefas e sou constantemente interrompida pela minha família. Minha avó está ficando na minha casa, porque minha mãe recentemente passou por uma cirurgia (sim, no meio da pandemia) e ainda está se recuperando. Minhas ansiedades estão cada vez maiores e me concentrar tem ficado cada vez mais difícil. Eu sinto muita falta dos meus amigos, familiares e principalmente do meu pai e meus pets (que estão com ele). O distanciamento é mais que necessário e eu compreendo isso muito bem, tenho alguém de risco em casa que é a pessoa que mais amo no mundo todo, então não posso correr riscos, e acho que todo mundo deveria se ajudar nesse sentido. Mesmo me sentindo 24 horas do meu dia perseguida pelo pensamento assombroso do vestibular e testes que se aproximam, eu tento manter a calma e consigo alguns momentos de distração quando jogo cartas com a minha mãe, jogos online com meus amigos ou leio livros do romantismo (que descobri serem muito agradáveis e interessantes). As coisas estão ficando cada vez mais estranhas, mas sinceramente acho que a causa vai muito além da quarentena, e o futuro me parece bastante turvo. Espero que fique tudo bem, é só o que consigo pensar. 

Saudades… parece que cada segundo que passo longe de todos que eu amo, é um tempo precioso perdido, e isso dói, bastante. Acho que o que mais aprendi é que eu preciso e sinto muita falta de contato e convivência, mais do que eu jamais poderia imaginar. 

Não podia faltar uma foto da coisa mais fofa da minha vida. Pleníssimo (ou nem tanto) em seu isolamento social que já era uma realidade para ele muito antes disso tudo. Mimoso é um gato dos mais estressados com a vida, sempre reclamando, mas com muito amor e carinho para dar.

6.9.20

Dia 173: por Rafael Girardi Bertoti

Acordo à 1 da tarde, em um domingo frio, finalmente despreocupado por já ter feito (quase) todas as atividades pendentes, mas também preocupado por pensar na possibilidade de que o resto do meu ano vai ser assim, ou por saber que meus pais já estão trabalhando no meio da pandemia (sempre me irrito com eles quando lembro disso). Sem vontade de sair do quentinho da cama, percebo que o dia já parece uma cópia do outro, e de todos, ou quase todos. Assim me lembro do que faz os meus dias valerem mais a pena nesse isolamento; os filmes. O meu vício por essa arte volta repentinamente, e me faz levantar logo.

Tomo café (sim, a 1 da tarde); meus pais estão há horas acordados, sem pressa nenhuma de fazer o almoço, queriam descansar; a gente sempre almoça às 16:00 mesmo. Coincidentemente estavam vendo um filme, mas não da vibe em que eu estava, era um blockbuster de ação; eu queria ver uns clássicos. Fico uns minutos com eles no sofá, pra aproveitar meus pais pelo menos um pouco, e já subo. 

Tinha assinado o Telecine Play há umas semanas; vi e ouvi em simplesmente todos os lugares como era um bom serviço de streaming, e afinal era exatamente o que eu tava precisando; todas aquelas notícias horríveis que desmotivam todo mundo, além das dezenas de atividades que eu tinha que fazer, tavam me desgastando, fazendo eu ainda mais recorrer aos meus filmes. Inclusive, os filmes tinham uma desvantagem; eles acabavam com a minha organização das atividades e aulas online; durante toda a quarentena, não consegui conciliar as duas coisas, exceto nesse domingo.

Ao final do dia, os filmes me salvaram mais uma vez. Assisti quatro, só com uma pausa pro almoço; descobri que 2001: uma Odisséia no Espaço é simplesmente genial; assisti Parasita e Bastardos Inglórios de novo; me apaixonei ainda mais (e me tornei ainda mais fã do Tarantino). Mais uma vez consegui me renovar com a ficção, pra bater de frente com essa realidade. Deito feliz, sem conseguir tirar o que vi da cabeça. Diferente do começo do dia, penso otimista; como sou sortudo de poder estar feliz e seguro em casa, e de como posso contar com meus pais, ou com esse refúgio que são os filmes, diferente de algumas pessoas que infelizmente não podem. Termino o dia muito bem, pensando que eu talvez não enlouqueça até o final da quarentena, e que estou na melhor posição que alguém poderia estar em uma pandemia.

5.9.20

Dia 172: por Daniel Feix

Os sabiás cantam à meia-noite no Centro Histórico de Porto Alegre. O caminhão-pipa que lava o Viaduto da Borges faz tremer as venezianas de madeira das janelas do meu prédio quando aciona o jato de suas mangueiras, pouco antes da 1h. É pandemia, o vírus está entre nós e a contaminação é fácil, mas não há receio de aglomeração para os seis ou sete guris e gurias cantores que cruzam a Rua Duque às 2h35min.

Já estou na cama e, sem espiar lá fora, nunca sei se a sirene que ecoa alto aproveitando a acústica do viaduto, às 4h da manhã, é dos Bombeiros ou ambulância.

Antigamente, vizinhos ficavam incomodados com o que as reportagens do Jornal do Almoço anunciavam ser uma cracolândia na Marechal Floriano, entre a Duque e a Salgado – havia gritos diários, mas na hora em que os residentes já estavam todos recolhidos, período em que os motores de ônibus e motoboys dão trégua para podermos ouvir dos sabiás às sirenes.

Há menos tempo, o motivo da reclamação eram as famílias alojadas sob lonas nas calçadas da Borges. Nada que os caminhões-pipa não tenham resolvido, após reclamações junto aos órgãos assim chamados competentes.

Os ônibus começam a se fazer notar apenas às 6h, e não mais às 5h. Há menos deles, pelo que consigo calcular enquanto o despertador não toca. Certo que é a pandemia.

Já sei que são 8h quando chega o caminhão que traz lenha para alimentar as caldeiras do prédio ao lado do Everest. Sempre achei que fosse para o hotel, mas ele está fechado desde o fim de março. E o caminhão segue nos visitando, nem sempre pontual, mas respeitando o horário comercial. Respeitar o horário comercial é regra que moradores fazem ser lei no Centro Histórico de Porto Alegre.

Tenho dormido menos. Compenso o cansaço lembrando por que deixei de frequentar as reuniões de condomínio.

1.9.20

Dia 168: por Edmundo Arregui Dantas

Com a idade e a aposentadoria, a quarentena perde o seu peso. A rotina não muda muito.

Não há mais as obrigações do emprego, então a gente pode escolher o que quer fazer. Podemos ter um ócio criativo. Como não sou de baladas e outros eventos públicos, ficar em casa não é um peso muito grande. Em vez me sentir preso me sinto protegido .O treino no zen também ajuda muito. A morte não assusta. Tudo fica mais tranquilo. A gente tenta evita-la é óbvio, mas não perde a cabeça.

Porque as pessoas sabem que lá fora a morte está de tocaia.

A gente abre a porta da rua e a partir daí tudo o que a gente toca pode conter a morte.

A maçaneta do portão, os produtos do super, mesmo a calçada, podem conter a morte.

Os parentes e amigos podem conter a morte.

Estamos ameaçados de morte. A qualquer momento podemos pegar o Covid e eventualmente morrer. Mas quando não estivemos? Desde que a espécie humana existe, a possibilidade de morrer antes da velhice existe. Ora mais, ora menos, mas sempre presente. A vida dura um pouco mais, um pouco menos, mas sempre termina em morte. Temos de aceitar isto, aceitar a impermanencia e viver uma vida plena.

Alguns monges tibetanos pintam usando um pincel molhado apenas com água.
-Mas vai desaparecer!
-O que você escrever no papel também, só demora um pouco mais.

Uma pessoa estava sendo perseguida por um tigre. Ela correu até chegar à beira de um precipício. Sem saída, pendurou-se numa vinha que estava na beira e ali ficou.
Ao olhar para baixo viu que outro tigre a esperava atento. Segurou firme no galho que era sua única salvação. Aí notou que dois ratinhos, um preto e um branco roíam o galho.
De repente, viu bem perto um pé de morangos com um moranguinho bem maduro.
Com a mão livre o pegou e comeu.
Humm que delícia!

Como o treino zen ajuda na pandemia:

A sombra dos bambus
Varre os degraus da entrada
Sem perturbar a poeira.
A lua penetra o fundo do lago
Sem deixar qualquer marca na água.

31.8.20

Dia 167: por Rodrigo Bittencourt

Os sebos estão abertos, e esse meu novo hábito vem em boa hora. Serviço essencial mesmo.  

Eram quase dez horas, mas ainda não dez em ponto, e por isso eu decidi ir no super matar o tempo, comprar umas coisas que tinham faltado. No caminho descobri uma feira, mas não comprei nada, mal passei perto das bancas. Achei que era exposição demais pedir uma granola num lugar que não conheço. 

Cheguei no super, peguei um quilo de granola, papel-toalha, manjericão e um chocolate 70%. Antes de pagar, liguei pro sebo. Estava aberto. Fiz um caminho mais longo na volta a fim de passar de novo por lá. Fui entrando quando cheguei, mas a atendente, uma loira com olhos bem claros – cabelo e olho é tudo o que se vê hoje em dia –, veio meio agressiva dizendo que só podia entrar um cliente por vez. Tinha só um cara lá. No dia anterior, eram três ou quatro ali dentro. Saí meio ofendido segurando aquelas sacolas do super e esperei com uma velhinha olhando a vitrine. O cliente demorou um pouco a sair. 

A mesma mulher tinha me atendido no dia anterior. Quando entrei hoje, falei como se ela fosse me reconhecer. Disse “Tudo bem? Chegou aquela encomenda?”, mas ela ficou confusa, perguntou se era ela quem tinha me atendido. Falei que sim, dei o nome do livro, e ela disse que tinha chegado. Menos de 8,50 com o desconto. Aproveitei e dei uma olhada nas prateleiras. Demorei um pouco até achar algo interessante, mas por fim peguei a História do olho e levei até o balcão. “Esse tá 89,90”, ela disse, e eu sorri por trás da máscara. Ela repetiu o número pra ela mesma, incrédula. “Vai ser só o outro, então”, eu falei. 

Na volta pra casa passei por uma livraria. Recém abriam a cortina de ferro. Perguntei se tinham a História do olho porque queria comparar o preço, e o atendente disse que estava 49,90, mas só por encomenda. Me perguntei se não teriam registrado errado o preço da outra loja.  

Passando o balcão e outra atendente, a loja tinha um sebo grande, mas tudo caro, mal conservado. Fiquei um tempo olhando as lombadas e os preços enquanto os donos atendiam pedidos de livros no computador. 

“O cara quer outro do Dawkins falando que Deus não existe”, o atendente disse pra colega. 

“É que no Deus, um delírio ele só refuta a religião.” 

“Mas fala de Deus também, tá bem explícito no título.” 

“Sim, mas tu já leu? Ele fala que religião é o mal. Eu concordo.” 

“Escuta”, ele pareceu tentar controlar alguma irritação, “religião é um negócio ambíguo. Não dá pra descartar assim.” 

“Mas e o fanatismo, a hipocrisia?” 

A essa altura eu tinha tirado e devolvido vários livros da prateleira e vinha ficando nervoso porque eram todos caros e eu já estava ali há um tempo. Ia ter que comprar alguma coisa. Encontrei um Triângulo das águas por vinte reais, dei uma folheada e levei até o balcão. A conversa continuava. 

“Olha, tu vai me desculpar, mas esse é um assunto no qual tu é ignorante.” Ele pegou o livro que entreguei, olhou a última página. “Vinte reais. Tu não sabe nada sobre perdão. É uma coisa matemática. Tu pega um cara que matou alguém, introduz religião, e o cara se arrepende pra vida inteira. Cadê a hipocrisia?”

A mulher não respondeu. Dei uma nota de cinquenta ao atendente, e ele perguntou se eu não tinha trocado ou cartão de débito. Passei no cartão. Voltei pra casa com os dois livros e as sacolas do super. Uma hora dessas tenho que ver se as igrejas seguem fechadas.

25.8.20

Dia 161: por Bruno Polidoro

máquina de lavar 

Um som me acompanha há 173 dias: o ruído das máquinas de lavar roupa. Nas primeiras semanas era incessante: em qualquer janela do apartamento o tremer das roupas reverberava. Minhas janelas dão para outras janelas, não vejo o céu. A repetição da paisagem fez meus olhos se entediarem: começaram a despertar os sons.

Alguém assobia. Um cigarro é aceso (adoro o som de fricção do isqueiro!). Ouço panelas que batem na pia, fragmentos de conversas, mensagens de voz, alguma tevê. Não há relógios que tocam. Não ouço os despertadores. O novo tic-tac quem faz são as máquinas de lavar. 

De repente, é madrugada. Leio bell hooks, o vizinho do 403 abre uma lata de cerveja. O sino que vem lá da Redenção toca, me detenho na melancolia de uma sombra projetada – e escuto um resquício de máquina.

Tento ouvir alguma música oriental. A quarentena faz com que os fones de ouvido sejam uma própria extensão de mim. Sento na mesa e coloco os fones – muitas vezes sem som algum saindo do computador. Cria-se o hábito. Acordo, café, abrir o computador, fone de ouvido. Máquina de lavar.

Tornou-se um desespero agradável. O ruído da máquina como um mantra: traz calma. Lava o tempo. Marca o passar das horas. Mistura-se com a chuva. Os dias se enxaguam e se repetem. 

Enfim, domingo e tem sol. As janelas são abertas: e a máquina já está a trabalhar.

23.8.20

Dia 158: por Gabriela Mattia

22.08.2020

Sábado; sol; frio. Incenso.

Escrever o que se sente vem da premissa que sabemos o que sentimos. Nesses dias entendo como comum não expormos o que se passa dentro de nós. Pelo menos vejo que o momento de pensar antes de expor é um ato complexo. 

A análise, o deixar-se sentir. Tanto que, quando me aprofundo nisso, noto o quanto, na verdade, o que sentimos em nenhum espaço de tempo determina o que nos acontecerá. Somos tão fluídos quanto nossos anseios e o que o mundo nos traz de vivência. Para lembrar-nos vivendo, há de reconhecer os diferentes magnetismos que nos mantêm aqui. 

Pode ser um tanto óbvio, mas livros, filmes conversas e músicas foram o que permitiram sentir e escrever o hoje. E um ontem.

21.8.20

Dia 157: por Bebê Baumgarten

Amanheceu um dia frio e ensolarado. Há episódios de neve na Serra estampando os jornais. As pessoas lá, paradas no frio, olhando minúsculos flocos de neve. O repórter mostra empolgado a ‘aglomeração’ de meia dúzia de gatos pingados na friagem da noite de agosto. Há pouco era quase primavera no sul do Brasil. Definitivamente, 2020 é um ano para os fortes e nada é o que parece. Olho pelas janelas. Espio lá fora os ônibus, o movimento dos passantes que na minha rua sempre foi intenso, a despeito da pandemia que assola o país e o mundo. Tudo segue sua ordem na Medianeira. Olho as outras janelas, as de dentro. Meu quintal floresce e os primeiros raios de sol já alcançam as lajes do fundo. Em breve o sol virá até o meio do pátio e, de mansinho virá mais e mais até inundar a soleira da porta no verão.

Os ângulos se impõem. Pensar que se tem a vida pela frente ou uma vida inteira atrás é como pensar que se viveu mais um dia ou perceber que se tem menos um dia de vida pra aproveitar. Tudo se resume ao olhar, ao prisma. No dia 157, reflito sobre minhas urgências enquanto observo os botões de magnólia florescendo no meu quintal. Ali, embaixo daquela árvore, eu brincava na infância enquanto minha mãe tratava das coisas da casa. Era uma planta pequena, um arbusto. Hoje tem muitos caules e ramificações. Também eu era uma planta pequena e sou assim hoje, cheia de caules, raízes e flores. Quisera poder exibir minhas flores na rua, tal qual a magnólia e seus botões cor de rosa, cabeça erguida, vestido estampado e casacão, um par de botas e o andar seguro e elegante. A paisagem passando em volta como um filme em câmera lenta. Na trilha sonora “Dos gardenias”, na versão do Buena Vista Social Club. A cabeça balançando levemente ao som da música e um sorriso muito discreto, quase imperceptível, aos olhos dos outros humanos que cruzam por mim. Me encolho com a gata Mathilde no sofá, ambas enroladas no cobertor vermelho com a estufa aos nossos pés.

20.8.20

Dia 156: por Edgar Aristimunho

Dentro do supermercado, peço ajuda a quatro pessoas para encontrar o que buscava. Entrar numa loja que você não conhece normalmente dá nisso: ondas sucessivas de erros, caminhos cruzados, corredores  ocasionalmente pegando fogo, duas, três, quatro vezes de volta no mesmo lugar, como se eu estivesse dentro de um filme de Andrei Tarkovski, a cena caminhando dentro do quadro, um desenvolvimento interno lento, o plano avançando pelo tempo e não pela montagem, mas peraí, cadê a goiabada do Vô? Giro, rodo o carrinho, dou meia-volta, entro neste e naquele corredor, saio no mesmo caminho, a montagem não respeitando cortes, o filme vai se transformando em espelho, sobreposição de imagens, o registro daquele lugar se confunde com sua memória, unidade temporal episódica, cinema-poesia, Tarkovski era um gênio, mas espera aí um pouquinho o que estou fazendo com o tubo de mostarda na mão, o Vô não come essas pastas artificiais, a memória de nosso último almoço, ele me falando do azeite 0,2 % de acidez, recuamos no tempo, estamos em outros lugares, outra ceia, agora é Natal ele elogia o peru, a cereja, as frutas e essa imagem-pensamento me joga dentro do filme mais memorialístico do diretor russo. Os movimentos lentos de “O espelho”, o cromático, a frieza da memória, a cena como contemplação e então, resoluto, empurro o carrinho em direção à caixa registradora, como se diante de mim a atriz Margarita Terekhova levitasse na cena imortal criada, marca registrada daquela obra única no cinema. E enquanto relembro esse filme que assisti no final da noite passada, lembro que não encontrei a pomada de brilho para alumínio chamada alguma coisa prata, mas se é para limpar alumínio, como pode ter nome de prata? Alguém atrás de mim pergunta: vai passar ou ficar aqui? Empurro o carrinho nesse processo onírico de puta que pariu de supermercado.

19.8.20

Dia 155: por Tobias Carvalho

Logo antes do isolamento, comprei uma xícara de um tamanho maior que o normal para tomar chá. Nos últimos tempos, o chá tem sido um escape. Gosto do ritual de tomar café, sobretudo no inverno, mas a cafeína me tira o sono e me deixa ansioso. Há pouco tempo, comprei uma chaleira elétrica, que é prática e me chama a um certo tipo de ritual análogo. Fazer chá todos os dias ajuda a me ancorar ao presente. Fico preso a algo material para que a mente não se disperse. Tenho tentado me lembrar das tarefas diárias, e as doses de chá servem como pequenas recompensas. Talvez assim o presente fique para trás.

18.8.20

Dia 154: por Merli Leal Silva

Vivendo de lembranças. Revendo as caixas de fotos dos últimos 30 anos. Sobrevivendo de coisas acumuladas na minha mente e no meu coração. Estou em slow motion, dia bom, dia ruim, dia ruim. O governo não cai, não tem nem ministro da saúde e o abandono é notório e vergonhoso. Desde 15 de março de 2020 que meus pés não saem do portão de casa. Tudo chega pela rede digital! Consulta médica, terapia, comida, roupa, livro, legumes e verduras orgânicos, papel de fazer cigarro, caneta, remédio... Tudo. Somos três, eu, minha mulher e nosso filho. Uma família homoafetiva que partilha a vida de forma intensa e verdadeira. Uma ilha de sinceridade e afeto. Nosso filho está terminando uma tese em ciência política, e, muitas vezes ao dia, fazemos debate de um capitulo. Afinal, o neoliberalismo e a financeirização no Brasil matam todas as nossas esperanças. Ricos cada vez mais ricos. Pobres cada vez mais pobres e sem esperança. A pandemia nos fez escrever mais, dormir mais, fazer taichi, yoga e pão. Na janela, ao sol, o mundo passa pela nossa cabeça. Olhamos quem está de mascara e quem não tá nem ai. Estamos exaustos pelo isolamento e pela falta de perspectiva da pandemia acabar. Sinto um aperto no peito e uma vontade louca de ter a minha vida de volta. Estamos ocupados por tarefas remotas que imitam “estar trabalhando”. Chega a cansar! Contudo, sem as tarefas, já teríamos saído pelas ruas de Petrópolis que nem negacionistas malucos! Quem explica tanta negação e falta de medo da morte? Sempre fui anti social, seletiva nas amizades, mas ficar longe dos amigos, familiares legais, dos alunos e da universidade tá sendo mais do que estou podendo suportar. Dos minions nenhuma falta. Nem raiva mais eu sinto. As crises de ansiedade se tornam crises de pânico assustadoras: o corpo dói cada dia num lugar diferente. Encho-me de florais, óleos essenciais, zoloft e donaren. Na crise intensa, lasco um rivotril. Não bebo. Já é um alivio. Canabis todo dia, na dose certa para não dar nóia. Nunca mais transei. Tem desejo, mas não tem clima. O dia de hoje é igual ao de ontem que vai ser igual ao de amanha. Nenhum veneno antimonotonia. Show do Nei Lisboa, ao vivo e em casa, toda a quinta, é outro alento. A música do Nei tem sido a trilha da minha vida desde 1985. Durante uma hora de programa canto, danço e dou risada com “todas as bobagens que eu já disse- que dariam para encher um caminhão”. A pandemia me deu coragem para projetos engavetados: escrevendo a biografia do Nei - criador e criatura, uma pesquisa acadêmica em parceria com uma historiadora paulista. Talvez seja o produto inovador da pandemia: biografar pessoas amadas. Queria botar o pé na terra, na jaca, na rua. Mas tenho medo. Tem um vírus mortal e não tem vacina. Como tem gente que acha que tá tudo bem? O sol se pondo na janela ganhou status de espetáculo! Durante o dia cada um de nós em seu computador - mas quando o dia termina - o reencontro é na janela para ver o sol se pôr. Hoje é aniversário do pai, nunca esqueço. Ele se foi em 2006 e não tem um dia que eu não sinta falta dele. Sonhos na pandemia são mais intensos e ele tá sempre nos meus. Dr. Ronaldo Moreira Brum, psiquiatra, estaria recebendo homenagens dos filhos e netos e curtindo a vida. Enquanto eu aqui pirando, ele estaria calmo e tranquilo terminando mais um livro, atendendo os pacientes on line e bebendo um bom vinho. Meu pai era tudo de melhor e corajoso na vida. Acolhia-me, acalmava, reluzia! Tudo que eu queria era poder te abraçar e te dizer que tu segues vivo nas minhas lembranças- em um momento em que lembrar é tudo que me resta.

17.8.20

Dia 153: por Mauro Duarte

Bal Masqué

A exemplo do antigo anúncio de sutiã, a primeira máscara ninguém esquece. Foi num supermercado - ao menos, economizei R$ 5, ou sei lá quanto custa, pois veio de graça. Primeiro, questionaram se eu não tinha alguma no carro, quando descobriram que nem carro possuo. Saí por outra porta, com receio de que quisessem pegá-la de volta.

Me senti num baile carnavalesco; e olhem que detesto carnaval! Até porque devo tê-la colocado torta, o ar começou a escapar por cima e embaçou os óculos, graças ao que não enxergava as etiquetas e, por pouco, não saberia sequer pra que lado ficava o supermercado. Comecei a suar muito ao redor da boca, o que me acontece normalmente nos semiveranicos, só que com o agravante do artefato. Pra completar, o disfarce acentuou uma rinite alérgica obstrutiva e, mesmo sem vírus, senti falta de ar. Ainda bem que não espirrei, ou correria gente pra todo lado...

De qualquer forma, me esforcei pra chegar em casa daquele jeito e me acostumar duma vez com os novos tempos, porém me livrei dela mal cruzei o portão. Percebi, no caminho, que essa estética mascarada é apavorante porque deixa todo o mundo com cara de dentista... Parece que vão te aplicar tratamento de canal a qualquer momento; no caso, o endodontista, ou periodontista, ou ortodontista, ou cirurgião maxilo-buco-facial? Sei lá. Quando eu quase não precisava deles, acho que só havia um profissional, que fazia tudo. Hoje, nem sabemos qual escolher. Máscara, nos gibis e desenhos animados, era adereço de bandido - só lembro um mocinho que a usava parecida com a atual, o Durango Kid, em seriado tardio que passava na TV preto-e-branco, plena de chuviscos. Por símbolo de hipocrisia não passa mais; quem as ostenta está sendo descaradamente sincero.

Gentileza do supermercado. Gentileza? Pragmatismo. Sabem que, se me barrassem na porta, eu nunca mais voltaria, como naquela rede estrangeira que está abandonando o Brasil. Fui xingado só porque descobri onde escondiam o jornal de domingo, enquanto tentavam vender o de sábado. Pode? Na cabeça da funcionária burocrata que alegava a necessidade de carimbá-los, o tio aqui estava furtando, ou conspurcando uma sacratíssima rotina da atividade-meio, que de repente fica mais importante que a atividade-fim - se não me engano, a de vender. Ou carimbar é a atitude precípua? Normalmente, outra moça, bem mais simpática, me "salvava" e permitia levar o artigo, mas, na última vez, a ríspida passou da conta.

Venho da periferia; a gente suspeita de presentes, sempre achando que estão envenenados, contaminados, enfeitiçados ou condenados à devolução, mal se começa a usar. Ando com ela até hoje, mesmo sob advertência de que pode ser descartável. Lavei diversas vezes e, quando os enfeites de orelha que a seguram ameaçaram ficar flácidos e soltá-la, apliquei duas voltas, como naquelas borrachinhas de dinheiro - quero ver que elástico seguraria um bitcoin... Por sinal, no Brazilian English, dialeto 'pidgin' cada vez mais usual, a gente fala "beachcoin", moeda da praia - ou, pior, "bitchcoin", moeda da p... (expressão politicamente incorreta que não utilizarei aqui, pra não afrontar o neopuritanismo de direita ou de esquerda - ou, breve, alguma igreja pentecostal e algum partido marxista estarão me xingando juntos). Bem o Golbery do Couto e Silva afirmava que, em política, os extremos se aproximam como na ferradura...

O microrganismo chinês, imitando tantas bobagens na rede, tais como a 'influenza' digital, viralizou mesmo... Legítima Gripe Espanhola II / O Retorno, trocou a Belle-Époque pelo Pós-Modernismo, capaz de ressuscitar até o liberalismo econômico daqueles tempos; ou algum caçador de cacófatos a implicar com os meus sucessivos "ismos", inevitáveis no sismo, no abismo e no terrorismo que enfrentamos. Finjam que é rima poética... Quanto ao 'laissez-faire' econômico, sepultado indignamente na década de 30 como coisa antiga, ressurge magnífico na de 80, como troço moderninho e inédito. Meus quatro avós, que não estão mais aqui pra confirmar, devem ter enfrentado aquela infecção ibérica quando crianças, mesmo que habitassem um fim de mundo rural e pouco soubessem do mundo lá fora - inclusive quando, alguns anos depois, se escondiam de ximangos ou maragatos, pragas endêmicas.

Ademais, na incipiente e insipiente medicina da época, ou na arrogância 'high-tech' da nossa, a situação é idêntica: estamos reféns dum bichinho, ou duma porcariazinha que nem sei onde se enquadra e nos dribla o tempo todo, como em 1918. Não sabemos sequer enfrentar o vírus da gripe comum, que nos supreende todos os anos sob nova forma, e os otimistas de plantão já falavam em viver 150 primaveras... Aplicativos que nos colocariam em contato direto com o "nosso" médico, como se todo o mundo tivesse o "seu" médico! Pois o tal médico (cubano, inglês ou selenita), até o momento, pelo que conheço, não sabe lidar com o vírus coroado - e olhe que já são 22h55min. Em plena revolução genética, levamos uma surra dum DNA com casca, mesmo perfeitamente sequenciado.

Já repararam como o vírus é bonito? Ao menos no site noticioso em que o acompanhava no início, parecia um arranjo floral para o casamento da Rainha da Inglaterra. Depois, parei de curingar as novas porque o assunto vinha sempre igual - fiquei sabendo da briga Moro/Bolsonaro, aliás, pela vizinhança. No meu tempo, seria um bicho feio, mas, com a ideologia de gênero, os comunistas nos oferecem um Covid 19 enfeitado e traiçoeiro! Ou foi ideia do Pentágono pra destruir a economia chinesa? O bom das teorias conspiratórias é que todas funcionam; basta escolher a sua. Na ficção, diga-se de passagem, os alienígenas inescrupulosos e invencíveis de 'A Guerra dos Mundos' são implacavelmente aniquilados pelos nossos microrganismos. Ainda bem que não somos extraterrestres. Ou somos?

16.8.20

Dia 152: por Rodrigo Alfonso Figueira

Hein, tu viu o meu e-mail?

Não, ainda não vi. Está metido em uma pilha de outros e-mails que eu ainda não consegui responder porque fico entrando em reuniões pelo Teams de meia em meia hora e escrevendo relatórios que ninguém vai ler. Mas isso eu só penso e não respondo. O que eu vou digitar na caixa de texto é não, ainda não vi, mas sei da tua urgência e te responderei em instantes. Resposta de um bom colega. Um bom colaborador, mesmo em tempos de pandemia, metido em um escritório improvisado dentro de casa.

Olho para a rua. Cai uma chuva fina. As nuvens já estiveram mais escuras hoje, especialmente pela manhã. Agora uma leve claridade entra pela janela, brigando com o tempo ruim. Um céu chumbado de agosto.

Pai, deixa eu te mostrar uma coisa.

Paro o relatório que estou escrevendo e que preciso entregar até às dezessete de hoje. Sinto uma pressão no peito. Leve, mas uma pressão. Minha filha mais velha me estende um livro e começa a descrever detalhe por detalhe de uma história. Passo a mão no rosto dela. Queria poder sentar no chão e ler a história com ela do começo ao fim. Mas o relatório, o e-mail do colega esperando resposta...

Boa tarde! Tens uns minutos? Preciso da tua ajuda urgente. 

Não precisa da minha ajuda, na verdade quer é me passar o trabalho que não pretende fazer. E com urgência. Também não escrevo isso. Apenas respondo na caixa de texto claro, diga. A pressão no peito de novo, um pouco maior. Minha ansiedade não me permite fazer outra coisa. Paro tudo e fico acompanhando o status da caixa de mensagem: digitando. Olho para o lado e a minha filha continua com o livro na mão. O relatório.

Pai, escuta.

O meu celular toca. Não atendo. Silencio a chamada e olho para a rua de novo. Não chove mais. A claridade cresceu e uma leve sombra se forma em torno do corpo da minha filha, ainda sentada no chão. As nuvens de chuva agora negociam com um sol preguiçoso de final de tarde. Agosto.

Então, consegue me ajudar? É urgente.

Já entendi que é urgente. Tudo nesse lugar é urgente. No corporativo as pessoas têm uma estranha maneira de pedir ajuda. As mensagens seguem piscando, me cobrando uma resposta que eu nem sei se tenho. O telefone voltou a tocar. Penso na minha mãe, mas não é ela. Um alerta pula na tela do computador sinalizando a próxima reunião pelo Teams. Silencio a chamada de novo enquanto ouço a minha filha contando um trecho da história para mim. 

E o relatório me esperando. O cursor parado no mesmo lugar, sendo cutucado pela janela de alerta da reunião. Quase dezessete e ainda me falta escrever uma página e pico. Já antevejo a próxima cena: um novo e-mail entrando na minha caixa perguntando se o relatório está pronto. O peito de novo. 

Pai.

Levo às mãos ao rosto e o esfrego com força. Fico preso por segundos numa bolha escura, fugindo de tudo que envolve este exílio social a que fomos submetidos. Social, não: humano.

Olho para a rua. Lá longe, onde o horizonte sinaliza que estou mirando para o Sul, vejo um clarão. Um traço alaranjado pateia as nuvens de chuva, ganhando terreno. Uma fina linha de incêndio colorindo um pedaço pequeno de céu, banhando o chão deste escritório enjambrado e o corpo da minha filha. 

Respiro fundo. Amanhã terá sol.

14.8.20

Dia 150: por Rafael Bassi

Bárbara e eu temos aproveitado para fazer coisas que antes não podíamos, como, por exemplo, tomar café e almoçarmos juntos, na mesa que fica na sala, de frente para a rua. Como estou dando aulas pelo computador, não tenho mais deslocamentos. 

A quarentena – interminável nesse país de dissabores – já nos causou todos os tipos de sentimentos possíveis. Hoje olhamos pela janela e sorrimos ao ver a árvore. 

Cada qual se agarra às revoluções que pode. Eu há tempos tenho dito que luto pela sobrevivência destas duas árvores na frente de casa. Pelo bairro, só o que se vê é que as árvores foram sumindo. Já anunciei: se preciso for, me acorrento às árvores e chamo a RBS, Zero Hora, o que for preciso. Tenho um amigo, que tem um amigo que trabalha na edição do Globo Repórter. Sempre há a quem recorrer.

Hoje acordei sonolento, tomei meu banho, e fui dar aulas. É aniversário da minha mãe, e quando foi 23:55 de ontem, minha sobrinha que mora com ela nos ligou via Zoom e fizemos, meia-noite, uma festa surpresa, cantando parabéns e fazendo-a chorar. Por isso, hoje acordei neste estado. 

Trabalhei a manhã toda. Isso tem me deixado mais tranquilo, porque o excesso das atividades tem feito o tempo correr mais rápido. Tive que me adaptar com as tecnologias todas para o processo de ensino à distância, mas acho que tenho me saído bem. O que me irrita um pouco é que a) o governo fica anunciando o tempo todo que está planejando voltarmos às aulas, mesmo com o Rio Grande do Sul passando seu pior momento e o Brasil, então, nem se fala; b) algumas instituições estão redobrando a rigidez e querendo mil coisas por semana. O ensino privado foi a única coisa que conseguiu se adaptar ligeiramente bem neste contexto e, por favor, nosso objetivo não é criarmos uma educação nova, mas todos deveríamos tentar ao máximo sobreviver a 2020. Meu sonho é simplesmente chegar ao ano que vem.

Durante a tarde, aulas com o Assis Brasil, que servem sempre de reconforto. Ouvi-lo é sinal de que ainda existe humanidade; em algum lugar encontraremos sempre um Assis Brasil, a quem teremos prazer de ouvir. 

Por outro lado, vi a notícia que o sujeito que ocupa o executivo nacional está com a melhor aprovação popular desde o início do seu mandato. O Brasil, definitivamente, não é para amadores. Seria interessante que o Brasil se desprendesse do mundo e caísse, logo, em um buraco temporal. Seríamos lembrados como são os dinossauros, com certo exotismo e, quem sabe, com sorte, viraríamos um divertido filme de Hollywood. (Como bem disse Saramago, deveríamos todos pelo menos uma hora por dia ficarmos tristes porque o mundo é ruim para com a maioria. Nesse momento, eu fiquei triste, porque é uma questão de solidariedade).

Leonel, o cachorro, está bem tranquilo. Passou por uns perrengues no início, porque queria sair, mas se adaptou bem e, quando quer, traz seu brinquedo para que joguemos no corredor, ou seu pote vazio, porque a fome nele parece uma constante. Melancólico, fica na janela durante vários minutos durante o dia. Mas é, como alguns de nós, um privilegiado por ficar em casa enquanto a maior parte do Brasil simplesmente parece ignorar a pandemia. 

O que resume isso é, como sempre, nestes mundos atuais, um meme (que não lembro de onde tirei): O governo brasileiro, para evitar uma segunda onda, adotou a estratégia de nem sair da primeira. 

As árvores, ali do início, ano passado nos deram um susto: era inverno, todas as suas folhas caíram e nós achamos a imagem bonita; de repente, não sabemos quanto tempo se passou, talvez um dia, talvez um mês, olhamos para ela e estava repleta de folhas, verdinhas... Neste 2020, elas não puderam fazer nada contra nossa sagacidade. À la Paul Auster, decidimos fotografá-las todos os dias e acompanhar a natureza se transformando, lindamente.

Quando chegou a noite, Bárbara e eu jantamos à janela, comemorando os 3 anos das primeiras declarações de amor. Bebemos vinho, comemos fartamente, brindamos. Vimos as fotos das árvores, enquanto observávamos a imagem delas escurecidas pela noite. Sim, eu estou disposto a salvá-las, pois, como bem lembrou o velho russo, “a beleza salvará o mundo”. Se não ele todo, o meu certamente. 


13.8.20

Dia 149: por Camilo Raabe

Não sei se conseguirei dormir hoje.

E esta folha em branco me parece confortante.

Gostaria de me fechar neste mundo, este universo que me traz a paz do momento.

Medo... Me disseram que o medo é uma ilusão, algo imaginário. O pavor é real. Estou com medo ou apavorado? Bem, se há dúvidas, estou com medo. O pavor não deixa espaço para hesitar. Não deixa espaço para respirar. Com pavor não se pensa. E eu penso... por isso escrevo.

Pode ser arrogância... um pouco de prepotência, mas penso que o filósofo estava errado. E o pior é que visitei sua tumba, me arrepiei até a espinha, senti algo de grandioso quando, sem querer, me deparei em frente àquela escultura de ermitão sobre o que restou de sua grandeza. Bem, talvez não seja sua grandeza que tenha restado, apenas carne e osso. Escrevo, logo existo. Escrevo, para me encontrar comigo mesmo, enfrentar o meu medo, pensar que ele á apenas uma ilusão. O pavor é diferente.

O filósofo deixou de pensar, e não mais existe. Ele, não existe. Suas ideias correm o mundo, mas ganham vida por meio de outras cabeças pensantes, não a dele. É outra coisa... E se eu parar de escrever? Se não puder mais escrever?

Por enquanto, escrevo... e minha pena (vale o arcaísmo por sua ambiguidade) me conduz ao instante, seu som, sua cor... estou vivo. Agora. Materializo minha existência, estar vivo é estar presente. Meu avô vive na minha memória, em meu pensamento. Ele está presente, é sua obra que fica, por enquanto.

A situação anda calma esta noite. Espero que descansem. Uma das coisas que mais mexem comigo é a vulnerabilidade da vida. Preciso de ar...

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Noite passada foi tensa. As crianças melhoraram, mas minha esposa está com sintomas delicados. Pode ser qualquer virose. Dormimos todos junto, é impossível colocá-la em quarentena. Tenho que trabalhar, não posso ficar mal. Entre a vida e o trabalho, o trabalho também é vida. É comida, contas pagas... Não é fácil ser professor na quarentena. Vou deixar de lado a minha máxima de que o fácil não tem graça, a coisa anda difícil. No mais, ter trabalho hoje em dia é luxo. Merda de sistema! Não, ar, não te vendas, disse o poeta em sua ode. Posso acrescentar, tu não tens preço, minha vida sim.

Vida... Viver é existir. Escrevo, e faço o mundo girar. Se não estiver vivo, o mundo seguirá seu rumo, apesar de mim. Mas se tu não estiveres viva, não saberei o que fazer. Pelo amor de deus, fica bem. Existir ao teu lado é mais gostoso, é mais alegre. O que direi às crianças? O que elas terão que dizer para mim?

Compro alpiste e crio solto os passarinhos. Vejo a vida viva, e me alegro. Não faltará alpiste no mercado. Podem se digladiar por papel higiênico, mas não por alpiste. Se eu morrer amanhã... estes veros não saem de minha cabeça. Os passarinhos não precisam de alpiste. Os seres humanos, sim. Se eu morrer amanhã, o mundo seguirá seu rumo, apesar de mim.

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Está difícil de escrever. Esta cachaça já me virou do avesso. 

Impressionante como a gente fica sóbrio de um momento para o outro. Fico bem a qualquer ruído. Posso limpar um vômito com a maestria de quem nunca bebeu. E bebo... Mando um sinal de fumaça ao divino. Sou eu. Aqui estou, escrevendo... Vivo!

Preciso estender a roupa. Depois eu volto.

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Que eu possa por muito tempo estender as tuas roupas, meu amor. Que eu possa... me deitar ao teu lado e aquecer os teus pés com meu calor. 

12.8.20

Dia 148: por Daniel Ricci Araújo

Dentro de um terno bem cortado, a âncora  televisiva anuncia que o Brasil passou pelo pântano das cem mil mortes por Covid-19. Desligo a televisão, coloco uma bermuda, uma camiseta e saco a chave do carro da mesinha da sala. Na descida das escadas do condomínio, noto que os "boa tarde como vai" da vizinhança brotam de um ponto mais fundo do peito por esses dias, o novo normal em que máscaras de pano são vendidas a granel no Mercado Livre.

Entro no carro e dou a partida. Saio pelo portão e tomo a rua, desvio da placa-advertência obras a 300 metros, subo o viaduto central e entro à direita rumo a Porto Alegre. Perto da Estação Niterói, uma faixa grudada na passarela informa que a revolução popular só será realidade quando forem alcançadas umas determinadas condições. Do outro lado, um pequeno monumento com o nome de Canoas anuncia à frente o Rio Gravataí. Tomo a alça da free-way, e a máscara branca de pano no rosto é a base do pequeno protocolo Daniel de passeio motorizado para sair de casa após cinco dias. Passo à frente da Arena e lembro que as caravanas para chegar ao Olímpico tinham uma cor diferente desse amplo cinza que se anuncia nos braços de polvo da nova ponte do Guaíba. Vinham os grupos de fedelhos metidos a barrabravas pela extensão das ruazinhas estreitas da Azenha, o bairro de pé-direito baixo com suas agências bancárias, lojas de estofados e autopeças. Algum senhorzinho de camisa do Grêmio, da distância de uma sacada, podia dizer como é que vai o fedor destes vossos orifícios e nós então respondíamos tão ou mais cheirosos que o Vosso, meu senhor. Uma vez um amigo comeu tanto em um restaurante da Vicente da Fontoura que não conseguiu completar a grande marcha cívica rumo ao Portão 16 (era o 16? ou o 23?), que se acessava pela Avenida Carlos Barbosa. As coisas que mudaram: já temos idade para notá-las. Em mil novecentos e noventa e sete tudo parecia para sempre. 

Contorno o zigue-zague da entrada da Rodoviária. Na entrada do Túnel da Conceição, a terceira marcha aumenta de leve o giro do motor. Lembro por alguma razão do cinema, já não me recordo como algumas coisas funcionavam antes disso tudo. Imagino o Retrato de uma jovem em chamas na tela grande, a última cena, o grande amor interditado invadindo a sala como uma labareda inflamável. Ontem à noite vi pela terceira vez (terceira?) Um sonho de Liberdade. A esperança, sempre ela. “Andy Dufresne, que nadou por um rio de merda e saiu limpo do outro lado”. Um carroceiro está à minha direita. Parece juntar latas e tudo que tenha algum valor. 

O carro faz a sua volta pessoal e intransferível. Alcança a Padre Cacique, namora a face direita do Beira-Rio. Eu estico a quinta marcha até a frente do Barra Shopping e suas já antigas doze salas de cinema com combo pipoca salgada e de chocolate meio a meio por cinquenta e dois, eu repito, cinquenta e dois reais. Faço a volta. Dedico o devido respeito à lombada eletrônica da mão oposta da avenida e venho embora pela frente do TRT. O Largo da Epatur abriga pessoas caminhando, e me ocorre que aquela casquinha de Cidade Baixa deve ser majoritariamente progressista, atenta às questões da saúde pública e da vida humana em geral. Só vejo gente de máscara. Fantasio cirurgiões plásticos, donos de franquias com ênfase em trabalho colaborativo e malucos de todas as ordens pedindo frascos de cloroquina nas farmácias da Padre Chagas ou da Nilo Peçanha. O colunista do noticiário televisivo, um homem muito branco e muito aprumado, detectou dia desses uma grande divisão entre o povo brasileiro. Eu só vejo os vivos e os mortos. 

Volto para Canoas pela BR-116. Os automóveis estão buzinando, dando setas agressivas ou parados nos postos de gasolina. Já no entorno do meu prédio, estaciono na vaga livre do supermercado próximo (menor que um Zaffari, maior do que uma mercearia). Um homem sem camisa e sem máscara está sentado. Estende a mão e não diz nada. Na porta, o termômetro informa a regularidade dos meus trinta e sete graus celsius de temperatura corporal. Pego refrigerante, pão, queijo e um pé de brócolis (os brócolis têm pé?). Agarro um sanduíche e uma coca-cola seiscentos mililitros. No caixa, vou ajudando a embalar as coisas, os funcionários do supermercado estão sobrecarregados (menor que um Zaffari, maior do que uma mercearia). Coloco o sanduíche e a coca-cola em um saco menor e dou um nó. Volto pela calçada. O homem não está mais lá. Guardo tudo no porta-malas e volto para casa.

Subo as escadas de volta. O barulhinho do whatsapp informa a chegada de mais um Inquérito Policial digitalizado. Eu e minha colega somos unânimes na constatação: aumentaram os feminicídios e suas tentativas. Abro a porta e me organizo: à geladeira o que é de geladeira, ao armário o que é de armário. Digito no teclado do computador uma minuta de pedido direcionado ao Excelentíssimo Juízo Criminal. 

Da janela da sala vejo uma criança brincando com um graveto do outro lado da rua. Ainda há um fiapo de sol, persistente, desobediente, que não respeita o novo normal

11.8.20

Dia 147: por Luiz Gonzaga Lopes

O TGV da vida

Quando certa manhã Luiz Gonzaga Lopes acordou de sonhos intranquilos, estava em sua cama metamorfoseado em um jornalista cultural com medo e ao mesmo tempo sem medo de contrair o vírus, AQUELE, o inominável, que tem ao final de seu nome fantasia o 19, se o DEZ é NOVE, é porque algo está muito errado. Sempre que acorda, LGL reza, não porque tenha fé cega, mas porque crê no rito, em falar com alguém que não é visível.

Acabo de lembrar que este é um diário da pandemia, que preciso descrever de forma documental ou ficcional um dia na vida de um jornalista cultural. Com um narrador onisciente em discurso indireto, terceira pessoa, eu não irei conseguir entregar o referido texto a contento para a exímia amiga das Letras, Julia Dantas, que, na época da presencialidade, me proporcionou alguns papos interessantes sobre literatura, cinema e vida.

Tergiversações à parte, o meu dia começa com uma oração. Uma frase também começa com uma oração, ora, ora. Respeitado o rito, começa a preparação para um dia na vida de um jornalista cultural e editor de caderno de Cultura na Porto Alegre que produz muita cultura, mas por vezes não a valoriza do modo como deveria. Muito café feito na moca, frutas (banana esmagada com aveia, confesso), pão, manteiga e queijo, um ou outro bolo ou omelete.

Um amigo do jornalismo cultural combinou uma live comigo pelo Instagram às 9h da manhã. Horário diferenciado. Talvez tenhamos mais de 100 pessoas ao vivo. Ele me chama pelo Insta, eu atendo e posiciono meu celular de modo horizontal, pois tudo que é feito na horizontal é mais gostoso. O papo começa solto e em alguns momentos, ele pergunta pelo meu início no jornalismo e depois em editorias de Cultura. Digo que a primeira experiência profissional em jornalismo foi numa rádio como produtor e redator de editoriais dos programas da manhã e que o meu início no jornalismo cultural foi numa revista semanal nesta mesma cidade. A conversa que deve durar 1 hora avança para os desafios de um editor de Cultura neste momento de pandemia. Explico que as lives e a produção de conteúdo exclusivo do meu veículo de comunicação são a solução, bem como a busca de material exclusivo, ainda não abordado por outros colegas. Nas perguntas pessoais, os amores, as viagens, os encontros e desencontros e a vida de escritor diletante, com um romance e uma biografia publicados e alguns contos publicados em duas antologias e revistas. E por aí vai. Nos despedimos com a guilhotina do Instagram e eu sigo para dar a primeira visualização de e-mails do dia. Minha caixa chega a ter mais de 5 mil e-mails, dos quais uns 500 ainda não lidos. Pessoas oferecendo artigos para o suplemento de final de semana, outras oferecendo pautas que parecem ser a oitava maravilha cultural do mundo, ainda outras fazendo contato via e-mail ou whatsapp, ansiosas pela publicação de algo ou oferecendo entrevistas. 

No meio disto tudo, eu faço a produção das lives diárias para o jornal, nas quais entrevisto músicos e por vezes gente da literatura, teatro ou artes visuais. Ainda antes do final da manhã, termino a leitura dos principais jornais do dia e sites com notícias da área e preparo as reuniões da tarde com a equipe da editoria e com os demais editores, tudo via Skype. O almoço é rápido. Algo pedido na esquina ou feito às pressas, arroz, bife e salada; massa bolonhesa; arroz, batata e espinafre, com um suco de laranja feito na hora.

A tarde é pura gincana. Fico pensando que logo que começou a pandemia, eu tive a certeza de que ia ler todos os livros clássicos que ainda não li, ver e rever os filmes russos, iranianos, chineses, finlandeses e espanhóis tão sonhado. O velocíssimo TGV da vida ordinária e focada no trabalho avançou sobre mim e eu fiquei amarrado nos trilhos esperando-o passar por cima. Resiliente. Este sou eu. A divisão das pautas do dia, a edição das páginas do jornal. Uns dias são três, em outros são oito ou dez, fora o cadastrar de matérias no site, a produção de conteúdos exclusivos. O café é velho companheiro, adrenalina natural e adoçado com sacarose.

Muitos telefonemas, cinquenta conversas verdinhas no Whatsapp. Eu sou um visualizador nato, mas pior que respondo tudinho, mesmo que para dizer que estou ocupado. Chega a hora da live. Uma entrevista prazerosa com um músico ou um escritor. Falamos de livros que lemos, discos que ouvimos, coisas que gostamos. A pessoa do outro lado do Skype, Zoom, Google Meets passa a ser minha nova amiga de infância depois de uma hora de conversa. Este é o belo da vida das lives, das lives vividas, das ávidas lives, leave my life in peace. Peça de um quebra-cabeça que me extenua a cada dia.

Acaba a live e eu termino de fechar a edição do próximo dia. Por um momento, esqueço onde eu estou e quem sou. Não respondo às mensagens. Rezo novamente e ligo a TV numa série favorita qualquer. A de hoje é a Atwoodica, “The Handmaid´s Tale”. Torço pelas mulheres onde quer que elas estejam, seja qual for a luta. Ativo o meu ativismo, mas ainda não lembro quem sou. Quando caio em mim, estou escrevendo um Diário de Pandemia para a minha amiga Julia Dantas, escritora do magnífico Ruína Y Leveza. Por instantes, me vem à cena daquele deslizamento na Bolívia e de toda a alma contida naquele livro, mas não há mais tempo para nada. O tempo, este tirano implacável, me sussurra algo como: “está na hora de acabar este texto mesmo que não tenha ficado grande coisa”. Como um cara atropelado pelo TGV da vida pandêmica, eu simplesmente assinto com a cabeça e penso em colocar um ponto final no fim desta frase.