Se quiser participar, é só mandar um e-mail pra organizadora em juliadantas@gmail.com pra combinar uma data pro teu relato. Os participantes estão em Porto Alegre ou abandonaram a cidade temporariamente para a quarentena.

9.6.20

Dia 84: por Rafael Gloria

Sempre demorei mais a pegar no sono. Invejo muito até hoje quem deita e simplesmente dorme. Eu não, por muito tempo a ideia de dormir rapidamente me causava uma ansiedade tremenda. Nem era porque tinha muita coisa para ficar remoendo, nem era porque ficava lembrando de situações vergonhosas. Era porque me sentia obrigado: ter de deitar e dormir me irritava profundamente. Mas com o tempo fui inventando armadilhas para tentar envolver o sono, para que me alcançasse mais facilmente, para que me vencesse de um modo mais rápido. Sabe? Eu tinha que aprender a ser a vítima perfeita para o crime de dormir à noite, em paz. 

Então, não sei como começou, mas lá estava eu deitado quando uma lembrança do dia surgia, como uma cena de filme, e algo fazia ela se embaralhar com outras lembranças antigas. Em algum momento dessa esculhambação eu encontrava repouso. Tenho a sensação de que o sono é costurado por uma mescla de lembranças atuais transfiguradas que servem como uma espécie de respostas a pensamentos antigos. 

Uma colcha para se embalar. 

O problema de quem trabalha ouvindo e entrevistando muita gente é também se misturar com a lembrança dos outros. A minha profissão me obriga a fazer isso: a escutar muitas pessoas para uma matéria, por exemplo. Absorver um pouco da história delas. Gravar tudo. Baixar para o computador e então ouvir tudo de novo para transcrever exatamente o que ela quis dizer. Eu sou um pouco perfeccionista e por isso transcrevo todas as entrevistas que eu faço. Nesses anos de jornalismo já foram muitas palavras de muitas pessoas circulando na minha cabeça. Cada voz é única e seus diferentes tons pintam diferentes retratos. Por isso, eu tenho certeza que eu já sonhei o sonho de outras pessoas. Eu sei, é algo complicado de imaginar. Mas com tantas vozes circulando na minha mente, com certeza algumas delas já se mesclaram com algumas das minhas lembranças e me fizeram dormir em paz em alguns dias. 

Seria possível mudar a personalidade ao absorver tantas lembranças alheias? Por enquanto só as uso para dormir. Ainda não desenvolvemos a propriedade de se comunicar pelos sonhos. Porém, sabemos que somos constituídos de momentos que de algum modo ficaram conosco. E o atual momento com que somos obrigados a lidar nos impulsiona a sonhar com o passado de um novo jeito.

8.6.20

Dia 83: por Thiago Souza de Souza

[1]

Sento para escrever este texto e da janela aberta, a janela que por sorte me deixa ver o rio e por onde eu tenho respirado durante esses dias, me chegam os sons das manifestações antirracistas e antifascistas que ocupam as ruas do Centro Histórico de Porto Alegre. O mundo outra vez em ebulição, mas agora com o componente inédito para nós que é estar em ebulição no meio de uma pandemia: as primeiras bolhazinhas da fervura começaram com a postura anticientífica de países governados pela extrema-direita, o assobio da água convulsionando chegou com a morte de George Floyd, homem negro assassinado covardemente ao ter seu pescoço pressionado pela brutalidade e pelo racismo da polícia dos Estados Unidos. No nosso pátio, atulhado de militares de pijama que já começam a colocar em prática o habitual expediente de esconder cadáveres, turma sempre saudosa da ditadura militar que jamais punimos, João Pedro, adolescente negro de 14 anos, foi alvejado dentro da própria casa no Rio de Janeiro pela polícia que mais mata no mundo. E ainda um caso tão triste quanto simbólico do que é o racismo no Brasil: Miguel, criança negra e filho de empregada doméstica negra, morreu ao cair de uma altura de 35 metros depois que a patroa loira da mãe, de sobrenome Corte Real e casada com um prefeito, apertou o botão do nono andar do elevador e deixou que a criança subisse sozinha. O menino procurava pela mãe, que, no meio de uma pandemia, teve de deixar o filho aos “cuidados” da patroa para levar o cachorro dos patrões ao passeio à sombra de um projeto arquitetônico cafona e capricho de especulação imobiliária no Recife. Corte Real pagou fiança de R$ 20.000,00 e foi liberada. Enquanto eu fechava este texto, li a notícia de que ela está cadastrada para receber os R$ 600,00 do auxílio-emergencial do governo para pessoas sem renda durante a pandemia.

[2]

Um diário é o espaço em que registramos o que lemos, o que ouvimos, o que assistimos, o que pensamos, o que sentimos, todas as experiências que nos atravessam. Mas como contar apenas que comprei um Kindle lá nos primeiros dias?, como contar apenas que assinei a Mubi para fugir dos filmes recomendados por algoritmos?, como contar apenas que me atrapalhei no site da loja de orgânicos e acabei com a casa lotada de cebolas? Tudo parece tão pequeno e fora de foco perto das angústias que estamos experimentando. A experiência central do meu isolamento, que hoje chegou ao 85º dia, é o constante sentimento devastador de tristeza e frustração ao acompanhar a ação de um Estado que mata os mais pobres e vulneráveis e, na figura do presidente da República — um sujeito tosco, tacanho e fascinado pela morte —, autoriza e incentiva os mais abjetos ataques à saúde pública, à democracia, ao livre exercício do jornalismo, ao meio-ambiente e aos grupos sociais historicamente oprimidos. No atual estágio dessa escalada autoritária e neofascista, não vejo a menor possibilidade – muito menos a necessidade – de pensar em um retorno à vida “normal” nem de investir esforços para tecer reflexões a respeito do que a humanidade pode ou não aprender com a pandemia e a quarentena. Antes de qualquer outra coisa, o que é urgente e se impõe é a tomada de consciência do momento histórico e o que ele exige de nós: que nos posicionemos antes que seja tarde demais e dessa toada de marchas com símbolos nazistas, impulsionadas por um governo que não se constrange em também ostentar esses símbolos, ressurja um período tão sombrio que seja capaz de nos engolir a todos. Meu palpite é que estamos quase lá.

[3]

No meio de tudo isso, também leio meus livros e assisto a filmes, e faço esta nota para dizer que construir uma bolha, que serve ainda de escudo, para se defender das ansiedades desses dias é uma legítima estratégia de sobrevivência. Li em sequência três livros de Thomas Bernhard: Extinção, O náufrago e O imitador de vozes. Esse é um autor que recomendo para tempos como esses, porque seus livros podem iluminar possibilidades de pensar com honestidade sobre nossas origens e de criticá-las. Por meio de um texto claustrofóbico e labiríntico, Bernhard usa o exagero para expor a crueza da nossa natureza complexa e contraditória, tanto no plano individual quanto no coletivo. N’O náufrago, um dos meus livros favoritos de toda a vida, ele narra uma história incômoda sobre o potencial da arte, que às vezes nos salva mas também pode nos aniquilar ou nos levar ao desespero. A voz de Bernhard pode falar de coisas feias, mas de uma forma que nos faz rir. Ainda vi em sequência três filmes em que Casey Affleck é o protagonista (e ele parece fazer sempre o mesmo papel, o de um homem profundamente afetado por um trauma, mas isso não é uma crítica), o que eu poderia chamar de Trilogia da introspecção: Manchester by the sea, Light of my life e A ghost story. Vou me ater a este último, porque o assisti lá no início da quarentena e ele ressoa em mim até hoje e porque este 8 de junho já vai longe. É um filme quase mudo, feito de silêncios, de cenas quase estáticas, de uma necessidade de ficar meio obsessivo com uma história até que a gente consiga entendê-la ou absorver dela o mínimo necessário para seguir em frente. Quase como agora, aqui.

7.6.20

Dia 82: por Michel Flores

Uma das primeiras coisas que estranhei no início dessa pandemia foi ter ganho um pacote de máscaras descartáveis de um dos dois amigos que decidi seguir encontrando apesar de tudo. No início, éramos três amigos que viviam só, que, apesar das críticas dos demais, continuamos fazendo encontros semanais. O amigo que nos presentou com as máscaras trabalhava na área da saúde e decidiu dividir as que tinha entre os três. Quando nos entregou, disse, usem caso fiquem doentes e precisem ir a algum hospital. A ideia, também, era usar caso um de nós ficasse doente e precisasse da visita do outro para algum auxílio. Ainda não pensávamos que a máscara seria um acessório necessário para uso nas ruas, no supermercado, nas manifestações, enfim, em todo lugar de aglomeração, mesmo quando não estivéssemos nos sentindo doentes.

Coloquei as máscaras descartáveis que ganhei na estante que fica na entrada do meu apartamento. Nas primeiras vezes que as usei para ir ao supermercado, tive uma sensação de sufocamento, os óculos embaçavam dificultando a visão, fazendo eu me sentir pior. Nessas vezes, eu ainda era um dos poucos que as usava naquele lugar. Nem a senhora com mais de sessenta anos que pesava as frutas usava. Um dia tentei fazer duas máscaras de pano, prevendo que as descartáveis que tinha iam logo acabar, mas me decepcionei com o resultado e decidi comprar prontas. Num outro dia, fiquei mostrando minhas máscaras adquiridas numa videochamada com uma amiga, eu com cinco, ela, que mora com o namorado, com quinze. Vários modelos e maneiras de prender a máscara. Conversávamos sobre a dificuldade de encontrar um modelo que se ajustasse bem aos nossos diferentes formatos de rostos. Já era o tempo da máscara ser uso obrigatório e eu já não me sentia mal quando usava. 

O amigo que me deu as máscaras ia embora do Brasil em março, há muitos meses, planejava viver em outro país. Ele juntou dinheiro e pediu as contas no trabalho. Chegou março, ficou sem emprego, mas não pôde viajar, a pandemia chegava no Brasil e ninguém sabia direito o que fazer. Hoje acho que as pessoas sabem menos o que fazer em relação ao caos político que enfrentemos do que em relação a pandemia. Tanto que meu amigo, corajosamente, pra mim, irresponsavelmente, pra outros, nesta semana, foi para Londres, em meio a pandemia. Até a semana passada, nos encontrávamos os três todos os domingos desde o início de março, comíamos bolo, tomávamos café e jogávamos cartas.

Hoje, no tradicional encontro de domingo dos três amigos, só havia eu e mais o outro amigo que aqui ficou. Tinha bolo e cartas também. Tentamos jogar canastra, um dos jogos que os três gostavam de jogar, mas ficou sem graça jogar com apenas dois jogadores. Depois de uma partida, chegamos a essa conclusão. Pensamos então em outros jogos que seriam divertidos de jogar entre duas pessoas. Na próxima semana, vamos experimentar jogar xadrez. Enquanto jogávamos e bebíamos café, recebemos a ligação do amigo que agora está em Londres. Cada um falou sobre como está e cogitamos jogar canastra online em algum dia.

Depois de muitas conversas com o amigo que aqui ficou, café, bolo, um jogo de cartas sem a mesma graça de antes, uma videochamada, coloquei minha máscara para voltar pra casa, a de modelo que não se ajusta muito bem ao meu rosto. No caminho da Cidade Baixa ao Centro, quase todas as pessoas com quem cruzei na rua estavam usando máscara. Pelo menos uma, eu conhecia. Se não estivéssemos de máscara, penso que teríamos nos cumprimentado e talvez até parado para uma conversa. Mas estávamos de máscara, quando eu o vi, sorri, mas ele não viu meu sorriso e não me reconheceu, apenas cruzamos um pelo outro. Nessa semana, que acaba hoje, comprei mais máscaras de outros modelos pela internet, para ver se se adaptam melhor ao meu rosto, espero que cheguem na próxima semana. Ainda tenho algumas máscaras descartáveis que ganhei do meu amigo guardadas na estante, essas, apesar de descartáveis, são muito boas de usar. 

6.6.20

Dia 81: por Renata Wolff


Willkommen

1. Em janeiro, antes de estourar tudo, fui a Buenos Aires. Um dos desejos de viagem era assistir a um musical. Estava muito animada para ver Hello, Dolly!, cujo letreiro enorme enxerguei na Corrientes na chegada. Comprei o ingresso no primeiro dia.

2. Hello, Dolly! era ótimo. Mas não um desbunde. Desbunde foi Cabaret, que vi anunciado por acaso. Comprei o ingresso para a mesma noite, de impulso, ao passar em frente ao teatro, bem menor e fora da Corrientes. Bastou o mestre-de-cerimônias aparecer sozinho no palco e começar miudinho: Willkommen, bienvenue, welcome. Ah, meu coração. E, como se não bastasse, lá pelas tantas entra a Sally Bowles para cantar o showstopper e declarar que ama a vida de cabaré. Saí chorando.

3. Cabaret se passa nos últimos meses da Berlim de Weimar antes dos nazistas tomarem conta. A libertinagem decadente é tão exuberante quanto triste. A festa terminava.

4. Hoje é 6 de junho, dia D. Há 76 anos, a grande geração desferia a ofensiva para derrotar o Terceiro Reich, à custa de sangue e vidas (oitenta milhões do lado aliado, e isso contando não só militares como civis mortos inclusive de fome e doenças relacionadas à guerra).

5. O que é que nós, geração da internet, precisávamos fazer para barrar os fascistinhas reality show aqui no Brasil em 2018? Simplesmente votar certo. Sem sacrificar lhufas. Mas não. Preferimos eleger o terraplanismo, o dízimo, as arminhas de mão, os bichos-papões de whatsapp e facebook, e as camisas da Seleção manufaturadas a centavos na Ásia. E comemoramos com fogos de artifício.

6. Ainda em Buenos Aires, uma noite saí para jantar milanesa com batata frita. Uma menina passou nas mesas pedindo dinheiro. Eu disse que dinheiro não tinha, mas perguntei se queria dividir o prato comigo. Comecei a servir fritas para ela. A menina disse bueno, meio constrangida, e cortou um pedaço da carne. Eu disse: pega mais. Ela pegou outro pouco. Insisti de novo. E ela: está bem, mas depois chega, porque a senhora precisa comer.

7. Eu menti. Tinha dinheiro. Enquanto neguei a ela uma nota de pesos argentinos, a menina estava preocupada que eu tivesse comida suficiente.

8. Em março, nos dias anteriores ao isolamento, recebemos no tribunal um email de um advogado. Ele queria urgente que liberássemos um valor de quase um milhão que havia sido bloqueado em sua conta. O motivo? Para investir logo na bolsa de valores, que estava despencando com as notícias do covid-19. Ele não podia perder a grande oportunidade de fazer aportes, explicava o email.

9. A menina do restaurante (pior, nem perguntei o nome) deixou de pegar mais carne por se solidarizar comigo, uma turista. O advogado do milhão de reais na conta queria aproveitar a quebra, e portanto a miséria alheia, para lucrar com capital especulativo. Mais: descreveu isso abertamente.

10. Sobreveio a quarentena. Desde lá, trabalho de casa. Saio de duas em duas semanas para fazer supermercado. Meus familiares estão nas suas casas, felizmente saudáveis. Nos falamos por vídeo e texto. Com xs amigxs a mesma coisa. Não encosto em outro ser humano há três meses. E tudo isso são luxos. Luxos.

11. Mil mortes por dia. Não tem teste, não tem leito, não tem nem enterro digno. Artistas e autônomxs sem fonte de renda. Extermínio de pessoas negras, pobres, trans, índigenas. O presidente miliciano a cavalo. E as carreatas exigindo, à base de buzina, a chance de se contaminar. Meninxs, eu vi: as carreatas.

12. No prédio onde moro, estavam reparando a fachada durante o verão. Uma tarde, sol inclemente e temperatura batendo nos quarenta, o andaime passou diante da minha janela. Ofereci água. O senhor que trabalhava disse que os outros apartamentos só fecham o vidro e as cortinas. O prédio tem 112 apartamentos. Cento e doze. O senhor era negro.

13. Isso não torna a minha oferta mais do que o dever ridiculamente mínimo de um ser humano para com outro. Não sou nenhuma salvadora de meia pataca. A história é dele (muito embora, de novo, eu não tenha perguntado o nome). Eu sou outra cara do lado de dentro da janela. E do lado de fora de um presídio. Sou parte do problema. Nego dinheiro a uma menina pobre mas me comovo com o drama fictício no palco. Faço postagem woke no instagram como se fosse ativismo suficiente. E reconhecer isso também não é nenhum ato de coragem ou mérito, é simplesmente afirmar um fato.

14. Neste mesmo prédio e na mesma época, uma vizinha não sossegou até que, contrariando as normas sobre focos de transmissão da dengue, conseguiu autorização da síndica para deixar uma bacia de água no térreo, permanentemente. Para os cachorros. Os cachorros não podem esperar o meio minuto de uma subida de elevador para saciar a sede depois do passeio, entende? Os cachorros, pobrezinhos, não merecem ficar sem refresco à mão. Onde já se viu?

15. A mesma vizinha conversa com sua cadela, em público, como se gente. Imagino que seja uma relação parecida com a da patroa no Recife que mandou a empregada passear com a cadela (claro, com todos os cuidados) enquanto deixou o filho de cinco anos da empregada sozinho no elevador e apertou o botão para subir. O menino caiu e morreu. O menino chorava pela mãe e estava perdido no prédio de luxo. O menino era negro.

16. Esse nome eu sei. Miguel Otávio Santana da Silva. Queria ser jogador de futebol.

17. Existe tanta diferença entre os meus vizinhos e a patroa do Recife? E entre mim e o advogado milionário?

18. Durante esta quarentena vi passar, até agora, o meu aniversário de quarenta anos, o dia das mães e o aniversário do meu pai, que sempre quis ver ao vivo as praias da Normandia onde aconteceu o desembarque. Também passou o aniversário da minha formatura em Direito. (Me formei em uma universidade pública em 2003. Das setenta pessoas formandas, nenhuma era negra.) Mas a verdade é que estou aconchegada. Me entretenho fácil sozinha. (Leio poesia e os textos de aula. Assisti ao The Office inteiro. E canto às paredes as músicas do Cabaret. What good is sitting alone in your room? Come hear the music play. No use permitting some prophet of doom to wipe every smile away. Life is a cabaret, old chum. Come to the cabaret.) É a vantagem de ser introvertida. Mais um privilégio: privilégio por todos os lados. Assisto em segurança enquanto uma praga importada por ricos em seus passeios ao estrangeiro dizima periferias. Sinto uma culpa amarga, o mesmo amargor da vergonha que senti da menina no restaurante. E bem feito pra mim.

19. Tento produzir a dissertação do mestrado mas cada vez mais me convenço de que não importa. Nada importa. O que eu escrever ou deixar de escrever não muda bosta nenhuma. Talvez esta civilização inteira seja uma experiência miserável que mereça implodir, não fosse até mesmo o método de implosão viciado por uma desigualdade revoltante.

20. Tenho ondas diárias de saudade, tristeza, raiva, angústia e ansiedade. Mas também são luxos. Na pior das hipóteses são desconfortos. E o meu desconforto que vá à merda.

21. Sei que isto não passa de uma coleção desordenada de coisas avulsas. É como eu percebo o mundo por estes dias. Tudo entrecortado e suspenso. O nonsense da realidade devora qualquer tentativa de ordenação, mesmo para fins de criação ficcional. Agora até parecem um delírio distante os governos de esquerda dos anos 2000, quando dançávamos sem saber que a festa era de despedida. Leave your troubles outside. We have no troubles here. Wir sagen willkommen, bienvenue, welcome - im cabaret, au cabaret, to cabaret.

22. No final apoteótico, a Sally Bowles, mesmo despedaçada no íntimo, canta: Start by admitting from cradle to tomb isn’t that long a stay. Life is a cabaret, old chum. Only a cabaret, old chum. And I love a cabaret!

23. Mas a Sally Bowles, assim como eu, era branca.

5.6.20

Dia 80: por Júlio Ricardo da Rosa

Na pandemia

Através da janela vejo o mar. A cafeteira ronca anunciando que a água esquenta. Uma onda se ergue no fundo e, antes de tombar para virar uma espuma branca, agita no ar sua própria bruma. Estamos em quarentena na praia. Eu, minha esposa e a Frida, nossa cachorrinha. O café fica pronto, coloco leite quente no copo térmico, misturo o café e vou para o quarto nos fundos da casa. A Frida me acompanha. Abro a janela. A escrivaninha, o abajur e o IPAD me contemplam. Nesta sala a paisagem é a parte traseira da casa do vizinho. Ainda não são oito horas. Vou escrever até o final da manhã. Há dias em que a concentração falha e a produção é pequena, mas me apego ao texto e sigo adiante. Pela tarde, trabalho externo em home office e leitura.

Desde a adolescência gosto da praia no inverno. A solidão do lugar me atrai. Às vezes me imaginava como o personagem de “Eu sou a Lenda,” do Richard Matheson, o último homem sobre a terra. Ou o pirata que ia todos os dias até a praia esquadrinhar o mar temendo a chegada  do navio que traria o Cão Negro à bordo em “A Ilha do Tesouro,” do Stevenson. Nunca me imaginei sob perigo real.

A praia está praticamente deserta. Há um pescador que passa todos os dias dirigindo um trator puxando um reboque com uma enorme rede dentro. A Frida late sempre para ele e me pergunto se está irritada com barulho ou assustada com a aparição. A noite chega a cada dia mais cedo e os postes de luzes amareladas da rua dão um colorido irreal às árvores. O mar é um fundo negro que ruge nas noites de vento. A lua raramente aparece.

Tento imaginar o final deste período e o recomeço, mas os enredos me parecem falhos. Sinto falta da natação. O mar não é o ambiente adequado pada o nadador de piscina, principalmente no inverno, e meus verdes anos de nadador temerário já vão longe. Estou acostumado a ir ao cinema duas vezes por semana e o último filme que assisti em uma sala de projeção foi “O Oficial e o Espião,”  em março. Como o cinema vai voltar? Há quem afirme que uma era terminou. Busco razões para contrariar esta sentença. Tenho saudade das livrarias. Comprei livros pela internet mas é sempre uma experiência incompleta. Ouvi dizer que as que estão abertas, são obrigadas a controlar o fluxo de clientes.

Esta tragédia trará um mundo melhor? A dor fará o homem mais solidário. Não creio. Muitas vezes penso que a Humanidade, assim como o monstro de Frankenstein, é uma experiência mal sucedida. Minha esperança são as pessoas que trocam mensagens, telefonam, usam as redes sociais e fazem chamadas de vídeo para as pessoas que lhes são queridas. Estas vão se encontrar mais, expressar seu sentimentos com maior facilidade e ouvir com mais paciência e atenção. Seus mundos serão melhores. A lembrança da saudade e do afastamento obrigatório os tornará mais próximos, e os momentos que dividirem mais preciosos.

4.6.20

Dia 79: por Jairo Loewenstein Silveira

Passo o café meio às pressas para não perder os últimos minutos de sol na janela da sala. Nessa órbita baixa de quase inverno, onze e quinze ele é escondido pelo prédio da frente. Isso me dá uns dez minutos. É suficiente para sintetizar a bendita vitamina D. Disseram que na maioria dos casos graves de Covid-19 as pessoas tinham déficit dessa vitamina, então todo dia venho aqui para a janela e estendo os braços com as palmas das mãos voltadas para cima. Vi num infográfico, é a técnica correta: palmas das mãos voltadas para cima. Eu sei que se der merda não vai adiantar para nada. Simples e fácil demais para ser verdade. Ainda assim faço sempre que tem sol, uma superstição para espantar o mal. Mesmo que não ajude com o corona, me faz bem. Mais luz. Dizem que o Goethe falou isso em seu leito de morte. Sei lá, faz sentido. Mais luz.

Angélica está no sofá dividindo a atenção entre a GloboNews e o celular. O paradoxo do isolamento e da hiperconexão, nosso coquetel diário de ansiedade, todo dia fresquinhas em sua casa notícias sobre o avanço da doença no mundo e do fascismo no Brasil. Na última semana as notícias estão melhores. Reação antifascista aqui e protestos antirracismo nos Estados Unidos. Mais luz. Na GloboNews tem um repórter falando sobre os atos da noite de ontem em Nova Iorque. É preciso que o telespectador saiba que os protestos foram pacíficos ao longo de toda tarde, apenas com o cair da noite é que as coisas foram tomando um rumo violento com saques e depredações, isso não representa o verdadeiro espírito das manifestações, é apenas a ação isolada de alguns black blocs. Eles insistem em categorizar black bloc como um movimento, devem achar que tem CNPJ e carteira de clube do assinante. Eu explico pro repórter que black bloc não são pessoas, é uma tática, o patrimônio da burguesia e do sistema financeiro pagando pela brutalidade policial, ele não escuta e passa a descrever uma vitrine quebrada como se fosse um legista redigindo um laudo de necropsia. É bem gráfico com os ferimentos que levaram a vitrine a óbito, os telespectadores podem ver aqui, aqui e aqui onde a vidraça foi atingida, mas felizmente pelo estado da loja não houve saque.

Mais luz. Eu olho para o sol por um milissegundo, o suficiente para deixar uma mosca volante no centro do meu campo de visão. Eu monto na mosca e ela me leva para Nova Iorque, é noite e eu estou de bicicleta fugindo. A coisa estava bacana mas eles vieram com tudo para cima, cassetete, gás, bala de borracha mirando na cabeça que é pra cegar mesmo. Muitas vitrines têm tapumes, essa não, é uma loja de sapatos caros. Bolas de gude e uma funda, eles não se importam com vidas negras mas com dinheiro sim, os telespectadores podem ver aqui, aqui e aqui onde a vidraça foi atingida. Mais luz.

A mosca volante vai aos poucos desaparecendo, junto com a nesga de sol. O café esfriou, mas eu termino de tomar mesmo assim.

Me sento ao lado de Angélica, dou um abraço lateral e encosto a cabeça em seu ombro. Ela entende. Logo eu vou para o quarto ligar o home office e preparar meu mindset para virar uma máquina de proatividade no teletrabalho e isso tudo. Mas me deixa ficar mais um pouco aqui, só um pouco. Mais luz.

3.6.20

Dia 78: por Arion Engers Moreira

Demorei três décadas para entender que minha maior fraqueza era na verdade a minha maior força. A sensibilidade que me fazia sofrer na infância é minha maior aliada no isolamento. Depois do terceiro dia de quarentena entendi que o tempo havia mudado a forma como a gente se relaciona, não pra melhor, tampouco para pior, só mudou. Cresci achando que ser sensível era ser fraco, entendo agora que isso me faz ver as belezas do mundo e me alimenta de uma poderosa vitalidade. O budismo fala que nossa cabeça é como um bando de cavalos selvagens, nosso trabalho é fazer esses cavalos andarem na direção que nos interessa, decidi que meus cavalos seguem aquilo que me favorece: música, natureza, ideias. Essa sensibilidade então me ajuda a presenciar cada dia, como uma nova experiência, achando as belezas no cotidiano.

Amo convívio social, sinto falta dos amigos e desde o início pensei bem em como passar por esta tempestade, sabendo que seriam meses e meses sem fim. Depois de um tempo, o próprio tempo entra em outra dimensão. Decidi ser um astronauta dentro da minha  nave e viver a melhor experiência que poderia viver isolado de tudo que amo, ou quase tudo. Vi que nem tudo que amo está fora, me cerquei daquilo que gosto, aquilo que me faz bem, mesmo assim, percebi a fragilidade daquilo que nos é mais precioso: os amigos, as risadas, a família, o abraço, o sol… Como capitão da minha nave escolhi ajudar quem eu pudesse, seja com comida, com palavras, com ligações. Ser forte é ser empático, ser forte é ser gentil, ser forte é ter compaixão com a dor do outro. Ser forte também é chorar e se permitir ser vulnerável e carente. Nossa humanidade está de alguma forma ligada aos laços sociais tão simples e tão vitais.

O tempo se tornou como a realidade dos deuses: eterno. O astronauta do meu espaço entende a dimensão sem tempo, ironicamente ela nos dá a sensação do tempo infinito. Eterno é aquilo além do tempo, sem começo ou fim, isso pode nos deixar ansiosos ou despertar a liberdade interior, se estamos aqui e temos todo tempo disponível, o que podemos fazer? Liberdade de escolher e ansiedade pelas escolhas. Tento me focar naquilo que posso fazer, acho que ficar pensando no que nos falta só alimenta a angústia. Aproveito a solitude pra viver as coisas que me importam, falar com as pessoas que eu gosto, sem esperar o fim da pandemia, encarando a vida como é, pois ela nunca mais será como era e não temos ideia do que nos espera quando passar. Viver o dia de hoje da melhor forma que puder, é o que penso ao acordar, sendo o astronauta do meu apartamento. Quanto do universo a gente tem na nossa cabeça? Será que é a falta de sair que nos angustia ou é ter que olhar pra si mesmo? Me gosto, me cuido e me faço companhia, nem todo dia estou bem humorado mas sempre me respeito, me perdoo diariamente por não fazer tudo aquilo que ontem, em meio ao delírio da eficiência, achei que seria básico para continuar. Acho que solitário fica quem se abandona, passo os dias sozinho mas não me sinto só.

Se perdoar, se cuidar, sentir a sua dor e a sua alegria. Temos morte e também temos vida, temos dor e também temos alegria. Agora que não podemos sair, olhamos para dentro e tentamos fazer caber mais mundo na nossa cabeça. Como é nosso interior? Acho que a dor do isolamento vem da falta do outro, mas também da nossa falta de presença.

Cresci em uma casa onde nunca faltou comida e mesmo assim nunca saciei minha fome. Hoje vejo que o alimento que me faltava era da alma. Abracei minha antiga inimiga e agora ela é minha maior cúmplice, a sensibilidade me guia nesse mundo que se diz tão racional. Minha dor ou minha alegria vem de dentro, minha vontade de melhorar ou de continuar vem de dentro. Hoje eu me levanto, sabendo que muitos de nós se deitarão pela última vez. Hoje eu me levanto sabendo que o pouco que posso fazer no mundo, pode ser um mundo inteiro para alguém. Hoje eu me levanto, sabendo que não sei o que me espera no fim do dia, mas que viverei o melhor que puder, pois isso é tudo que terei. Às vezes tento ser o sol para alguém, nos outros dias sou apenas humano.

2.6.20

Dia 77: por André Santos

Vou tirar de letra, pensei. Vai ser suave. Eu sou muito caseiro, então não vai ter problema nenhum. Quando a quarentena começou, eu não senti a diferença na transição. Um ou outro compromisso foi cancelado, sim, mas isso só me deixou aliviado. Vou poder ficar em casa, pensei.

Hoje, eu perdi a noção do tempo. Não só de quanto tempo faz que tudo começou, mas de quando está claro ou quando está escuro sem olhar para o relógio. Lembro, mais ou menos, de quando comecei a “virar a noite”, e depois quando comecei a acordar no meio da noite, e de quando meu horário voltou ao normal porque eu agora estava “virando o dia”. Eu estou virando a virada.

Me peguei jantando as cinco da manhã várias vezes e, tentando computar as experiências auto impostas, descobri que, apesar de estar bastante tenso, eu sou resistente à privação do sono até certo ponto. Ainda conseguia fazer exercícios físicos, já os exercícios mentais... Eu não consigo me concentrar muito nas leituras e nem na escrita. Hoje eu estou me forçando, tentando ajustar os horários, mas ainda está complicado.

Meu banco tentou me matar duas vezes nesse meio tempo, me arranjando problemas para resolver com a minha conta, e foram essas as duas vezes que tive que sair para algum lugar que não fosse o mercadinho. Uma delas foi hoje. Lá estava eu no ônibus lotado, sentindo receio mais por aquelas outras pessoas do que por mim. Tenho parentes que trabalham em posto de saúde, minha mãe é uma delas. Eu sei como a situação está complicada. Eu escrevi um texto a pedido deles. Me agradeceram muito, principalmente a psicóloga que trata o pessoal.

A tia e o tio do mercadinho, por sinal, sofrem as consequências de serem minha única interação pessoal. Eu tento tirar o melhor dessa situação, pois ao menos tenho saúde, tenho casa e sustento. Como sou brincalhão, não tem um dia que eu não finja estar tentando roubar um pacote de salgado com ele enfiado dentro da roupa, e eles ficam rindo de mim enquanto tento escapulir com aquela protuberância saindo por baixo do moletom. Hoje vocês me pegaram, eu digo soltando o pacote e pagando por ele; mas nunca se sabe o dia de amanhã. No outro dia: qual o detergente mais caro que vocês têm ai?, eu pergunto. Oba! Vai abrir a mão! Aquele ali é o mais caro, eles apontam. Pois então me vê o outro.

E assim eu vou indo.

Eles começaram a controlar minha alimentação melhor que eu também. Estão limitando minha quantidade de bobagens e me instigando a comprar coisas mais saudáveis. Tudo sempre na base da brincadeira: bolacha recheada de novo?! Ah, não! Pode largar isso lá!

Faz muito sentido, né? Se privando de vender um pouco, eles garantem o meu bem-estar. Morto ficaria mais difícil de continuar sendo cliente.

1.6.20

Dia 76: por Arthur Telló

Nas manhãs ensolaradas, o morador do prédio atrás do meu (seria ele meu vizinho?) senta-se de costas para a janela todos os dias às 10h. Ele vira-se de frente também e então vejo a barriga grande, inchada como um tambor, receber os raios de sol que dão à sua pele rosada um tom dourado, bronze. Ele fica quinze minutos de costas e cinco minutos de frente para o sol. Na sua pele há manchas vermelhas e amarronzadas em contraste com o fundo rosa. Entre 10h15 e 10h20, ele levanta-se e veste uma camiseta (em geral preta), e eu noto melhor o rosto bochechudo, a barba e o cabelo salpicados de grisalho ou os pelos da nuca que crescem e perdem o corte até ele sair da janela e desaparecer. Nos domingos, nas terças e quintas, meu vizinho assiste a filmes pornôs (sempre filmes com três pessoas, podendo ser duas mulheres e um homem, ou dois homens e uma mulher. Ele deve ser do tipo que aprecia variações entre personagens). No resto do tempo, ele assiste a programas de notícias.

Nunca o vi receber visitas.

“Fala mais baixo”, diz o meu vizinho no andar de cima. “Os vizinhos podem ouvir”. Param de ecoar os passos sobre minha cabeça. A esposa murmura qualquer coisa. “Calma”, ele diz, mas não entendo o que falam depois. No mês passado, eu e ele pegávamos elevador juntos para irmos ao trabalho. Ele, corretor de imóveis. Eu, professor. Há setenta dias, ele sai pouco de casa. A mulher caminha sem parar sobre o piso de parquet, muitas cinzas de cigarro caem no meu piso. Está muito nervosa. Já reclamei, mas agora tenho pena. Eu e ele tiramos o lixo ontem à noite e voltamos a dividir o elevador. Por trás da máscara, eu sorri, sei disso: minhas orelhas retesaram. Ele largou um suspiro profundo e lento. Estava mais gordo do que há trinta dias. Acima das sobrancelhas grossas e escuras, havia novas rugas de expressão, rugas que apareciam também ao redor dos olhos, opacos, e deviam continuar por sob a máscara. Tive vergonha do meu sorriso. Há noite, acho que ouvi a mulher dele chorar. Eu estava com uma taça de vinho na mão quando ouvi um Ah! mais agudo. A Gabi ia me dizer alguma coisa, mas levantei o indicador sinalizando para não falarmos. Quietos, ouvimos passos (dele? Dela?) aproximarem-se (de onde? Dele? Dela? Da estante onde está a carteira de cigarros?). Pouco tempo depois cinzas chocavam-se contra nossas janelas fechadas. Abracei a Gabi e bebi toda a taça de vinho.

31.5.20

Dia 75: por Juliane Vicente

Já são 87 dias em casa. Quase noventa dias de promessas não cumpridas e falta de ar. O corpo acostumado à dança sente em cada nova dobra as consequências de estar parado. As juntas enferrujam, subir a lomba para ir ao mercado causa arritmia e a posterior consternação que termina em dor de cabeça, com o pensamento involuntário: será que isso é um sintoma?

Tenho inveja daqueles que precisam acessar o calendário para ver em que dia estamos, habitantes que orbitam em seus planetas particulares vivendo seus infernos próprios. A Universidade cobra e já são mais de dois meses conseguindo escrever apenas sobre a pandemia e seus desdobramentos. Talvez eu consiga entender agora o cerne de narrativa de escritores que conseguiam escrever apenas sobre aquilo que viveram - enclausurados na realidade que só se liberta no papel. O som do despertador anuncia a aula, a reunião da semana e o encontro com o orientador. Horários simbólicos de um tempo sem nome, turnos que se atropelam em dias e noites, horários trocados de quem está acordada antes que o Sol insista em invadir a janela do quarto.

Eu queria falar sobre tanta coisa, especialmente sobre os casos de racismo que têm sido noticiados nos últimos dias e como eles desvelam problemas tão emergentes quanto a pandemia. Do menino João que foi assassinado pela polícia, das manifestações de #blacklivesmatter nos Estados Unidos, mas não dá.

Um amigo fez uma enquete  pra escolher o nome da planta que ele adquiriu pra cuidar durante a quarentena. Um conhecido policial utilizou o argumento "nem todo o policial".  No grupo de escritores, os colegas de profissão trataram a questão lembrando que "o racismo lá é pior".

Simplesmente não dá.

A pandemia só revela chagas abertas há séculos que se tornam menos importantes no passar de dedos na tela para a próxima notícia do momento.

É preciso se exercitar, arrumar a casa, adquirir novos hobbies, postar hashtags pra ajudar movimentos, não esquecer de disseminar o quanto se é contra injustiças e crimes.

Nesse enclausuramento forçado tudo que eu queria era ir pra rua pra quebrar tudo. Quero gritar.

Eu não consigo respirar.

Do lado de fora da bolha tem gente morrendo.

O mundo virou uma live.

E eu estou cansada de assisti-la.

30.5.20

Dia 74: por Aurora

Dia nem sei mais qual do isolamento.
Dia nem sei mais qual de desespero generalizado em ruas, salas de estar, cozinhas, mercados.
Dia nem sei mais qual de pura infelicidade e desespero interno - às vezes transborda e se torna externo.

Não apenas dói ver muita gente morrendo ao redor do mundo, e o resto assistindo, sem esperança do que fazer.
Mas dói ver pessoas próximas morrendo.
Pessoas próximas que não terão velórios ou funerais, pois é proibido o contato. 

Não é o pior, mas é ruim ficar trancado dentro de casa, com pensamentos que bloqueiam todo e qualquer estímulo de perseverança e alegria. É ruim ter de voltar a um lugar no qual não se sente segura em nenhum tempo. É ruim não conseguir dormir mais do que duas horas por noite. É ruim chorar de 6 a 8 vezes por dia.
Quem diria que meu olho direito lacrimeja mais do que o esquerdo? 

Mexo no cabelo, gravo aulas particulares para minhas alunas, envio meus manuscritos infantis para o trabalho - que agora não mais parecem fazer sentido, histórias com finais felizes em meio à histeria -, corrijo os textos dos quais fui solicitada, limpo a casa - afinal, é o que uma boa menina faz - e tento sorrir. 
Mais da metade faço por obrigação.
O resto faço porque preciso me distrair. 

Já é o décimo dia que minha avó e minha oma vêm visitar. Então é o décimo dia que sou obrigada a me ajoelhar no tapete da sala, rezar o terço inteiro, e em seguida, fazer uma reflexão bíblica com direito a queimação de uma folha de sálvia. Sabe-se lá para quê, mas minha avó diz que funciona. Então contenho a vontade de revirar os olhos e apenas a ajudo. Neste dia também comecei a pedir para Deus que ele tire da minha memória as coisas que aconteceram com meu corpo. Comecei a rezar incansavelmente, para que o passado se altere, e que nada daquilo tenha acontecido – e que não continue ameaçando acontecer. Troquei as “Ave Marias” por “Por favor, Deus, faça com que os dedos do passado não me segurem mais”. Troquei o “Pai Nosso” por “Eu imploro, tire toda a sujeira dos lugares que eu gostaria que estivessem limpos.”

Os pelos das coxas se eriçam todas as vezes que alguém entra pela porta, quando alguém me diz "boa noite", quando meu irmão tosse e eu fico no quarto com ele, para que consiga vê-lo respirar, e me certificar de que nada de ruim irá acontecer com ele. E os sinto cada vez que lembro que minha própria psicóloga interrompeu o tratamento, pois não é saudável continuar nestas condições.

Arrepiam os braços toda vez que a TV é ligada, que minha avó vem de uma caminhada na rua como se nada estivesse acontecendo; me arrepia toda vez que minha mãe me olha com cara de escárnio, e que meu pai grita para eu parar de ficar com rosto de choro, porque o mesmo incomoda as pessoas. 

Quando era pequena, me explicaram que quando você sente um arrepio, era porque um anjo passou perto. Todos eles devem estar dentro desta casa, então.

É o 12° dia que faço bolos, e que olho cuidadosamente a sopa batida no liquidificador para meu irmão comer. 

É o 11° dia consecutivo que não consigo parar de pensar em ganhar dinheiro de todas as formas e sair daqui.

É o 10° dia que começo a acreditar que realmente sou inútil como eles dizem.

É o 9° dia que tomo banho duas vezes ao dia para parar de me sentir suja. 

É o 8° dia que passo maquiagem todos os dias para esconder as olheiras.

É o 7° dia que tento focar em algo a mais do que olhar para as paredes e contar quantas tábuas tem no chão.

É o 6° dia que pego escondida a chave da porta do meu quarto e a tranco à noite.

É o 5° dia que paro de prestar atenção sobre como preciso casar logo.

É o 4° dia que paro de ouvir músicas, porque elas me remetem a algo que amo fazer, e que não posso e nem consigo.

É o 3° dia que planejo sair daqui, porque consegui dinheiro.

É o 2° dia que paro de rezar o terço, de conviver com a desculpa de que tenho aula, que tento manter minha sanidade mental o mais intacta possível para conseguir voltar.

É o 1° que escrevo sobre isso.

29.5.20

Dia 73: por Camila Ferreira

Olá, me chamo Camila, possuo 31 anos, sou advogada e estou em distanciamento social desde o dia dezessete de março de dois mil e vinte. A Julia me convidou para participar deste lindo projeto bem no dia do meu aniversário, que foi nesta segunda-feira. Aliás, foi o único dia, desde que entrei em “quarentena”, que esqueci um pouco desta loucura que estamos vivendo, pois, felizmente recebi tanto carinho (ainda que à distância) e ganhei tantos mimos (deixados na minha portaria) que os parabéns, cantado via zoom por muitos amigos, pareceram como se fossem cantados ao vivo e a cores.

Pois bem. Moro eu e minha yorkshire de dois anos de idade, a qual me tira completamente do tédio e ajuda a manter minha saúde mental. Sou advogada empregada e o escritório onde trabalho optou por nos manter em casa desde o meio de março. Felizmente – e ao contrário do que ocorre com a maioria por aí – temos recebido o apoio e a estrutura para continuar a produzir do conforto e da segurança do lar. Mas, sinto muita falta de ir até o escritório e interagir com as pessoas. De sair para almoçar com os colegas e poder escolher qual restaurante ir. Sinto falta da gritaria do Centro de Porto Alegre e até daquelas coisas chatas ou irritantes que eram vivenciadas no cotidiano, por exemplo, as pessoas andando devagar na tua frente. Sinto falta da minha família (maioria do grupo de risco e que não os vejo desde março), dos meus amigos, de ir em um parque tomar um chimas e de comer uma pizza e tomar um Spritz em um bar. Basicamente meus “passeios” consistem em duas vezes na semana andar pela quadra com a Mel, ir ao mercado uma vez por semana e ir de vez em quando presencialmente na terapia (demais sessõea feitas online).

Hoje fui acordada pelo despertador e pela Mel jogando um dos seus brinquedos (o Pingo) na minha cara. Era seu convite para acordar e brincar. Não consegui fazer algumas posições de yoga para me despertar e alongar e fiquei me enrolando um tempo na cama brincando com a Mel. Nestes tempos de pandemia tenho tentado me permitir e me julgar menos. Mas, quando tomei coragem para sair da cama, tomei meu café, mudei a água da Mel, dei a sua comida e dei uma leve geral na casa (tirei o lixo, passei aspirador e lavei a louça que havia ficado da noite anterior). Depois de feito isso, passei um novo café e sentei para trabalhar. 

O trabalho da manhã pouco rendeu e fui almoçar. Marmitas congeladas caseiras me salvam em muitos dias e hoje o menu foi panqueca de frango, arroz e feijão. Após o almoço, dei uma olhada nas redes sociais, mais atenção para a Mel, tomei um banho para tirar a preguiça e fiz novo café para iniciar o turno da tarde.

Sentei para o novo turno e fui interrompida pela Mel, que roubou minha piranha de cima da mesa (?) e veio me “desafiar”. Foram alguns minutos perdidos atrás da yorkshire de três quilos que se move com muita destreza. Recuperada a piranha e tendo sido dado um “pito” na dog, já sem concentração pedi um doce para alegrar a tarde.

Recuperar a concentração em tempos de pandemia é algo que tem sido desafiador para mim e para muitas pessoas, mas o trabalho fluiu. Não como eu gostaria, mas fluiu. O doce pedido por um aplicativo deu uma animada e consegui cumprir com meus principais objetivos do dia de trabalho.

Chego ao final da tarde um pouco irritada por não ter minha vida normal de volta, mas faço os planos para a noite: uma(s) taça(s) de vinho branco, pizza, Mel, whats com amigos e ver “As telefonistas”, seriado da Netflix.

Esse foi o meu dia. Um dia normal (?) de uma cidadã porto-alegrense que vive momentos de altos e baixos em seu distanciamento social, mas que não perde a fé e a esperança de que dias melhores virão.

28.5.20

Dia 72: por Edvanio Ceccon

Um pouquinho de história.

“Para quem está muito assustado com o que ocorre hoje, uma reflexão:
Imagine que você nasceu em 1900. No seu 14º aniversário, a Primeira Guerra Mundial começa e termina no seu 18º aniversário. 22 milhões de pessoas morreram nessa guerra. No final do ano, uma epidemia de gripe espanhola atinge o planeta e dura até o seu aniversário de 20 anos. 50 milhões de pessoas morrem disso nesses dois anos. Sim, 50 milhões. No seu 29º aniversário, a Grande Depressão começa. O desemprego atinge 25%, o PIB mundial cai 27%. Isso vai até os seus 33 anos. O país quase entra em colapso com a economia mundial. Quando você completa 39 anos, a Segunda Guerra Mundial começa. Você ainda nem chegou ao topo da colina.  E não tente recuperar o fôlego. No seu 41º aniversário, os Estados Unidos são totalmente atraídos para a Segunda Guerra Mundial. Entre os 39 e os 45 anos, 75 milhões de pessoas morrem na guerra. Aos 50, a Guerra da Coréia começa. 5 milhões morrem. Aos 55 anos, a Guerra do Vietnã começa e não termina por 20 anos. 4 milhões de pessoas morrem nesse conflito. No seu aniversário de 62 anos, você tem a Crise dos Mísseis Cubanos, um ponto de inflexão na Guerra Fria. A vida em nosso planeta, como a conhecemos, deveria ter terminado. Grandes líderes impediram que isso acontecesse. Quando você completa 75 anos, a Guerra do Vietnã finalmente termina. Vamos tentar manter as coisas em perspectiva, tá tranquilo”.

Daí eu lembrei de uma conversa com um grande e sábio amigo:

"Tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis criam homens frágeis que criam tempos difíceis"...

A vida é um ciclo e teremos que passar nossos próprios tempos difíceis... Que possamos olhar o passado e aprender com ele, e construir um futuro verdadeiramente novo!

Recebi esse texto ontem e refleti bastante.

Primeiro, me impressiona que em apenas um século tenha ocorrido tanta desgraça. Não era para ser assim. No início do Século XX vínhamos do Iluminismo, da era das ideias e da razão, o homem triunfava sobre os mitos e divindades. A arte moderna e a diversidade cultural floresciam, a indústria e a tecnologia avançavam. A década de 1920 foi marcada pela criação literária e artística na Europa, especialmente em Paris (lembram do filme do Woody Allen, Meia-Noite em Paris?). Os direitos humanos se expandiam, as mulheres ganhavam direito ao voto, as jornadas de trabalho diminuíam, a seguridade social se ampliava. O que deu errado com o homo sapiens?

Também acho que olhar para essas milhões de mortes passadas não pode nos conformar com o que acontece hoje com o coronavírus. Claro, sabemos que isso vai passar, mas duvido que aqueles que morreram com a gripe espanhola em 1918 não tentaram fugir dela a todo custo. Cada vida poupada é uma vitória. Temos que evitar o raciocínio de Stalin, de que uma morte é uma tragédia, mas milhões de mortes são só uma estatística. A morte jamais pode ser encarada como somente um número. Hoje no Brasil, mais de 26 mil pessoas sentem a falta de um ente querido levado pela covid-19. Tente colocar 1+1+1... até chegar aos 26 mil e terá a ideia dessa falta.

Claro, a humanidade não acabará com essa pandemia, “tá tranquilo”. Mas não voltará a ser como antes. Disse o ex-ministro da Saúde Mandetta que o Século XXI começou agora em 2020. Acho que é isso mesmo. Antes de 2020 e depois dele. Não faço previsões, falo do agora: pessoas isoladas, viagens canceladas, comércios freados, turismo inexistente. Fronteiras fechadas, controles rígidos, migrações interrompidas. A internet virou a vitrine da morte. Foi preciso apenas quatro meses para que a exaltada globalização fosse varrida do mapa. Por um vírus microscópico e invisível. Com o avanço da medicina (mapeamento do genoma, células-tronco, exames e pesquisas cada vez mais avançados) não era pra estar tudo no controle? Até o final do ano passado, diziam que já tinha nascido quem iria viver até os 150 anos. Agora ninguém mais fala disso.

Não sei se essa pandemia foi um “cisne negro”, evento imprevisível, improvável e de grande impacto, na definição do escritor libanês Nicolas Nassim Taleb. Isso porque vários epidemiologistas previam que ela poderia acontecer, mas ninguém dava ouvidos. Mas é inegável que ela fez ruir toda a certeza e controle que pensávamos ter sobre nossa vida. Em quatro meses ficamos acuados e indefesos, olhando pelas janelas para um inimigo invisível. Isso nos faz parar para pensar. O homo sapiens não era tão sapiens assim.

27.5.20

Dia 71: por Annie Müller

Faz tempo que eu não sei exatamente quando começa o dia. Estou num ciclo repetido de ser alimento da cria, experiência materna que além de nos tornar os animais humanos que somos, também nos confunde noite e dia.

Penso que, hoje, a Helena acordou perto das cinco da manhã, pois ainda estava escuro. Mamou peito, capotou. Estou evitando ligar o celular durante o nosso momento, afinal, é o nosso momento, por isso não sei que horas ela acordou. Quando a mamada se estende e eu quase caio no sono com a bebê no colo, então prefiro pegar o Kindle no lugar do celular. O celular abre espaço para o mundo inteiro, e nos dias de COVID-19 é preferível resguardar as notícias para depois da simbiose mãe e filha. O Kindle salva. Eu havia deixado o dispositivo de lado há quase dois anos, quando concluí o mestrado. Na época, usei bastante, especialmente para ler os teóricos (sou mestre em escrita criativa). Mas, desde que a Helena nasceu, o Kindle é uma companhia nas noites, me possibilita ler mais do que eu conseguiria se estivesse limitada ao livro de papel. Tudo isso porque ele tem luz e não preciso acender a luminária e incomodar o homem que dorme ao lado nem a bebê que está grudada na teta. Além disso, posso manipulá-lo e mudar as páginas usando apenas uma mão, enquanto a outra segura a Helena. Aperto o botãozinho, a mágica acontece. O Kindle é silencioso, discreto, estou apaixonada (sou publicitária, caio logo num merchandising natural sobre produtos que aprovo). Abro num livro facinho, leitura que não exige muito, mas me deixa feliz. Nessa madrugada quase dia, escolhi um texto budista de um dos tantos mestres Rinpoches, que eu adoro. Mas também Caio Fernando Abreu tem me acompanhado. Venho preferindo contos faz tempo. Os romances, ah, os romances são privilégios da vida sem tantos filhos (tenho três com menos de três anos).

A minha leitura mudou muito desde que me tornei mãe, mais ainda na quarentena. Não somente eu mudei com o isolamento necessário: os meus jeitos de fazer as coisas mudaram. Leio trechos, pauso, parto para outra atividade. Tarefa em cima de tarefa e a noite vira dia. Desperto de novo pelas sete. Alimento a cria, depois ainda faço meu último sono matinal. Nove horas e o despertador vem em forma de canção do outro quarto: ‘ ia-ia-ô, o seu lobato…’. São dois meninos, gêmeos, que despertam ao mesmo tempo, desde que nasceram (impressionante a conexão entre gemelares, ela existe mesmo e não é crendice popular). Os garotinhos nos chamam: “mamãe, papaiii”, e o meu marido busca os dois ao mesmo tempo; ainda dormem em berços e precisam da nossa ajuda. Ele traz os meninos para a nossa cama e viramos um amontoado de humanos sem hora para sair do ninho (vantagem da quarentena). Brincamos, rimos, nos beijamos, os gêmeos começam a se empurrar e lutar pelo espaço preferido da cama — o meio, entre os dois travesseiros "gandes”. Arthur logo nos deixa, saindo para a sala, resmungando pela mamadeira, e o dia começa oficialmente ali, quando a calmaria e o silêncio são substituídos pela agitação e a lista mental dos afazeres do dia: mamadeira para eles, mate para mim, teta para a Helena, lanche da manhã — mingau, panqueca, o que desejam hoje?, brincadeiras pré-almoço, teta da Helena no almoço, sono da tarde, teta da Helena da tarde, lanche da tarde dos meninos — banana de novo?, brincadeiras que se limitam aos oitenta e nove metros quadrados do apartamento. Nos acostumamos a viver apertados, todos muito próximos, e poderia ser pior. Acontece que Arthur e Gabriel estão vivendo a fase dos dois anos, a chamada adolescência da infância, o que significa que estão (ainda mais) inquietos, rebeldes, irritados, agressivos. Sim, agressivos. Com o isolamento social, começaram a se bater a toda hora, a lançar objetos longe e já quebraram uns quantos. Quarentena também do prejuízo, a nossa. Eles sabem que existe um bichinho no ar. Um bicho que, agora, estão associando com a escola, para onde não querem voltar depois das “férias". Tratamos de falar pouco sobre o Coronavírus, mas as crianças pegam as coisas muito mais fácil do que julgamos. Crianças sentem antes, seres abertos que são. Seres que não pensam em nada muito grandioso, mas sentem muito grande. Tentamos falar, dialogar, mas além do medo do bichinho no ar, eles também sentem a falta do pai, que continua trabalhando, gerenciando a tele-entrega dos restaurantes para (tentar) não se afundar na crise. Ainda assim, será difícil sair dessa sem se endividar para pagar as contas e honrar as pessoas que trabalham com ele. O Coronavírus é, primeiro, uma crise sem precedentes na saúde, claro. Mas ele nos testa não somente o corpo físico, mas o mental. Não saber o dia de amanhã é o mais louco de tudo. As campanhas publicitárias nos dizem que “vai passar”, e tentamos quantificar esse tempo, em vão. Aqui em Porto Alegre alguns muitos já se vão às ruas, inclusive sem máscaras, mas a minha família escolheu se manter quieta para cuidar de si e da vida dos nossos pares. Porque mesmo quando sairmos de novo para a rua, estaremos ainda menos seguros do que já estivemos e mais cautelosos e solidários do que nunca. Assim espero. Que a transformação aconteça a começar por nós mesmos.

O vírus se transforma a cada dia, dizem os especialistas. E a gente também. Estamos mais ansiosos, mas talvez mais criativos. Mais sensíveis, me parece, e por isso empáticos. Ligamos para os nossos amigos e familiares a toda hora. Oferecemos ajuda, nos cuidamos. Afetos surgem como bolhas de sabão lançadas pelas crianças: voam e enchem de brilho e frescor o nosso arrastado período de confinamento. Na nossa casa, oscilamos entre nervosismo e aceitação, paciência e compaixão, desânimo e esperança. Tentamos nos deslocar para aqueles que vivem situações tão mais difíceis. Mentalizamos pela saúde de todos. Agradecemos pela nossa matilha. Quando já é noite, bastante tarde, depois das dez, e nos sobram alguns minutos, meditamos, com as crianças no colo, quase adormecidas, ao som de um mantra poderoso.

Correm dias e noites e nos colocamos assim, em nosso clã, a nossa família a nos blindar das ventanias, conscientes da nossa miudeza e da força daquilo que não podemos controlar. Sinto a pandemia como tentar o controle sobre a nossa vulnerabilidade. Porque o mundo já tem gente demais e sorte a de quem escreverá mais algumas páginas de diários nessa existência.

Vou dormir pensando que estou com eles. Estamos vivos. Estamos aqui, juntos. Mais juntos do que nunca.

26.5.20

Dia 70: por Felipe Zanini

Sabotando a rotina de sono que estou tentando seguir há alguns dias, encontro-me na escuridão do meu quarto, possibilitada pelas cortinas blecaute que cortam a luz do poste da rua que fica praticamente em frente à minha janela.

Algumas semanas atrás, uma amiga minha colocou dicas de leitura em seu stories do Instagram. Uma delas foi que, para ler mais, ela costuma ler antes de dormir. Como é uma pessoa ansiosa, a leitura a impede de ficar pensando sobre as mil e uma possibilidades de como as coisas poderiam ter sido ou poderão ser. Ao mergulhar entre as páginas de um livro, ali fica presa até que, eventualmente, dorme.
Tenho seguido essa dica e tem funcionado. Na verdade, eu não leio antes de dormir para ler mais, leio antes de dormir para, de fato, dormir. Hoje isso é nítido pra mim: estou deitado há mais de uma hora com a tela do celular próxima a meus olhos e o sono que estava acostumado a sentir já pelas 23:30 se foi por completo (já são 00:40).

Pack yourself a toothbrush, dear
Pack yourself your favourite blouse

É claro que tinha que ser essa música que o Spotify colocaria no aleatório. Você (ou “tu”, tanto faz. Nunca me importei muito com isso) já parou para assistir o clipe de Sleep on the floor, da banda The Lumineers? É a mesma banda que fez aquela música que ficou muito famosa alguns anos atrás em que várias vezes é dito "ho, hey" (esse é o título, a propósito). Eu sei que o clipe é só uma parte da narrativa que eles criaram para seu último álbum/EP ou qualquer-que-seja-o-nome-disso (adoro colocar hífens entre as palavras, mesmo não sabendo se é apropriado), mas que pode ser assistido separadamente. Eu considero um clipe meio desconfortável. Vou te resumir (não me pergunte por que aqui escolhi te tratar como “tu” e não “você”): a moça está no enterro do pai e tem tipo uma visão da Raven, sabe? (Millennials, uni-vos) Ela enxerga como sua vida pode ser se fugir com o namorado. Aí segue a história: eles pegam um carro, viajam por aí, se casam e nunca mais retornam. Mas ela não foge com ele.

'Cause if we don't leave this town
We may never make it out

Como se já não me bastassem as diversas crises existencialistas que tenho ao ver as pessoas caminhando pela rua da janela do meu quarto (a propósito, moro algumas quadras de distância da Willi, que teve seu texto publicado uns dias atrás. Fica aqui o registro que vou convidá-la para um café e bolo pós-pandemia) e das noites em que deito na rede que tenho ao lado da janela da sala, de onde passo alguns longos quartos de hora admirando as estrelas que têm se tornado cada vez mais brilhantes desde o início do isolamento, meio que ignorando o fato que quase nunca são visíveis no céu porto-alegrense, o clipe do The Lumineers me faz pensar em coisas que poderia ter feito, em instintos que poderia ter seguido e, principalmente, em pessoas a quem poderia ter me entregado.

Já desisti de dormir. Estou na cadeira que tenho ao lado da janela do quarto. Levantei as cortinas blecaute até a metade e abri a janela. Está frio, mas tenho duas cobertas sobre meu corpo. O vento parece brigar comigo, me empurrando, me fazendo tremer um pouco, mas tenho esperança que isso me acalme e me faça relaxar. Um casal passa de mãos dadas na rua.

Há alguns bons anos assisti Principe Caspian, da saga As crônicas de Nárnia, e eu lembro até hoje uma fala de Aslam (aquele leão-falante, sabe?): "Não vale a pena pensar em como as coisas poderiam ter acontecido, porque isso nós nunca saberemos". Talvez não tenham sido essas as exatas palavras, mas essa era a ideia, basicamente.

Por que cheguei até aqui?

I was not born to drown.

Ah sim, claro. A música do The Lumineers (agora já mudou pra um reggaeton qualquer, mas tudo ok).

Essas crises existencialistas que tenho ao olhar para as pessoas, ou para as estrelas, são as mesmas que me fazem escrever. Ainda não achei o estilo exato que tenho mais afinidade com. Às vezes sinto que não sou bom nem para conto, nem para romance, nem para poesia, nem para crônica, nem para qualquer-que-seja-outro-formato-de-texto-literário-que-não-esse-que-escrevo-agora. Mas é nesse ritmo, meio que vomitando as palavras que tenho soltas dentro de mim, que tenho escrito mais. Essas noites em que paro para observar as estrelas, são as que me sinto mais solitário, pois me sinto um mísero grão de areia em meio a imensidão do universo de constelações que marcam o céu noturno. Estranho, acabei de reparar que as estrelas são bem frequentes em meus textos. Mas, voltando. Essas noites em que paro para observar as pessoas caminhando na rua, são as que me sinto mais perdido, pois fico imaginando qual o trajeto que elas seguem, se tem família, se tem ambições, se tem amores. Qual o seu destino? Qual o nosso destino? Há um destino? Essas noites em que eu paro, são as que me sinto mais fluido. Não é nem que eu me sinta inspirado, sabe? Eu só sinto que as palavras vão pro papel, ou para a tela do computador, de maneira mais natural, mais corrente, feito água. Escrevo fluxos de consciência, ao estilo do que estou escrevendo agora, mas que são muito mais profundos. 

Meu objetivo com esse texto? Não sei. Acho que quero apenas deixar um pouco da oscilação da minha produção literária em meio ao caos atual. Meu professor de não ficção disse uma vez que tenho aptidão para escrever sobre sentimentos. Espero que isso não tenha ficado tão profundo.

Já fechei a janela e voltei para a cama. Meu deus, como está frio. Opto por não colocar um alarme no celular, porque não preciso levantar cedo amanhã, então me darei ao luxo de acordar o horário que meu corpo quiser. Boa noite.

25.5.20

Dia 69: por Ana Ávila

Mamá, mamá, mamá. Um gritinho cada vez mais alto e ansioso me tira de um sono profundo. Passo os olhos pelo celular: 5h47. As noites não têm sido fáceis. Dezenas de dias se amontoam muito parecidos. Sei que lá por meados de março nos fechamos em casa. De lá pra cá, contamos as raras saídas nos dedos das mãos. Às vezes, me pego pensando com incredulidade que quase não vi tv, li, deitei no sofá ou na rede com meus próprios pensamentos por uns poucos minutos em todo esse tempo. 24 horas em casa, como é possível? A natureza ansiosa nunca me deixou aquietar corpo e mente por muito tempo, é verdade. Quando um para, o outro acelera. Mas, a rotina de repetir à exaustão atividades às quais não podemos nos furtar com uma bebê em casa exige, do corpo e da mente, uma energia diferente.

O engraçado é que parece tudo igual, mas não é. Longe de ser. Assim como o mundo muda lá fora, a gente muda aqui dentro. Em 28 de abril acordei às 5h50, fiz café cantarolando trechos de não mais de 10 segundos de músicas variadas - de Tiquequê a Belle de jour -, o entretenimento favorita da Flora enquanto a gente prepara a refeição e atende ao pedido recorrente: ‘mais pão’. Uma mão mexe os ovos, a outra passa o café, um pedacinho de pão pra nenê, ah hei! ah hei! ah hei!, pica o mamão, busca o copo d’água que ficou no quarto, e batedeira, e furadeira, pipoca e liquidificador, torra o pão que já tá ficando velho, se eu fosse uma formiguinha, seria pequenininha, mais pão, empurra o cadeirão pra sala, senta, uma colherada de ovo, uma de mamão, mais pão, o café esfriou, esquenta o café, mais pão, ovo, mamão, acabou o pão, filha. Troca a fralda depois de uma longa, longuíssima argumentação, história sem fim sobre o porco da fralda cheia, distração com o quadro do coelho, argumentações totalmente infrutíferas, risadas, cafungadas no pescoço e um pouco de gritaria também. Bola, balão, dancinha pela sala, o papai acordou, eba! Ele levanta com a cara ainda amassada pela maratona noturna com a nenê. Parece tudo igual, mas não é.

Fecho a porta do quarto pra última revisão da apresentação. Leitura dinâmica, uma olhada rápida nos slides. Testo o skype, que não usava há uma eternidade. Lento, travando, desisto. Volto pra sala já na hora do almoço da nenê. Dou a comida. Da cozinha vem um cheiro bom de alho fritando na manteiga. Leo caprichou no tradicional, rápido e delicioso espaguete com molho de tomate. Ele bota a nenê pra dormir enquanto eu finalizo almoço e arrumo a mesa. Sempre comi rápido, mas ultimamente tenho a sensação de que a comida simplesmente desaparece do meu prato sem que eu nem perceba. Volto pro computador. Meu orientador avisou que não será mais por skype. Microsoft Teams. Desconheço. Login, teste, tudo certo. Às 14h30 começa a defesa. Depois de dois anos, vou enfim me tornar mestra em Ciências da Comunicação.Títulos nunca pareceram tão inúteis. O pensamento vem pronto. Repenso. Não é o título. É uma pesquisa que me orgulha, que consumiu boa parte dos meus dois últimos anos, que tensiona a relação entre violência de gênero, mídia e redes sociais. Ok, me deixo estar feliz e orgulhosa de mim mesma por uns instantes. Parece tudo igual, mas não é.

Em 16 de março fui à Unisinos pela última vez. Fazia poucos dias que tinha me dado conta da gravidade da situação. Naquela semana embarcaríamos para a Espanha de férias. Até dias antes, mantínhamos os planos como se possível fosse. A minha medida mais extrema havia sido comprar um vidro de álcool gel, meio por acaso, quando vi no caixa da farmácia. Quando olho pra trás, tudo parece ainda mais absurdo. Desistimos e insistimos umas quatro vezes em poucos dias até batermos o martelo. Enquanto isso, eu lia ansiosa o noticiário nos principais sites espanhóis várias vezes ao dia. Parecia controlado, estaríamos exagerando? Fazia contas, pensava e repensava. Quando tomamos a decisão e partimos pros cancelamentos, alguns anfitriões do airbnb indicavam que a decisão era um equívoco. ‘Em Sevilla, no pasa nada’, me respondeu uma delas. Em 15 de março a Espanha iniciou o bloqueio nacional. No dia 20, quando chegaríamos ao país, superou os mil mortos. Em 25 de março, já era o segundo com maior número de vítimas fatais no mundo, atrás somente da Itália. Dois meses depois da data em que terminariam nossas férias, voltei a receber mensagens e e-mails com promoções de viagens. ‘É tempo de… sonhar, planejar e em breve viajar’, diz um deles. Parece tudo igual, mas não é.

Ainda é estranho pensar que passamos meses achando passagens pelas quais pudéssemos pagar, pesquisando as melhores opções de hospedagem com bebê, montando o roteiro de carro, planejando reencontrar gente querida e, de um dia pra outro, nada disso era possível. Decidi, ainda assim, tirar uma semana de férias. Foi a mais fácil até aqui, talvez por ser a primeira, possivelmente por ter me mantido o mais longe possível do noticiário - tarefa impossível no restante dos dias, quando a natureza da profissão me obriga a mergulhar sem emergir no esgoto que se tornou o que precisa ser noticiado. Naqueles dias, no entanto, ainda era difícil imaginar como seria passar meses praticamente sem sair de casa. Não sabíamos o limite entre a organização e o desespero. Fizemos listas de compras insuficientes, que exigiam saídas mais frequentes do que o necessário. Aos poucos, fomos nos adaptando à nova rotina. Chegou o dia em que um dos porteiros do prédio interfonou só pra saber se estava tudo bem. Me dei conta de que sumimos, apenas. Parece tudo igual, mas não é.

O barulho tão comum no centro de Porto Alegre foi se fazendo cada vez menor. No começo, chegava a ser esquisita a ausência de vozes e risadas na calçada movimentada noite adentro. Logo virou o novo normal. Nas raras descidas, bares e lancherias com fitas de isolamento, mesas recolhidas e poucos funcionários. No rosto, máscaras e olhos apreensivos. Mas esse novo normal também se foi. Na semana passada, um decreto municipal permitiu que bares e restaurantes reabrissem. Muitos outros serviços já haviam sido retomados. Havia quem acreditasse que não seria o suficiente pras pessoas saírem de casa sem necessidade. Parecia o óbvio quando o país já tinha mais de 20 mil mortos e 300 mil infectados. Mas não foi. O burburinho na calçada voltou, misturado aos carros, às obras, ao caminhão de lixo que ganhava protagonismo quando todo o resto era silêncio. Parece tudo igual, mas não é.

Flora já tem cabelos que podem ser presos em colinhas. Fala dúzias de palavras. Sabe o que são vídeochamadas. Lembra dos membros da família por grupos de nomes que repete volta e meia, canta trechos ou completa palavras de várias músicas. Escala sozinha o sofá, pula pra poltrona, desce da cama, se pendura no peitoril da janela. Isso tudo aconteceu desde que nos fechamos em casa. Parece tudo igual, mas essa criaturinha efervescente ao nosso redor nos faz ver que não é.

24.5.20

Dia 68: por André Roca

Saí para correr. Deixei o celular em casa para não cair na tentação de ligar o Strava e registrar meu crime (mas usei máscara, o que me faz um criminoso à moda antiga. Se bem que...).

Tive de intercalar, claro. Corre um pouco, caminha muito mais, corre outro pouco. Porque são sei lá quantos dias de quarentena, sem futebol, sem outras corridas, sem qualquer atividade física mais intensa fora as aulas do Filipe via Instagram, e com uma bagagem extra que já está literalmente na cara.

De casa até o Pérola Negra dá uns quatro quilômetros, pensei, e isso deve queimar alguma coisa do café da manhã e, com aquele morro no meio do caminho, talvez parte do almoço.

Foi bem nessa subida, na volta, já pensando no café da tarde, que me dei conta, pela primeira vez, que odeio correr sozinho.

Era isso! Faltava uma parceria para competir, ver quem chega primeiro, quem vai mais rápido, quem vai pedir antes para ir mais devagar.

Pensava nisso quando dois cachorros, um branco e um preto, cruzaram por mim, língua pra fora, uma cara de felicidade. Eles corriam livres, sem saber dos perigos do coronavírus. Provavelmente, competiam.

Cheguei a me virar para ver aqueles dois rabinhos abanando enquanto se distanciavam em velocidade.

Já estava no pé do morro quando uma idosa com ares orientais me interpelou:

– Moço, viu dois cachorros, um branco e um preto, passarem por aqui?

Sim, eu tinha visto. Subiram o morro. Foram em direção ao Pérola Negra. Corriam livres e leves e despreocupados. Nem devem saber da pandemia, pensei em dizer.

– Foram por ali.

Apontei. A senhorinha tinha ares muito frágeis. Começou a caminhar apreensiva, mas vagarosamente. Não chegaria nunca até eles.

Pensei nas minhas avós e em como eu gostaria que alguém as ajudasse.

– Faz assim, a senhora segue em frente, mas eu vou correndo, chego antes e seguro eles. Pode ser? Qual o nome dos dois?

E lá fui eu, correndo muito mais rápido do que antes, com uma missão a ser cumprida.

Encontrei Antônio e Joaquim já bem depois do morro. Um deles latia para uma moita, mordiscando o que parecia ser um pano enterrado. O outro, invadia as águas do Guaíba num banho de liberdade.

Chamei-os.

O preto me olhou. Rosnou. Depois latiu com ameaça.

O branco saiu da água e fez mesmo.

Os pedestres não entendiam nada, olhando um cara chamar dois cachorros por nomes de gente sem que surtisse qualquer efeito.

Eu olhava na direção por onde a velhinha deveria surgir, mas nada dela aparecer.

Os cachorros, então, resolveram seguir a corrida.

Fui atrás.

Pararam de novo.

Eu chamava.

– Joca! Antônio! Já pra casa!

Latidos e rosnadas eram tudo o que eu recebia.

Pensei de novo no prazer de competir. E na figura de um orientador. Alguém que por vezes é responsável por nos dizer que a postura está errada, que temos de aguentar mais um pouco, melhorar a passada. E que temos de ir.

Estava na hora de ir.

Peguei uma vareta na grama, tasquei uma chibatada no chão e falei ameaçador:

– Joca! Antônio! Já pra casa, agora!

Ganhei mais latidos e mais rosnadas, mas eles iniciaram a jornada de retorno.

Pude correr de novo, agora atrás deles, batendo a varinha no chão vez ou outra:

– Joca! Antônio! Já pra casa, agora!

Foi tão boa essa corrida que nem dores eu senti no dia seguinte.

Sobre a dupla? Teve uma hora em que sumiram de vista. Mas já estavam nas imediações de casa. Também não achei mais a senhorinha. Talvez ela tenha descoberto o prazer de uma competição naquele dia.

23.5.20

Dia 67: por Liége Biasotto

Antes de começar a compartilhar minhas percepções cotidianas sobre o isolamento, permitam-me que eu me apresente. Acho necessário contextualizar como era a minha vida  antes pra que se possa entender o agora. 

Sou produtora cultural, moro com meu companheiro Mateus e nossos três gatos, e minha rotina sempre foi muito ativa. Embora já trabalhasse de casa, meu dia era ocupado por diferentes reuniões e encontros, refeições em restaurantes - por não ter tempo e nem vontade de cozinhar -, academia e vida social agitada, onde a melhor parte do dia era ir para um bar, para um show e encontrar pessoas. Sempre me ocupei muito, um pouco por querer fugir da realidade, por ansiedade, pela vontade de devorar o mundo.

Mas hoje faz 65 dias que tudo mudou, virou de cabeça para baixo.

As primeiras semanas de quarentena foram difíceis. Vi vídeos de pessoas isoladas em outros países, relatando o que estava por vir. O que me trouxe pânico e, metódica e planejadora que sou, montei logo uma rotina, cheia de metas e objetivos. Comecei aulas online de yoga e de francês, me inscrevi em três cursos gratuitos online, criei um projeto pessoal para me dedicar, comecei a desenhar estratégias de trabalhos alternativos em nova versão e conceito, pensando em manter a cabeça ocupada e as perspectivas ativas.

As semanas têm passado como uma montanha russa de emoções. A euforia de preencher os dias deu lugar a um par de semanas de muito sono e depressão. Medo e desmotivação pela falta de caminhos, pela de falta de controle, por não ver mais sentido em fazer ou criar nada novo. E então chegamos no aqui e agora. Dois meses e um punhado de dias.

Faz duas semanas que não me exercito, larguei as aulas de yoga, não faço mais as aulas de francês. Um mês que não abro os cursos gratuitos e quase dois que não encosto no meu projeto pessoal. Meu tempo foi reconfigurado. Minha prioridade passou a ser as próximas horas, o hoje. E começo a gostar disso. 

Gosto das pequenas coisas. Do dormir sem despertador e ver que meu corpo acorda sozinho depois de 8 horas de sono bem aproveitadas. E não importa mais que horas são neste acordar, se é cedo, se é tarde. Saio da cama e faço meu ritual: tomo café com calma e fico procurando os cantinhos de sol pela casa. No amanhecer, pega sol no sofá da sala. Perto do meio dia, tem sol na cama e posso voltar pra lá por mais um tempinho pra ler alguma coisa. Pelas 16h, o sol atravessa o apartamento e posso pegar mais um calorzinho. 

Fazia dois anos que eu não cozinhava. Agora, é uma das coisas que mais me acolhem nesta quarentena. É como se a cozinha fosse meu espaço de criação. Abro a geladeira, vejo o que tem, o que está prestes a estragar e precisa ser cozido antes. Me arrisco a fazer uns pães. Pão leva tempo, demanda paciência. Sova, descansa, sova de novo, descansa mais. É como se o tempo do pão fosse um presente.

Esses dias, falava com uma amiga sobre como a quarentena nos trouxe conexão com a nossa casa. Descubro os cantos, os livros, os objetos, a poeira acumulada embaixo dos móveis, umas teias de aranha e mosquitos no gesso do teto. Descubro coisas que comprei há anos, nunca usei e que agora me são úteis. Utensílios de cozinha, lápis de cor, blocos e cadernos, temperos e chás que não venceram. Parece que o tempo das coisas mudou junto com o meu. 

Coisas que eu comprava uma vez por ano, passaram a ser compras rotineiras: detergente, azeite, álcool, esponja, grãos… Minha geladeira, que era descongelada semestralmente, agora pede uma atenção mensal. O gelo se forma rapidamente lá dentro, fico sem espaço para congelar minhas criações. 

Nossas saídas de casa estão cada vez mais esparsas. Começamos indo ao mercado uma vez por semana, depois a cada dez dias, a cada quinze e, agora, estamos na meta dos vinte dias. Os ranchos são maiores e estranhamente mais baratos, pois nossos hábitos de consumo também mudaram. Faço uma lista ao longo dos dias para garantir que, quando tenha que sair, não esqueça de nada. Atenho-me ao essencial, às coisas que duram mais, e faço a manutenção dos itens frescos com a feira online.

Mas o sair de casa passou a ser o auge do estresse enquanto casal. Por isso a necessidade de espaçar cada vez mais as idas ao supermercado. Quando saímos é quando normalmente discutimos. Um excesso de cuidar do outro e de paranoia. Mas ainda preferimos fazer isso juntos, dividir a busca pelas coisas da lista, ficar o menor tempo possível na rua.

Sair de casa para ir às compras essenciais necessita um planejamento. O que era tão comum e tranquilizador para mim, agora se torna um grande fardo. Precisamos já ter almoçado antes de ir, pois a função levará horas. Precisamos já ter lavado a louça para que a pia esteja vazia ao chegar. Uma pré-faxina antecede a ida ao super. Casa limpa, chão varrido. 

Quando chegamos, eu entro primeiro, sem sapatos, lavo as mãos e prendo o Madruga no escritório para que ele não fique se roçando nas sacolas. Mateus lava as compras, eu seco e guardo. Sacolinhas de molho na água com sabão e alvejante, que depois serão estendidas ao sol, secas e dobradas uma por uma. Álcool em tudo que encostamos. Roupas na máquina, banho e pano com clorofina no chão de toda a casa, a finalização da faxina iniciada. Todos limpos e assépticos. As compras, a casa e nós. Essa função nos toma um turno inteiro e nos ilude que assim estamos a salvo.

Minha rotina de trabalho também mudou. Agora, trabalho quase um turno por dia. Divido todas as tarefas da semana em pequenas porções diárias, pois o tempo de executá-las já não importa, nada é urgente. Faço pequenas etapas de cada projeto por dia. E isso já me basta. Transformei o desespero de falta de renda, que é inevitável, em resignação. Me acostumo com a ideia de viver com menos, mas com mais tempo.

A situação também trouxe soluções. Não exatamente soluções, mas tudo pode ser adiado e isso me tranquiliza. Conseguimos congelar o financiamento do apartamento e do carro por alguns meses, diminuir o valor do condomínio e o cartão de crédito, com a falta da vida social, se estabilizou. Nossos custos diminuíram para um quarto do que gastávamos anteriormente. Sei que essa conta vai voltar, algumas com novos juros, mas me atenho ao que posso controlar agora. O amanhã é o amanhã.

Só sei que me acostumo e começo a gostar dessa nova vida. Os encontros sociais passaram a ser online, estamos ainda mais conectados com amigos que não moram na cidade e nos vemos muito mais do que nos víamos antes, mesmo a quilômetros de distância. Voltei a falar com pessoas que há anos não via pessoalmente. Penso que as conexões se fortaleceram, as pessoas estão mais próximas de alguma maneira.

Ainda tem a comodidade do cansar do encontro social e ir dormir, na porta ao lado. Não precisar esperar o companheiro querer ir embora, nem pagar a conta, chamar um uber. Basta, simplesmente, trocar de cômodo e capotar, sem nem precisar trocar a roupa. Porque sim, sou daquelas que adotou o outfit moletom o dia inteiro, só mudo quando fica sujo. 

Inclusive, tenho lavado mais toalhas e panos do que roupas. Meu hábito de tomar banho também mudou. Antes ele era necessário ao acordar, para ajudar a conectar o cérebro e ficar em dia para os encontros sociais. Agora, a prioridade é dormir limpinha e quentinha. Os banhos passaram a ser à noite.

Parece que o tempo mudou, as prioridades mudaram. Mudou a percepção do que realmente é importante, quem queremos por perto. E gosto dessa ideia. Tenho medo de tudo voltar ao normal, da obrigação social, do custo de vida mais caro, da agenda cheia, da desconexão com a minha casa, da vida amortecida pelo externo. O isolamento, que chegou me tirando o chão, agora até poderia durar mais uns meses. Me sinto preparada para esperar essa tormenta passar.

O sentimento de resignação me trouxe a liberdade do tempo, a transformação do olhar e daquilo que é essencial. Espero encontrar equilíbrio na volta à normalidade, para quando o ermitão que há em mim sair da caverna, ele não esqueça que as urgências do mundo podem ser ilusórias. E lembre de limpar as teias de aranha que habitam a casa.

22.5.20

Dia 66: por Luís Felipe dos Santos

Dois João Pedro acordaram na segunda-feira, 18 de maio. Os dois precisavam ficar em casa: a escola não abria, a rua poderia fazer deles vetores de contágio. 

Os dois não poderiam sair, nem ver os amigos, nem aprender coisas novas, nem olhar para a cara das suas professoras para saber se elas estão de mau humor ou de bom humor. Não sentiriam o cheiro da cantina, também não iriam vestir uniforme. Não saberiam se o tênis deles iria apertar, se o sol seria quente demais para arregaçar as mangas da camisa, ou se o amigo iria apresentar uma coisa nova no caminho para a sala de aula.

Um deles eu conheço bem. Ele acordou, teve que fazer o seu ritual de café da manhã. A irmã, que estuda virtualmente pela manhã, já estava de pé. Almoçou um prato de yakisoba, sem legumes, a não ser alguns que o pai escondeu de forma estratégica. Tomou banho, jogou Minecraft, assistiu a uma aula por videoconferência. Descobriu mais algumas coisas novas sobre programação, correu a casa inteira enquanto assistia a um vídeo, brigou para dormir.

Eu nunca tive que enfrentar uma pandemia enquanto criança. Nem qualquer um de vocês, a menos que tenham passado pelo Congo na época do ebola. Adulto que sou, eu consigo olhar a curva do número de casos e saber da minha responsabilidade ao ficar em casa.

Fique em casa, diz a TV. O comercial. A hashtag. A celebridade. O youtuber. O filtro do instagram. O cartaz. O governante. Bem, nem todo governante.

O meu João Pedro sabe que tem que ficar em casa e usar máscara. Ele está em casa. Se sente seguro em casa. Em casa, ele não é vetor de contágio. Tudo vai ficar bem. Eu acredito. Ele também.

O outro João Pedro eu não conheço tão bem. Tudo que eu sei é que ele tinha 14 anos e que estava em casa. Ele se sentia seguro, assim como o meu. Deveria estar entediado, assim como o meu. Vivia algo inédito, assim como nós. Devia sentir saudade dos abraços, dos amigos, dos cheiros, assim como todos.

A diferença é que ele não vai poder sentir nada disso de novo, pois a polícia invadiu a sua casa à procura de bandidos que fugiram. A sua residência, onde ele se sentia seguro, onde todas as pessoas diziam para ele ficar, foi alvejada com no mínimo 70 tiros.

E nem mesmo o seu corpo ficou seguro, pois os policiais sumiram com ele e só foi encontrado 17 horas depois.

Todo dia nasce um novo João Pedro. Dependendo da cor, ele se torna um alvo. Na rua ou em casa. 

Não ser um alvo é privilégio.

21.5.20

Dia 65: por Rodrigo Schuster

Tomo o café sentado na varanda enquanto observo as vacas, que limpam suas penas e tentam controlar os animados bezerros que brincam eufóricos com suas recém aprendidas habilidades de voo. Enquanto meu planeta de origem está em quarentena, tenho aproveitado para visitar outros mundos, em dimensões paralelas. Conheci 33 mundos diferentes e, até aqui, esse, o décimo terceiro, é meu favorito.

Aqui o sol é verde, as vacas laranja-escuro quase ocre (a cor chama “aiotfes”, que significa “vaca”, na língua local), as ovelhas continuam com cara de idiota e bolsonaro é apenas o nome de um musgo cinza que surge durante o orvalho e desaparece nos primeiros raios de sol.

Gosto desse mundo. Descobri que nessa dimensão Hortelã é a divindade suprema e eu pareço ser alguma entidade que ela protege, ninguém sabe por que ou do quê, e já aceitei que ovelhas são idiotas em todas as realidades possíveis, paciência. Queria passar mais um tempo vendo os bezerros se divertirem fazendo novas manobras aéreas, porém Hortelã tem um reunião na cidade e preciso ir junto “para minha segurança”.

A cidade é perto, mas para não perder tempo resolvemos utilizar os TLRs (Tubos de Locomoção Rápida). A reunião parece importante, diversos cães apareceram. Hortelã deu instruções a todos e demonstrou o correto posicionamento dos gravetos. Agora, que temos tempo, decidimos não voltar pelo TLR, que, segundo Hortelinda (ela é uma divindade, tem vários nomes), resseca minha pele com o vento quente. Caminhamos um pouco e logo encontramos Jurandir, um boi amigo nosso que nos oferece carona. Eu nunca tinha voado tão perto das nuvens daqui, que são rosas porque o sol é verde e não por serem feitas de algodão-doce. Fiquei um pouco decepcionado. 

Chegamos na choupana. Hortelã se retira para atingir a iluminação e ir para o plano celestial. Nunca falamos sobre isso, mas imagino que os deveres dela no plano celestial tenham alguma relação com as reuniões matinais, pois, quanto mais agitada a reunião, mais tempo ela passa no plano celestial durante a tarde, mas pode não ser nada disso. Há coisas que um simples humano não pode entender. Enquanto Hortelã cumpre suas tarefas celestiais de Deusa Suprema do Multiverso, eu uso um TLR para ir ao centro comprar comida e encontrar alguns novos amigos. São muito práticos os TLRs: encontramos os amigos quase imediatamente, e depois entramos em outro e já estamos em casa, sem o inconveniente de perder tempo de deslocamento, durante o qual sempre lembramos de mais alguma coisa para dizer, como acontece lá no meu planeta de origem.

Parece que faleceu uma artista importante que eu, evidentemente, não conheço, e a maioria das pessoas com as quais falei também não conhecem, mas todas pareciam sinceramente consternadas. Quando um artista morre, o musgo cinza cresce nas calçadas e não some com o sol. Eu estava comendo e bebendo com uns amigos quando alguém leu uma nota de pesar sobre a morte da tal artista, era compositora e cantora, então me mostraram algumas músicas. Abraço meus amigos efusivamente, me despeço com uma quantidade exagerada de beijos que eles não entendem muito bem, caminho em direção ao TLR, nativos cantam uma das músicas que acabei de conhecer, e escaravelhos multicoloridos saem de suas tocas e devoram o musgo cinza.

Estou no sofá da choupana quando Hortihorti sai do estado de iluminação e retorna ao plano mundano.Ela se aproxima de mim com uma bolinha, para que eu corra atrás dela. Hortelã precisa fazer eu me exercitar todos os dias, para gastar energia e dormir bem. Um som forte chacoalha as janelas, e a Princesa mais Rainha de todas as Deusas manda eu me proteger. Reconheço o som do Devorador de Ovelhas, o cruel Deus principal do décimo sétimo mundo. Hortelã o rechaça com seu ataque “Fera Feroz” (ela mesma nomeia os ataques) e me avisa que posso sair: estou seguro.

Já é noite. As estrelas, lilases, brilham no céu azul-claro, as vacas formam um círculo e estendem suas enormes asas, formando uma cabana e protegendo umas às outras do sereno e do musgo cinza. Vou dormir porque amanhã a Bonitinha tem outra reunião, ainda não sei onde, mas espero que seja aqui.

Posso viajar por dimensões, conhecer mundos de diferentes tempos, em diferentes galáxias de diferentes universos. Mas só posso dormir, só pego no sono, na minha cama, do meu apartamento no meu planeta de origem.

Eu não sei onde nem quando você está lendo isso, mas no meu planeta de origem, nesse momento, a louça não se lava sozinha, cerveja engorda, um vírus está matando mais de 30 mil pessoas por semana e eu não encosto em outro ser humano há 68 dias. 

Boa noite, escaravelhos multicoloridos. Boa noite, lua rosa. Boa noite, aiotfes. Boa noite, Hortelã. Até amanhã.

"Eu vo mata o Corona" - Hortelã sobre sofá